Um algarvio no centro das decisões dos melhores museus da Europa

José Gameiro, diretor científico, professor e dinamizador do Museu de Portimão, foi nomeado em 2015, presidente do Júri internacional do Prémio Museu Europeu do Ano (European Museum of the Year Award - EMYA) e Prémio Museu Conselho da Europa (CoE). Esta semana viajou para Cardiff, no País de Gales, para preparar a próxima cerimónia de atribuição dos prémios a realizar em maio, em Zagreb, capital da Croácia.

barlavento – É presidente do júri internacional de dois dos mais relevantes galardões atribuídos na Europa a museus. Estará nesta função até quando?
José Gameiro –
Até 2018. Tem sido importante, não só do ponto de vista pessoal, mas também porque é uma maneira do Museu de Portimão estar, de certo modo, ligado a esta realidade. De facto é a primeira vez que um português, um algarvio, é presidente do júri. Uma coisa é ser júri, como já o era desde 2011, outra é ser presidente de um um coletivo de 12 colegas de 12 países, desde Azerbeijão, Dinamarca, Holanda, Bélgica, França, Espanha, Grécia, Alemanha, Eslovénia, Finlândia, Suíça e Portugal. Estou convencido que foi devido ao nosso prémio «Museu Conselho da Europa», conquistado pelo Museu de Portimão, em 2010, que me fizeram o convite. O júri é o mesmo para os dois prémios e engloba os 47 países da Europa e não apenas os da União Europeia.

Em que sentido são galardões diferentes?
O prémio «Museu Conselho da Europa» tem características diferentes do «Museu Europeu do Ano», que se baseia mais nos valores da democracia, tolerância, cidadania, relação aberta com o mundo e com os outros. Por exemplo, no Algarve e em Portimão, o prémio europeu atribuído em 2010 teve em consideração a importância deste Museu, numa antiga fábrica de conservas, como fator de afirmação e valorização da evolução histórica das comunidades rurais e marítimas e de um património cultural ameaçado pela densidade de um turismo de massas, sendo, desse modo, um bom exemplo a seguir por essa Europa, especialmente pelos países do sul.

Os museus estão a mudar?
Sim. A visão da museologia europeia está a mudar e estamos a aperceber-nos disso ao visitar e conhecer esses espaços. O museu que ganhou em 2016 foi o «European Solidarity Centre», em Gdansk, na Polónia numa clara alusão à solidariedade e foi atribuído precisamente num momento, em que o governo daquele país estava a ostracizar os imigrantes e refugiados. Este espaço cultural tem uma visão moderna profundamente europeia e inclusiva sobre este tema, em autêntico contraponto à atual visão política. Não é apenas aquela que foi do tempo de Lech Walesa [político polaco, ativista dos Direitos Humanos, um dos fundadores do sindicato Solidarność (Solidariedade) e Presidente da Polónia, entre 1990 e 1995]. Tem espaço para Organizações Não–Governamentais trabalharem no museu, a promover um certo combate contra os nacionalismos e os populismos. É um museu muito gratificante, com uma visão muito atual e muito polémica também. O outro museu que ganhou o EMYA 2016, foi o Museu Polin, também da Polónia, alusivo à história dos judeus do gueto de Varsóvia. Já o MUCEM – Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo, faz a ligação entre o sul da Europa e o Norte de África, promovendo a partilha daquelas culturas e realidade sociais, bem como a interação entre os povos da bacia mediterrânica. Fica em Marselha, numa cidade difícil, marcada por alguma tensão racial, e o Museu soube estar à altura dessa realidade e desse desafio.

O European Solidarity Centre em Gdansk, na Polónia.

Já não se encaram os museus apenas como espaços de exposição?
Nota-se que há uma mudança e, de facto, já não são apenas espaços para exposições centrados nos objetos, mas centrados na sociedade, pontos de encontro de saberes plurais, de tolerância e de cidadania, que a todos e com todos deve ser encorajado. Por exemplo, um espaço museológico muito antigo e conhecido, o Rijksmuseum, em Amesterdão, esteve fechado e reabriu pondo a tónica numa renovação virada exclusivamente para o reforço da qualidade do seu serviço público. Apesar de ser um museu muitíssimo visitado, entre os melhores do mundo, os responsáveis sentiram necessidade de o melhorar para as pessoas que hoje o frequentam. Transformou-se num ponto de encontro social, mais como centro cultural, do que como um centro comercial. Outro exemplo é o Museu da Escravatura, o «Memorial ACTe», na ilha francesa de Guadalupe, distinguido com o prémio «Museu Conselho da Europa 2017». Não aborda apenas este conceito numa perspetiva do passado, mas também o que é considerado escravatura hoje, destacando os migrantes, as migrações, os rejeitados das sociedades contemporâneas. Contribuiu também para elevar o nível económico e social de uma zona pobre daquela ilha. Os museus têm também esse fator dinâmico na sociedade. Não se limitam apenas a receber visitantes. Estão ativos e dão-nos uma imagem positiva e inclusiva das pontes entre as comunidades que se devem construir contra os muros, não apenas para estudar e mostrar objetos, mas acima de tudo para pensar e mostrar o mundo.

Em termos concretos a sua participação no júri tem sido positiva? Traz mais-valias para Portimão?
No fundo, também participo, modestamente é claro, neste movimento de qualificação dos museus da Europa. Não há dúvida que esta aprendizagem sobre museus não é de agora, mas esta relação com o facto de ser presidente de júri tem, de facto, um lado muito gratificante e uma atualização pessoal constante que pode, nalgumas situações, ser aplicada e beneficiar o Museu de Portimão. Esta é uma função importante que pode ter algum reflexo a nível local também, porque, por vezes, fruto desses contactos estabelecem-se parcerias com outros museus. Somos convidados para apresentar comunicações sobre a realidade museológica de Portimão. Por exemplo, no próximo mês de março e devido a essa diversidade de relacionamento, seremos visitados por um casal da Turquia, que assistiu a uma apresentação minha no museu turco de Baksi, sobre o museu de Portimão, e ficou interessado em conhecer a nossa realidade, no âmbito de uma tese universitária que estão a desenvolver.

Este ano há três nomeados portugueses ao «Museu Europeu do Ano». Têm hipóteses?
Não me posso pronunciar, até porque nem faço as visitas a museus candidatos no meu país, no âmbito do júri. Mas, a verdade, é que houve anos em que não havia museus portugueses candidatos, e isso não é bom. Por outro lado, só podem concorrer os que estão abertos ou foram renovados nos últimos três anos, no momento em que fazem a candidatura, não havendo assim tantos com estes critérios de candidatura todos os anos. Este ano, de Portugal estão nomeados o NewsMuseum de Sintra, o Museu do Dinheiro de Lisboa e o Museu de Leiria.

Em maio será a cerimónia de entrega deste prémio. Como se desenrola, e que considera mais importante na iniciativa?
Acho que o facto de esta cerimónia de entrega de prémios ser precedida, nos dois dias antes, de um encontro de apresentação de todos os museus que concorreram e que são nomeados é o aspeto mais importante e gratificante. Este ano são 46 museus de 24 países. São entrevistados perante uma assembleia, mostram-se, podem desenvolver contactos, no que já é considerado um verdadeiro fórum dos museus europeus pela sua qualidade. Por outro lado, é um momento altamente motivador e enriquecedor para futuras parcerias em rede, gerando uma maior unidade e coesão no tecido museológico europeu.

Regra geral, em Portugal os museus têm dificuldades financeiras. É uma realidade transversal a outros países?
Na Europa há diferentes formas de se organizarem os orçamentos. Há estruturas que são apoiadas por regiões, por governos locais, regionais, por vezes centrais, mas também por muitas empresas, lotarias nacionais, fundações, estruturas de amigos e pessoas beneméritas. Muitas vezes, têm autonomia financeira ou podem gerir a sua atividade a partir de parte das verbas da sua própria receita. Era algo que em Portugal também se deveria poder fazer. No fundo, em períodos de grande afluxo turístico como o que houve e deverá continuar em Portugal, em que os museus são tão visitados, seria importante que alguns desses valores pudessem ser investidos em atividades e em recursos humanos. Se são tão visitados, devem também estar melhor preparados, adaptando horários, estar abertos até mais tarde, e eliminando barreiras linguísticas através de melhores acessibilidades e pessoal ainda mais qualificado. Enfim, neste sentido, ainda há algum investimento a fazer em Portugal e no Algarve.

Pode falar-nos sobre o International Council of Museums (ICOM), do qual também faz parte?
O ICOM tem a ver com os profissionais dos museus de todo o mundo e, em cada país, há uma comissão nacional. É uma estrutura muito mais ligada à deontologia da atividade museológica. Faço parte da direção nacional. Promovemos encontros de reflexão sobre os museus e a museologia e estamos atentos à evolução dos museus portugueses e dos seus profissionais, intervindo quando necessário junto das entidades ligadas ao sector dos museus e do património cultural.

Mas também é consultor?
Sim, pertenço à Secção de Museus, Conservação, Restauro e Património Imaterial do Conselho Nacional de Cultura (SMUCRI). É um órgão de apoio às políticas culturais dos vários governos, foi criado em 2007, e tem por missão apoiar, aconselhar, dar pareceres e recomendações.

O Museu de Portimão também teve boas notícias. Ganhou a distinção do TripAdvisor, bateu o recorde de visitantes…
Os museus não podem ser medidos só pelos números, porque, por vezes, os números escondem outras realidades. Mas os quase 70 mil visitantes colocam-nos na lista dos 10 museus portugueses mais visitados em 2016. O Museu de Portimão, numa região como esta, é um importante ativo que acaba por complementar a atividade turística, e que felizmente, se abre a muitos outros sectores da sociedade. Muita gente que nos visita vem de diversas áreas, desenvolvemos parcerias com muitos sectores (hotelaria, cruzeiros, agências de turismo, Inatel, entre outras) com os quais temos uma boa relação. Temos um Grupo de Amigos do Museu que nos apoia, e há uma boa aceitação na comunidade e na sociedade em geral, fruto da dedicação e empenhamento da equipa dos profissionais que aqui trabalham. A atribuição de um selo de excelência por parte do Trip Advisor é mais um agradável sinal do trabalho desenvolvido.

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