Teatro Lethes fora da segunda edição do «365 Algarve»

Luís Vicente, diretor da ACTA, vê com «muito maus olhos» que o programa de animação turístico-cultural de época baixa não passe pelo histórico espaço farense.
Elisabete Martins e Luís Vicente.

Em conversa com um grupo de jornalistas, no final da semana passada, Luís Vicente e Elisabete Martins, revelaram a programação do Teatro Lethes para 2018, mais uma temporada organizada pela ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, residente naquele espaço farense. E não faltam novidades ao longo dos próximos meses. Será uma «programação que segue a linha e a orientação estética das anteriores. Tem uma lógica de diversidade, tanto do ponto de vista do género, como temático. Faz parte de uma convicção nossa, face a um dos objetivos que é a formação de públicos. Apraz-nos trazer espetáculos e criações que exprimam outros pontos de vista, diferentes do nosso», começou por explicar o diretor.

Um grande destaque será «Frei Luís de Sousa» que embora se inspire no clássico de Almeida Garrett, terá «uma mudança de paradigma» para o mundo atual, afastando-se do «romantismo que está na sua génese». Produzido pela ACTA e encenado Luís Vicente, estará em cena de 29 de novembro a 9 de dezembro.

«O tema de fundo é a ocupação filipina. Agora não temos isso, mas temos a Europa. Vamos pegar num texto que fornece pistas sobre esta matéria. Quando o nosso espetáculo começa, já Dom João de Portugal deitou fogo à casa. O trabalho de dramaturgia vai ser feito por Alexandre Honrado e vai cruzar pensadores contemporâneos como José Viriato Soromenho-Marques, Maria Filomena Molder e Eduardo Lourenço», adiantou.
Embora apareça na programação com um título mais portátil, «Crédito ou instruções para um qualquer governo neoliberal que queira abolir o Natal», do canadiano Michael Mackenzie, é outra das apostas da companhia algarvia. Estará em cena de 25 de abril a 6 de maio.

Este autor já tinha sido trabalhado pela ACTA, em 2002, com «A Baronesa e a Porca». Curiosamente foi encenado por Isabel Pereira dos Santos que virá de propósito do Canadá a Faro para dirigir a nova peça.
«O texto tem como base a crise financeira de 2008, mas vamos trabalhar uma versão atualizada com o Brexit». Será protagonizado por Luís e Sara Mendes Vicente (pai e filha) que apenas trabalharam juntos em televisão.

«Ligado a este texto está uma vertente para a qual fomos solicitados. É um projeto que inclui universidades de Portugal, Espanha e França», revelou Luís Vicente. Chama-se «Genética Teatral» e tem coordenação local de Ana Clara Santos, professora da Universidade do Algarve, também ligada à Faculdade de Letras de Lisboa. «Será uma partilha de conhecimento entre o universo dos fazedores e o universo académico». Segundo Luís Vicente, envolve a ACTA, o Bando e o Teatro Dona Maria II.

Pela primeira vez, o Lethes acolhe uma residência artística, em coprodução com uma companhia norueguesa, que apresentará, em maio, quatro sessões do espetáculo «Os ursos não ladram». Será «um projeto transversal da música e à dança», disse.

Já em relação ao FOME (Festival de Objetos e Marionetas), a acontecer de 17 a 30 de setembro, «está a ganhar dimensão». Luís Vicente manifestou-se otimista pois «há a intenção esclarecida por parte dos promotores, de estender a programação aos municípios do Algarve central», caso se assegure o necessário financiamento.

Elisabete Martins lembrou ainda que o Lethes «continua aberto à comunidade», às associações locais como a Música XXI, a APATRIS, o Atelier do Movimento, entre outras. «O teatro não pode trabalhar para a comunidade, tem que trabalhar com a comunidade», sublinhou aos jornalistas.

Nesta lógica de parceria, este ano surge uma iniciativa com o restaurante «Dijon Bristo & Bar» (na Rua Capitão Mor), que permite ao público comprar um voucher de 20 euros, válido para alguns espetáculos, que inclui um jantar e um bilhete de acesso.

O primeiro a inaugurar esta nova modalidade é «A casa no fim de tudo», peça baseada num original do algarvio Luís Campião, que estará em cena até 4 de fevereiro, e que contará com encenação de Paulo Moreira e música da acordeonista Celina da Piedade.

Outra boa notícia é que o serviço educativo da ACTA, «recuperou face aos anos anteriores em que esteve praticamente parado. Estivemos em 12 dos 16 municípios», disse Luís Vicente. Em 2018, este serviço que funciona a bordo de um autocarro-anfiteatro (VATe) vai estrear um novo texto encomendado a José Fanha, «Uma torneira na testa», com uma mensagem ambientalista.

Para assinalar os 20 anos da companhia, será exibida, a partir de 25 de fevereiro, uma exposição temática em homenagem a José Louro, o fundador da ACTA, que reunirá fotografias e outros materiais «sobre o homem que começou tudo isto».

Questionado sobre o financiamento, o diretor acredita que terá o apoio quadrienal a que se candidatou por parte da tutela, embora o montante a atribuir ainda não esteja definido.

Em relação ao público, há uma clara subida. Em 2017, o Lethes apresentou 111 espetáculos, aos quais assistiram 10819 espetadores.

Em conversa com os jornalistas, Luís Vicente admitiu «estranhar» o facto de o ciclo de música «Euterpe» ter sido excluído da segunda edição do «365 Algarve». Isto depois de ter sido um dos destaques na estreia deste programa criado pelas secretarias de Estado do Turismo e da Cultura para reforçar a oferta cultural da região durante a época baixa.

«Nesta circunstância, o 365 Algarve ignorou o fator valorativo Teatro Lethes», algo que o diretor da ACTA vê «com muito maus olhos», até porque o emblemático espaço farense faz parte da rede europeia de teatros históricos. «Parece-nos que seria uma mais-valia», lamentou.

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