Teleférico na Picota e maior zipline do mundo projetados para Monchique

Investimento é privado, mas, se receber luz verde, tem seis milhões de euros para criar um polo de desenvolvimento local, que associa a futura linha teleférica aos desportos radicais.

O projeto de um teleférico, com 2360 metros de extensão, a ligar Monchique à Picota deu entrada na Câmara Municipal de Monchique, entidade que já mostrou abertura ao investimento que ascende aos seis milhões de euros. Se sair do papel, será um projeto que promete revolucionar a vila serrana do Barlavento algarvio, tornando-a num polo de desportos radicais.

É que, apesar do teleférico ser a grande atração, haverá diversos equipamentos que têm como missão colocar a adrenalina ao máximo. É o caso de uma zipline, a maior do mundo.

Ao «barlavento» Eric Castaldo, arquiteto responsável pelo projeto, proprietário da Arkhimacchietta – Atelier de arquitetura e maquetas, sediado em Monchique, desvendou o que está previsto, quais são as intenções e as hipóteses em cima da mesa.

Os planos mostram que será criado um edifício, no local onde agora está localizado o heliporto de Monchique. Contempla, no centro a entrada e bilheteira para o teleférico, à direita haverá um restaurante, uma gelataria, um pequeno parque de lazer para crianças, instalações sanitárias e uma papelaria/livraria.

«A ideia é recriar no telhado do edifício, o recorte em relevo das montanhas de Monchique. A cobertura terá a forma dos dois picos (Fóia e a Picota) que vimos no caminho para a vila. Todo o telhado será verde e terá um sistema que recolhe a água da chuva», sendo aproveitada nalgumas zonas laterais, para simular cascatas, mostrou Eric Castaldo.

Esse recurso será também usado para rega e limpezas. O projeto privilegia as matérias-primas locais, como a cortiça, madeira e sienito de Monchique. O uso de betão será restringido ao indispensável e à exceção da cave, será apenas usado na estrutura de suporte do teleférico.

À esquerda, ainda naquele edifício, o espaço é destinado a pequenas lojas de comércio local e um polo de formação dedicado aos desportos radicais.

«Vamos ter um pé direito muito alto. Teremos um muro para rappel e queremos criar condições para que as pessoas possam ter instrução antes de seguirem para o cimo da Picota, onde haverá a zipline. Os outros espaços serão lojas, que podem mudar de dimensão, para o comércio tradicional», adiantou o arquiteto. Estão previstos apenas seis, que poderão ser alugados ou comprados, até porque o objetivo não é criar um centro comercial.

tele1O teleférico fará um percurso com pouco mais de dois quilómetros, desde a base até ao outro lado do vale, com vistas panorâmicas. No final da linha, na Picota, o projeto prevê que seja recriada uma gruta, de forma a parecer uma formação natural. Não será usado betão, mas rocha. «O teleférico entrará na gruta, as pessoas saem e apenas verão um túnel. Só depois de atravessarem esse corredor é que entram num passadiço de madeira, em deck, suspenso em estacas que dá acesso à zona sul da Picota. Será apenas, nesse momento, que as pessoas conseguem ver a totalidade da paisagem. A ideia é surpreender», considerou em declarações ao «barlavento».

Na Picota haverá um restaurante e bar de apoio, construído em madeira, suspenso no ar através de estacas, com vista para sul. «Não haverá impermeabilização» do solo, «adaptando-se às rochas que existem», justificou. Aliás, o projeto é flexível e pode ser alterado caso seja necessário, admitiu o arquiteto.

«O único local onde vamos mexer na rocha é na implantação da sapata para o poste de tensão do cabo, na Picota. Em Monchique, é zona urbana o que não levanta qualquer problema» à colocação deste suporte, assegurou. Ao lado desta infraestrutura poderá ficar uma rampa de lançamento de parapente e asa-delta, virada para sul, bem como uma zona onde é possível fazer rappel, com instrutores.

A cereja no topo do bolo será que a descida, no regresso a Monchique, pode ser feita, de novo, na tranquilidade da cabine de teleférico ou, em alternativa, numa viagem carregada de emoções fortes. A intenção é colocar, paralelo ao cabo principal, uma zipline (tirolesa) para que os mais aventureiros possam fazer slide descendente rumo a Monchique. Será a maior do mundo.

«No início, pensámos num simples teleférico. Mas depois considerámos que poderia perder o interesse ao longo dos anos. Seria necessário criar algo que lhe desse continuidade e continuasse a atrair as pessoas. Por isso, juntámos tudo o que são desportos radicais, como o parapente, a asa-delta, o BTT, rappel e também as caminhadas, porque a Via Algarviana passa pelo pico da Picota», enumerou Eric Castaldo.

Quando recebeu a proposta para criar este equipamento, o arquiteto convidou uma arquiteta estagiária que estava a realizar o seu estágio profissional nessa altura para, apoiá-lo, tendo criado os primeiros esboços do projeto. Ao ver os desenhos e rascunhos, percebeu que faltava algo. «Uma zipline. A ser instalada em Monchique, irá ultrapassar as dimensões da que era a maior do mundo na altura, no Parque da Pena».

Dinamizar a economia local

Em média, 10 a 15 autocarros com turistas passam pela vila de Monchique ao longo do dia. Contudo, este fluxo não contribui para a economia local, pois poucos param no centro. A estimativa do Turismo do Algarve é que, por ano, cerca de 1,5 milhões de viajantes sobem à Fóia. Vão ver a vista, almoçam em restaurantes no caminho e voltam a descer a encosta, ignorando o centro da vila.

«A ideia é criar uma estrutura que permitirá a estas pessoas passarem um dia inteiro em Monchique, e não apenas uma hora ou duas. Por isso, além do teleférico, tentámos conceber um equipamento que convide os turistas a aproveitar um dia diferente», atraindo também um outro público importante (desportistas), argumentou o arquiteto responsável pelo projeto da linha de teleférico entre Picota e Monchique.

«Com a crise, muitos espaços comerciais foram fechando portas. Esta infraestrutura será também uma forma de revitalizar toda a economia local» criando atratividade e novas oportunidades. Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique, disse ao «barlavento» que vê o projeto com bons olhos.

Inauguração em 2018?

A data da inauguração dependerá das aprovações das entidades, como a Comissão de Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, que têm que emitir pareceres positivos e dar luz verde ao projeto do novo teleférico. Caso corra conforme o planeado, os responsáveis querem avançar com a obra já no início do verão de 2017, incluindo os edifícios, para que no inverno seja possível trabalhar os interiores e no verão seguinte inaugurar toda a infraestrutura.

«É uma obra que não tem uma complexidade muito grande. Se conseguirmos começar daqui por um ano, no início do verão de 2018 estaríamos em condições de inaugurar», assegurou Eric Castaldo, arquiteto responsável. Se a obra estiver concluída mais tarde, os promotores terão o investimento parado no inverno, o que não é positivo, pois o ideal é «começar logo com o movimento» da novidade.

Preço médio do bilhete a cinco e sete euros

A viagem no teleférico está pensada para ser acessível a todos os públicos, com um preço estimado que ronda os seis euros. O cálculo tem como base um estudo de mercado feito pelo arquiteto responsável Eric Castaldo, que engloba «todos os teleféricos que existem no território português e o custo».

A intenção é ter um equipamento viável do ponto de vista comercial, por isso, o valor não poderá ser demasiado elevado. Também está contemplada a hipótese de flexibilidade no acesso por parte de grupos organizados (escolas, centros de idosos, excursões, instituições de solidariedade social) ou clubes e associações, em particular as ligadas aos desportos radicais.

Por exemplo, caso Monchique receba «uma competição, durante um fim de semana» a organização terá condições especiais para os atletas tirarem partido da infraestrutura. «O valor será diferente, sob consulta», garantiu. «Supondo que a prova terá 200 participantes, mas atrai 1500 espetadores. Vamos poder criar condições para que o bilhete seja muito mais barato à organização e aos clubes, porque de certeza que vamos ter retorno» com o público presente.

Contudo, Eric Castaldo sublinha que o objetivo não é ter rentabilidade a curto prazo, mas a longevidade. O investimento está pensado de forma a justificar os recursos financeiros aplicados. No cálculo do retorno apenas foi tomado como pressuposto uma determinada média de utilização diária nos sete meses (abril a novembro) e ao fim de semana nos restantes cinco meses. O dinheiro será recuperado «em cerca de seis anos, já com impostos, salários, despesas de manutenção, seguros pagos», avançou.

Aberto todo o ano, mas no inverno só ao fim de semana ou a pedido

A linha de teleférico entre Monchique e Picota terá condições para funcionar todo o ano. Nos sete meses (abril até novembro) está previsto o funcionamento diário, enquanto no inverno funcionará apenas aos fins de semana.

Esta decisão poderá mudar se houver muita procura nos meses de época baixa do turismo. Há, de qualquer forma, a hipótese de abrir ao público caso haja uma excursão marcada que reserve bilhetes para o teleférico e se as condições meteorológicas o permitirem. Ou então se houver um evento entre sexta e segunda-feira, por exemplo.

O tempo do percurso e o número de cabines a funcionar também poderá variar. É possível, «durante o inverno, ter só quatro cabines e, no verão, o máximo que são as dez ou doze cabines. Também podemos acelerar a duração ou não», esclareceu Eric Castaldo.

Autocarros à porta do teleférico

Numa primeira fase, em que a Câmara Municipal de Monchique foi abordada e após uma primeira análise do projeto, foi negociada uma contrapartida para este projeto. Rui André, presidente da autarquia, há muito que ambiciona retirar os autocarros regulares que ligam Monchique a Portimão do Largo dos Chorões, de forma a descongestionar o trânsito e a ocupação do estacionamento.

«Apesar de um projeto destes ter de passar por uma série de procedimentos, em termos ambientais, acho que poderá ter luz verde. Pressupõe um acordo prévio com a Câmara Municipal, pois a autarquia também tem interesse que seja construído, naquela zona, o que foi combinado como uma medida compensatória. A partir do momento que um privado quer fazer ali um investimento, tem de haver também um encontro de ideias e, por isso, o que propus foi que no projeto fosse incluído logo um terminal rodoviário, para retirar o trânsito principal do centro da vila», avançou o presidente da autarquia ao «barlavento». No futuro, os autocarros ficarão estacionados perto do edifício que alberga o início da linha teleférica.tele2

«Temos previsto um parque de viaturas, quer ligeiras, quer pesados de passageiros, quer para que os autocarros de excursões tenham lugar para estacionar com facilidade, quando trouxerem visitantes ao equipamento, conforme o presidente da Câmara me solicitou», afirmou o arquiteto Eric Castaldo. Admite que os lugares estipulados podem não ser suficientes, mas será possível recorrer também ao parque de viaturas no final da descida, ao lado do terreno. «A ideia do presidente era juntar o parque de autocarros e a central de camionagem, no mesmo local, o que também pode ter mais valias», resumiu o arquiteto.

Como há muito tempo a intenção de Rui André é a construção deste terminal naquela zona, seria necessário mudar o heliporto para outro local. «E, por essa razão, a autarquia tinha adquirido há dois anos um terreno, no Semedeiro, para construir um centro de meios aéreos», com direito a candidatura a fundos comunitários, afirmou o edil. Neste quadro comunitário, a ideia é a construção do edifício, que tenha capacidade para «alojar pessoas e bens, mas também de ser um centro logístico, em situação de catástrofe», explicou.

Para o autarca, o projeto do teleférico é «muito interessante, porque representa para a criação de um elemento diferenciador da oferta turística de toda a região, não só Monchique. É um equipamento que onde existe, como no Funchal, na ilha da Madeira, é muito atrativo para os turistas. No caso de Monchique, sendo uma zona montanhosa, faz todo o sentido um investimento desta natureza, quer pela criação de um circuito destes, para potenciar o desporto de natureza, como também os desportos com bicicleta, como o downhill, porque havendo uma possibilidade de transporte para a zona pretendida que é a Picota, depois há possibilidade» de implementar outra dinâmica à volta destas modalidades, salientou.

Legislação não coloca entraves

À partida, segundo o mentor do projeto, o arquiteto Eric Castaldo, não deverá haver obstáculos à concretização da linha teleférica entre Monchique e Picota, pois a legislação não impede que o investimento de seis milhões de euros se concretize. «Um projeto desta envergadura tem que ter a aprovação de demasiadas entidades, e temos de quase todas. Três delas estão condicionadas à aprovação de avaliação de impacte ambiental», ainda que o arquiteto considerasse este documento dispensável. «Acabei por concordar com o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional» e o projeto está na fase de criação deste documento, adiantou.

O arquiteto explicou que «a legislação, em relação à Reserva Ecológica Nacional (REN), permite que seja pedida a desafetação de alguma parte de terreno». Nesse caso é necessária a avaliação de impacte ambiental. No entanto, refere que, «neste equipamento, se tiver uma linha dentro da REN maior do que dois quilómetros», seria necessário o pedido de avaliação, esclareceu. «Não é o caso. O que está em REN são pouco mais de 400 metros», mas «a única forma da CCDR aprovar a desafetação de dois mil metros quadrados que precisamos na zona da Picota, só pode ser concedido mediante o estudo de impacte ambiental favorável», acrescentou.

Investidores privados interessados há. «Tive um investidor, no ano passado, que se o projeto estivesse pronto, tinha capacidade financeira» para cobrir a totalidade dos custos, garantiu Eric Castaldo. E há mais quem tenha recursos para financiar a linha sem recorrer a ajudas do Portugal 2020 ou outro programa. O que não significa que não concorram, não devido a «dinheiro a fundo perdido, mas pelas taxas de juro muito baixas». Apesar do projeto ser de um residente em Monchique, a ideia é que haja outros investidores privados, estando em cima da mesa a hipótese de parcerias ou da venda do projeto.

Ainda que a Câmara tenha mostrado abertura num primeiro contacto, será necessário também colocar no papel os moldes em que o terreno de domínio público, na zona do heliporto, será disponibilizado aos privados. Isto porque, os investidores que vão disponibilizar milhões de euros, também precisam antes de acautelar garantias, afirmou Eric Castaldo.

Na verdade, o projeto surge, porque essa pessoa queria fazer um teleférico entre Monchique e Fóia e contactou o arquiteto Eric Castaldo. O profissional não defendeu a ideia, por considerar que não seria rentável. A Fóia é bastante acessível e os turistas não iam pagar para subir a encosta, pois podem fazê-lo de carro, relatou ao «barlavento». Também são frequentes as nuvens no pico, que, algumas vezes, estragam a vista. Seria expectável uma enorme perda de tempo a negociar a colocação dos apoios com proprietários privados na zona, o que tem custos e poderia até inviabilizar tudo. Pelas mesmas razões, o arquiteto sugeriu a alternativa Monchique para Picota. Quando soube, já o investidor tinha comprado o terreno na Picota.

Por exemplo, neste caso, será possível fazer uma ligação direta de 2360 metros, com apenas dois apoios. «Estive em reuniões com o dono da Lifetech, que passou o dia comigo para analisar o percurso e dar apoio técnico. Recomendou que, eventualmente, sejam colocados dois apoios e esses são fáceis de negociar. Um está em zona urbana e o outro, eu conheço o dono, já falei com ele e está aberto à ideia, porque não tira qualquer rentabilidade do terreno, nem tem lá nenhuma casa», concluiu. E, na realidade, a vista na Picota é tão ou mais bonita do que a da Foía, até porque é bastante longínqua, defendeu o arquiteto.

Novo posto de vigilância de incêndios

Uma infraestrutura que será integrada no projeto será a substituição do atual posto de vigilância de incêndios na Picota por uma nova infraestrutura, a cargo do investidor. A construção «ficaria a nosso cargo e está nos custos do projeto. Foi sugerido à Câmara Municipal de Monchique e, como é um equipamento da corporação de Bombeiros local, eles não veem qualquer oposição desde que a visibilidade se mantenha. Será dado mais conforto, porque as pessoas passam ali o dia», assegurou ainda Eric Castaldo, que criou o projeto do teleférico entre Monchique e Picota.

Ideia não é nova, mas nunca saiu do papel

A ideia de construir um teleférico neste concelho algarvio não é nova, mas as anteriores nunca saíram do papel. Aliás, o arquiteto Eric Castaldo contou que tem um projeto oferecido por um amigo da esposa, que já colocava um teleférico entre as Caldas de Monchique e a Picota. Datado da década de 60.

Esse amigo encontrou-o no sótão do pai, que era natural de Monchique e colaborava como desenhador com arquitetos locais. Nunca saiu do papel. Ainda antes de ter acesso a este desenho, o arquiteto agora responsável pelo projeto de seis milhões de euros trabalhou num núcleo de desenvolvimento turístico.

Sem conhecer esta ideia, sugeriu a criação de uma linha teleférica das Caldas de Monchique até à Picota, zona que conhece bem. A vista privilegiada foi um dos argumentos e o júri achou interessante essa sugestão. Em tempos ainda circulou um boato em Monchique, mas até 2016 nenhum projeto deu entrada na Câmara Municipal de Monchique.

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