«Sul, Sol e Sal», um embrião cultural improvável para o Algarve

Em 2017, a editora independente «Sul, Sol e Sal», sediada em Olhão, vai publicar uma coleção de obras de referência sobre a História do Algarve. A atividade não se esgota, contudo, na edição livreira.

«O nosso conceito é valorizar o Algarve. Relevar o que existe e que pouca gente conhece. Temos a intenção, quer no Algarve, quer em Portugal, no futuro e junto da nossa comunidade estrangeira, de mostrar e dar a conhecer toda esta forma de viver que se prende com o Mediterrânico. É nossa intenção editar obras em várias áreas, em especial na história e património. Temos uma coleção interessante sobre o urbanismo que já vai em dois títulos. Interessa-nos a cultura, a ecologia e temas como a agricultura biológica», explica Manuel Brito, fundador da editora «Sul, Sol e Sal».

Este ano, «vamos pôr em marcha dois projetos importantes. Estamos um pouco assustados, pois são projetos de grande dimensão, mas de grande importância», revela. O primeiro é a coleção «Algarviana biblioteca breve», nome inspirado na obra de Mário Lyster Franco, que consiste «na edição e reedição de todas as obras essenciais sobre o Algarve. É quase como se fossem os clássicos para quem estuda ou queira aprofundar o conhecimento sobre a região, não só com uma vocação académica, mas também de divulgação». No âmbito desta coleção, fazem parte a «Crónica da Conquista do Algarve», um texto medieval que nunca foi editado. Serão também publicadas as duas descrições do reino do Algarve do séc XVI de João Batista da Silva Lopes e Henrique Fernandes Sarrão.

«A coleção tem uma abrangência temporal e temática, de forma a chegarmos a obras mais contemporâneas, como a parte sobre o Algarve do Guia de Portugal de Raúl Proença», acrescenta.
«Estamos a perspetivar que venha a ter 10 a 12 volumes», com a coordenação científica do professor Romero Magalhães, e o apoio científico da Universidade do Algarve.
Por fim, «temos intenção de publicar as Atas do primeiro Congresso do Algarve. São 25 teses que seria importantíssimo recuperar e pensar de novo. Perceber o que é que nestes 100 anos se fez, se avançou, o que saiu daquele desiderato. O papel da editora também é não deixar perder alguns documentos que são essenciais».

Sem fins lucrativos, mas sustentável
«Esta editora é um projeto que não procura o lucro, mas tem de ser sustentável. Eu sou um homem da economia e da gestão. Sou consultor e auditor há 30 anos. Tenho a noção perfeita de como se avalia ou como se monta um negócio. Isto nunca servirá para ficarmos ricos, mas é um negócio para dar o que o Algarve precisa. Estou a retribuir um pouco, tudo aquilo que eu levei do Algarve», esclarece Manuel Brito, que até há pouco tempo viveu grande parte da vida profissional em Lisboa.

No que toca à «Algarviana», «gostávamos que as autarquias e as entidades públicas estivessem connosco para adquirir uma série de exemplares, de forma a serem colocados nas escolas e nas bibliotecas municipais, e a viabilizar financeiramente a edição». Não obstante, com ou sem apoios, o plano editorial arrancará na mesma, garantem os responsáveis da «Sul, Sol e Sal».

Repensar o Algarve
Apesar da juventude, esta editora já lançou várias obras, como a «Evolução Urbana de Olhão» de Sandra Romba, «Francisco Fernandes Lopes: historiador de Olhão» de Andreia Fidalgo, o livro infantil «Farol um golfinho em apuros» de Sofia Quaresma, e uma reedição da obra de António Rosa Mendes «Olhão fez-se a si próprio».

Além desta atividade regular, «há projetos em que nos sentamos para pensar: o que faz falta? Como é que podemos intervir?».

Uma resposta dá por nome «Repensar o Algarve». «Convidámos uma série de autores a pensar o que poderia ser o Algarve. Vão conceber um programa de desenvolvimento. O conceito é perspetivar o futuro daqui por 20 ou 30 anos nas áreas essenciais, como a economia que inclui o turismo como atividade principal, e a agricultura e pescas como atividades secundárias hoje, mas que merecem um outro olhar. E também, debruçarem-se sobre o património, cultura, artes plásticas, entre outras. Já temos dois números zero a serem produzidos», revela o editor.

«Breviário algarvio» está a ser escrito por Guilherme Oliveira Martins. «No fundo é uma relação de toda a história algarvia por épocas. Embora ele não sendo algarvio, se considere uma pessoa do Algarve. Vai ser o patrono desta coleção». A outra obra tem por título «O Algarve em números» e é uma proposta do economista António Rebelo de Sousa, professor de economia e irmão do atual Presidente da República, «uma análise estatística da região».

Distribuição «militante»
«Além da qualidade e da pertinência das obras, sempre tivemos a preocupação de fazer as coisas bem feitas, as capas, a paginação, o design, a revisão de texto. Enquanto objeto, queremos fazer livros com qualidade. Fazemos as nossas escolhas, e não aquilo a que o mercado obriga», esclarece Manuel Brito. Não obstante, «é preciso ter uma distribuição regional, porque senão acontece como muitas outras editoras que por aí editam livros e ficam com eles em casa», ironiza.

A solução encontrada tem sido o bater às portas. «Estamos a ir de ponto em ponto de venda, às livrarias e quiosques, tentar sensibilizar os intervenientes para a importância deste projeto». A aceitação? «Nalguns casos é muito boa. Noutros assim, assim. E também encontrámos indiferença. Mas queremos que os pontos de venda sintam alguma militância. Que sintam isto como uma coisa importante para a região. É essa a nossa postura. Queremos que interajam connosco e que percebam que também têm um papel naquilo que estamos a fazer», sublinha o editor.
Para já, a chancela está presente em quase toda a região, à exceção apenas de Castro Marim e Aljezur.

Leitores querem obras sobre a terra
A distribuição procura colocar os livros que se melhor se adequam a cada localidade (site specific). A obra «Evolução Urbana de Olhão» de Sandra Romba, «já vendeu mais de 200 livros num ano, o que não é nada mau».

Na perspetiva do editor, teve importância ainda antes da discussão e polémica sobre o plano de revitalização do centro histórico de Olhão, porque «as pessoas, os leitores sentem muito a necessidade de livros sobre as terras. Durante muito tempo, a edição esteve muito na mão das autarquias, que decidiam, ou não, patrocinar os livros. Mas com a gradual redução da disponibilidade financeira para investirem em cultura, o resultado é que hoje há muito poucas publicações deste tipo, seja de onde quer que seja», acrescenta Salvador Santos, que faz parte do núcleo duro da «Sul, Sol e Sal». Por exemplo, o novíssimo «Faro na Época Moderna: Do Urbanismo à Arquitetura» de Tânia Rodrigues, «veio fechar uma sede de anos», considera.

«Fizémo-lo com apenas o apoio de um privado. Eu sou um homem ligado às empresas e conheço as principais do Algarve. Sei que a generalidade está disponível para, de forma pontual, apoiar a cultura e a edição», explica Manuel Brito. «Isso também é uma estratégia, irmos aos privados em vez de sobrecarregar o público com este tipo de apoios», embora, por exemplo, a Direção Regional de Cultura do Algarve já tenha apoiado algumas edições.

Projeto cultural abrangente
«A editora é um projeto cultural que ramifica para outras áreas. É um projeto gregário que está a juntar muita gente de diferentes áreas. Somos independentes e fazemos questão disso. Mas também somos integradores e não exclusivistas», resume o escritor Carlos Campaniço, que também faz parte da equipa editorial.
A sede física, na baixa de Olhão, tem acolhido eventos culturais de iniciativa própria ou que são propostos e organizados por terceiros. O festival «Poesia a Sul» passou por aqui, assim como o documentário «Mudar de Vida» sobre o cantor de intervenção José Mário Branco. «Quase não chegou às salas e achámos que podíamos ajudar. Agora queremos passar o demain sobre as alterações climáticas», conclui Manuel Brito.

Apostar na fotografia de autor (algarvio)

Nas paredes da sede da «Sul, Sol e Sal» há uma série de fotografias de autores consagrados – Jorge Molder, António Júlio Duarte, Gérard Castello Lopes, Helena Almeida, entre outros. «O Manuel Brito é por apetência um colecionador e um apreciador da fotografia. Portanto sendo nós uma editora e tendo no Algarve fotógrafos com muita qualidade, começámos a pensar até que ponto não faria sentido editar também fotografia», explica Salvador Santos. «Seria uma justiça que faríamos a estes autores». A intenção é publicar um livro por fotógrafo, edições individuais e temáticas, com o olhar de Filipe da Palma, Jorge Graça, Luís da Cruz, Tiago Grosso e Vasco Célio. «Para nós, são autores essenciais. É um projeto a candidatar» ao programa 365 Algarve. Se for avante contamos com o apoio da Niobo», umas das lojas especializadas em material fotográfico, com maior notoriedade em Portugal, com sede em Olhão. «Gostaríamos também que incluísse uma série de exposições autónomas, a apresentar em digressão em pelo Algarve».

Um algarvio no gangue de Al Capone

Uma edição curiosa no prelo é a tradução do livro «The Sea Fox, The Adventures of Cape Cod’s most colorfull rumrunner», de Scott Corbett, publicado em 1956 e que até hoje não foi traduzido para português. É a história de Manuel Zora (1894-1979), um olhanense que aos 13 anos imigra para os Estados Unidos da América, «e que ficou conhecido por ter sido um dos homens do bando de Al Capone», o célebre gangster de Chicago dos anos 1920, durante a lei seca. «Ele levou o conhecimento do mar e de navegação aqui de Olhão e aplicou-os no tráfico de bebidas. Fazia as viagens de barco com o álcool de contrabando. Eu ainda o conheci», explica Manuel Brito, editor da «Sul, Sol e Sal». «Mais tarde, foi viver para uma zona piscatória, Cape Cod, que se tornou a zona turística da intelectualidade norte-americana. Estamos a falar de gente como Eugene O’Neill, Ernest Hemingway, John dos Passos», sublinha. «Alguns ficavam em sua casa e navegavam de barco à vela com ele» ao sabor das histórias que contava. «Ele era grande, largo e muito feio, uma figura peculiar e devia ser um pouco mentiroso. Mas contava bem as suas histórias. Em 1958, voltou para Olhão. Contava que tinha sido amante da mulher de Al Capone. Na verdade, a melhor história é como é que alguém que sai daqui tão jovem e que mal sabia ler, a única coisa que devia saber era andar de barco, chega à América e se transforma num gangster e num contador de histórias apreciado por toda a intelectualidade americana», questiona Salvador Santos.

Sopas da Serra

Outra das apostas da editora «Sul, Sol e Sal» será um livro para lá da culinária. «É mais uma recolha etnográfica, que não tem nada de académico, de sopas que já vêm de outros tempos e gerações. Chegou-nos através do João Ministro e da Querer, uma cooperativa de desenvolvimento do interior. São recolhas autenticas feitas por Jesus Dias, de Querença. Gostaríamos que a introdução fosse escrita pelo Alberto Melo que foi o fundador da In Loco, e um homem muito ligado à economia alternativa. Achamos que é muito válido e gostávamos de contar com ele», explica o editor Manuel Brito. «Queremos apresentar receitas de tradição, puras, mas acompanhadas por um estudo ou proposta de programa de desenvolvimento do interior. A ideia é pensar como é que a culinária e a restauração podem contribuir para a regeneração de território desertificados».

Os dias do Oriente em Olhão

A equipa da «Sul, Sol e Sal» está a «ganhar fôlego» para organizar uma semana temática. A ideia é reunir livros, filmes, fotografias e gastronomia oriental. «Conhecemos o André Príncipe que tem fotografias duma viagem àquelas latitudes. Há uma editora amiga que publica apenas livros sobre o Oriente. E há pouco tempo saiu o documentário da realizadora Cláudia Varejão sobre o quotidiano das mulheres japonesas que mergulham sem botijas de ar, à procura de algas, ouriços e abalones», explica. O documentário «Ama-San, ou as mulheres do fundo do mar» foi o vencedor da 14ª edição do DocLisboa, e em breve poderá vir a ser exibido em Olhão. «Além disso, temos alguma facilidade em contactar a Fundação Oriente. E que temos uma pessoa próxima que por acaso é japonesa, a Masoko» casada com o artista Fernando Pinheiro que organizou recentemente na sede da editora, o evento «a Fábrica, e». «Porque não ir mais longe? Somos um embrião cultural improvável. Aqui, tudo pode acontecer. Até o que nunca seria suposto», brinca Salvador Santos.

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