Transportes públicos ignoram Fortaleza de Sagres e Farol de São Vicente

Deco Algarve promoveu viagem até Sagres para perceber se transportes disponíveis servem, ou não, o turista ou residente que queira ir de Portimão até ao monumento mais visitado do Algarve.

A resposta pode parecer simples. Na verdade há um autocarro que termina a viagem a metros da entrada do Cabo de São Vicente, no concelho de Vila do Bispo, permitindo assim que alguém que esteja em Portimão ou Lagos consiga optar por este meio de transporte público. Este facto não significa, porém, que o horário esteja adaptado às necessidades de quem viaja, nem o preço do bilhete ou a frequência das carreiras.
Por esta razão, a Deco Algarve colocou-se na posição de turista ou residente e embarcou no autocarro para constatar in loco as dificuldades de quem quer escolher um meio alternativo ao carro.

E convidou o presidente da Junta de Freguesia de Portimão Álvaro Bila e o «barlavento» para acompanhar a aventura.

Entre Portimão e Lagos, na semana passada, esta pequena comitiva de cinco pessoas (seis, a contar com o motorista) encheu o autocarro.

Alguns quilómetros mais à frente, na cidade dos Descobrimentos, entraram alguns passageiros, sobretudo turistas estrangeiros, bem como o presidente da Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos Carlos Saúde.

Ainda assim, a maioria dos 40 lugares disponíveis continuou vazia.

A viagem até é agradável, segundo os passageiros, o problema está na carreira.

Este percurso, escolhido a dedo, «é mais específico para turistas, mas também pode ser para residentes noutras localidades que queiram visitar os monumentos em Sagres. Pensámos fazer este roteiro ao fim de semana», mas teve de ser agendado para um dia útil. Aos sábados, domingos e feriados a carreira direta não se efetua, esclareceu Tânia Neves, da Deco Algarve.

O autocarro parte de Portimão, da paragem junto à bomba da Repsol, na zona ribeirinha, às 9h55, segue por Alvor, apanhando depois a Estrada Nacional 125 na zona da Penina.

Segue aquela via (quase sacra, com tanta obra em curso) até Lagos, e vai parar na estação rodoviária, para partir em direção ao Cabo de São Vicente. Chegará às 11h50. O percurso demora duas horas. «Direta, só há esta das 9h55, aos dias de semana. O resto tem que ser com transbordo. Aos fins de semana e feriados não existe nenhuma carreira direta, apesar de ser quando faria mais sentido», assinala. Por um lado, é uma viagem relativamente longa, que implicará aos dias não úteis, neste horário, ou nos dias de semana, fora esta carreira, que haja transbordo.

Apesar desta iniciativa ter sido feita em pleno outono, o clima ainda está agradável e há bastantes turistas no Algarve. No entanto, o autocarro circulava praticamente vazio até Lagos. «À partida também pode haver uma desadequação no horário», até porque mesmo que um trabalhador quisesse utilizar esta carreira, teria de entrar ao trabalho após as 11h15, hora a que o autocarro chega a Sagres, resume.

Há, porém outra questão mais importante. Esta é a única carreira direta até ao Cabo de São Vicente. «Sem ser este percurso, de Sagres até ao Cabo de São Vicente não há transportes púbicos coletivos. Não há esse, como também não há disponível um transporte que leve as pessoas do centro de Sagres à Fortaleza, tal como não há entre estes dois monumentos. Tivemos oportunidade de analisar isso com atenção e do centro de Sagres até à Fortaleza é uma distância de 1500 metros. Até é razoável que uma pessoa consiga fazê-lo a pé», admite Tânia Neves.

O problema coloca-se, porém, se o turista que está na Fortaleza quiser visitar o Cabo de São Vicente. São 7,5 quilómetros. «A pé uma pessoa fá-lo numa média de duas horas. Nestas deslocações, à partida, o visitante acaba por apanhar o táxi», constata. Até porque, não são todas as pessoas que têm capacidade física ou idade para percorrer nove quilómetros.

E será que Sagres não tem uma importância histórica e geográfica tão grande, até porque é lá que se encontra a Fortaleza, o monumento mais visitado do Algarve, que mereça uma análise mais aprofundada?

Turistas consideram serviço bom, mas caro

Mal saíram do autocarro, um grupo de jovens turistas foi até ao posto de turismo, a poucos metros, para obter mais informações sobre os pontos de interesse a visitar. Já com um mapa na mão, analisaram o painel que fica junto à entrada para verificar onde ficava a Fortaleza de Sagres e o Cabo de São Vicente. «Viemos até Sagres, porque toda a gente diz que é um sítio bonito para visitar», admitiu um dos jovens belgas, que está a viajar pelo mundo, com outros da mesma idade, mas de outros países. Entrou naquele transporte público em Lagos, onde o grupo ficou a pernoitar, e apesar de considerar a viagem agradável, opina que o preço dos bilhetes é um pouco caro para os seus bolsos. Entre risos, o jovem japonês lá explicou que fez a viagem a dormir, enquanto a rapariga de Singapura disse que passou a viagem a ouvir música, mas que o veículo era confortável.

«Perdemos o autocarro anterior», mas como havia, algum tempo depois, outro foi possível apanhá-lo. Considera que Lagos «é uma cidade muito bonita. Tem pouca confusão. Aqui queremos ir ao Cabo de São Vicente». Pena que só se aperceberam tarde demais que poderiam ter continuado a viagem no autocarro, pois aquele veículo é mesmo o único que faz a ligação com aquele local. A partir daí, as opções de deslocação passam a ser o táxi ou a pé.

Viagem completa sai a 24 euros

Tendo em conta que a mesma viagem de carro não rondará valores muito diferentes, podendo apenas ser um pouco mais cara, conforme a cilindrada do veículo particular e a forma de condução de quem vai ao volante, não sairá assim tão barato viajar de autocarro entre Portimão e Sagres. As contas foram feitas pela Deco Algarve. «Tivemos oportunidade de fazer as contas e a viagem completa, e quando digo completa, incluo também fazer as distâncias entre os monumentos, fica em cerca de 24 euros», avançou Tânia Neves ao «barlavento». Segundo a pesquisa desta entidade no site da operadora, os transportes públicos, ou seja o percurso no autocarro da Eva, fica por 16,50 euros. Se o bilhete entre Portimão e o Cabo de São Vicente for adquirido no conjunto o valor será de 6,45 euros. Se for comprado um de Portimão a Lagos e outro de Lagos ao Cabo de São Vicente custam cerca de oito euros, pois de Portimão a Lagos o valor a pagar é de 4,15. Mas estes valores são válidos para o Transrápido que faz esta ligação direta apenas com uma paragem em cada concelho. Se a opção for o transporte da mesma empresa, mas da «linha do litoral já são 4,30 euros», refere Tânia Neves.

Para regressar a Portimão também há toda uma logística de horários a planificar. Tomando como exemplo uma das hipóteses, há um autocarro em Sagres, às 13h40, com chegada a Lagos às 14h45. Daí há uma ligação que chega a Portimão às 16h00. Ou então haverá outro às 15h20, com chegada a Lagos prevista às 16h15, cuja ligação colocará o turista em Portimão às 18h00. Implica sempre um transbordo a meio caminho e a consulta dos horários com atenção.

Iniciativa regional parte de campanha nacional

Visto o problema da mobilidade ser uma questão importante no Algarve, onde é reconhecido que há constrangimentos, seria de esperar que nesta iniciativa houvesse uma elevada participação da população. «Quando começou a campanha a nível nacional, a receção de reclamações para a região do Algarve, era muito fraca. Daí é que surgiu esta ideia de fazer esta campanha de âmbito regional, chamada ‘Faça greve ao seu carro. Estes transportes não nos servem’», onde se enquadra esta experiência de viajar até Sagres, explica Tânia Neves, da Deco Algarve.
«Não recebíamos reclamações, porque as pessoas não usam o transporte público coletivo no Algarve. Só usa mesmo quem não tem alternativa, pois acaba quase sempre por compensar o transporte particular» em relação às distâncias, argumenta. «Temos recebido muito mais reclamações das pessoas. O que pretendemos fazer no final é recolher todas essas informações, além daquelas que achamos que deveriam ser alteradas e levá-las junto das autoridades competentes, operadores e governantes», disse.

É um trabalho que conta com a AMAL, que já foi convidada numa das viagens promovidas pela Deco Algarve, e «será uma entidade com a qual deveremos reunir para reivindicar alterações que nos pareçam convenientes», contou. A associação já organizou uma viagem entre Faro e o Aeroporto, onde participou Desidério Silva, presidente da Região de Turismo do Algarve, entre Tôr e Loulé, com Miguel Freitas, na altura primeiro secretário da AMAL, e Albufeira até Faro, que contou com Paulo Águas, à data vice-reitor da Universidade do Algarve e agora reitor daquela academia. No início de janeiro será realizado o último percurso entre Tavira e São Brás de Alportel.

No entanto, para que isso aconteça as pessoas têm que contar a experiência que têm. Seja esta boa ou má. Assim, a Deco Algarve incentiva a que a população esteja mobilizada e adira. São os utilizadores e não utilizadores que devem identificar também porque não usam estes transportes.

«Pegando no mote ‘Faça greve ao seu carro. Estes transportes não nos servem’, apelamos a todos os algarvios a que façam greve ao seu carro e façam uso do transporte. Mesmo que já saibam que não lhes serve, que não é adequado às suas necessidades, que o façam por um dia, porque às vezes também há alterações», destaca. Só com a opinião de todos, a Deco Algarve poderá ter resultados mais concretos e perceber onde estão de facto as maiores falhas.

Esta foi a quarta viagem promovida pela associação e até aqui, «as principais falhas detetadas são a falta de concertação entre os vários operadores, os preços demasiado elevados e a falta de divulgação. Nos sites, e aqui não falo tanto no sector ferroviário, mas no rodoviário, a informação é muito fraca, é muito confusa, e o site não é nada intuitivo», aponta Tania Neves.

Foi sempre necessário, em paralelo à consulta na plataforma online dos operadores, telefonar ou ir à para a bilheteira para confirmar a informação. «E se for preciso ligo para uma bilheteira de Loulé, Faro, Portimão e prestam dados discrepantes. Algo muito curioso e que não faz sentido algum na nossa opinião é que se ligar para uma localidade a fazer um pedido de informação sobre outra localidade já não sabem responder. No percurso que fizemos hoje, começo por ligar para Portimão, para perguntar a confirmar horários e preços e dão-me essa informação. Ao perguntar de Lagos para a frente, já não me sabem dar essa informação. Tenho de fazer outro telefonema» para outra bilheteira, contou.

Para já, quem ainda quiser participar e dar a opinião sobre a experiência dos transportes públicos coletivos poderá fazê-lo respondendo a um inquérito que está a decorrer na delegação algarvia da Deco.

Álvaro Bila defende que ANAFRE deve ser ouvida

O presidente da Junta de Freguesia de Portimão Álvaro Bila foi um dos convidados para acompanhar a viagem até ao concelho de Vila do Bispo. Nunca tinha feito aquele percurso naquele transporte público e até considera que o serviço prestado «foi bom». «O autocarro está em muito boas condições e o motorista também» é um bom profissional, portanto «a viagem até foi agradável», justificou. O problema não estará, assim, no meio de transporte em si, mas nos horários, que não serão «muito viáveis para os utentes», sublinhou.

Apesar de não ser esse o percurso a servir de exemplo naquela viagem, Álvaro Bila assinala essa situação de desajustamento de horários com um que afeta de forma direta a freguesia à qual preside, sobretudo nas localidades do Rasmalho, Porto de Lagos e Ladeira do Vau. «Entre Portimão e Monchique, no período escolar há muito mais carreiras, mas ao fim de semana e feriados são reduzidíssimas. Ou seja, só há uma de manhã e outra à tarde», exemplifica. Essa é uma das principais queixas daqueles fregueses portimonenses que querem ir à unidade de Portimão do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) para visitar alguém familiar ou amigo que têm internados e não conseguem.

Para o presidente da Junta de Freguesia há que integrar para que haja de forma efetiva a mobilidade. «Tem que ser integrado com todos os municípios e, se calhar, devia de ser ouvida tanto a AMAL, como a ANAFRE a nível do Algarve. Os presidentes de Junta, que estão mais perto das populações, também deveriam ter uma palavra a dizer. Em 2019, o contrato terá que ser renegociado e seria uma boa altura para darmos a volta e fazermos do Algarve um exemplo a nível nacional, porque os transportes deviam ser integrados com todos os municípios e não deveria de existir aqui também capelinhas», argumenta.

E a concertação deverá existir a nível de ligações entre concelhos, mas também a nível de operadores, porque os pequenos circuitos devem ser incluídos também, defende. «Não há razão nenhuma, para que quem vem de Ferragudo ou do Parchal (Lagoa) e queira usar os transportes públicos em Portimão tenha que ir comprar outro tipo de passe. Isto tem que ser integrado. E o Algarve é um retângulo tão bem desenhado, com tão poucos municípios, que devíamos todos chegar a acordo e devíamos trabalhar em conjunto», destaca. E neste pacote caberá também a ferrovia. Que serve o Algarve em linha reta, entre Lagos e Vila Real de Santo António. O mote deveria ser, então, «racionalização e utilização», porque se houvesse essa maior unidade entre serviços de transportes, as pessoas usariam-nos muito mais.

«E nós vimos isso aqui e vimos o percurso e as condições que o autocarro tem. Se isto fosse mais incentivado, se calhar o custo baixava pois, nesse caso, haveria mais utilizadores», conclui. E, nessa altura, haveria maior probabilidade de conseguir ajustar a frequência dos percursos. Em vez de haver apenas uma carreira direta uma vez por dia entre Portimão e Lagos, poderia a haver mais, refere.

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