Suecos prontos para festejar inauguração da loja IKEA de Loulé

A contagem decrescente para a inauguração da loja IKEA de Loulé, a 30 de março, pulsa no centro nevrálgico da marca, em Älmhult, apesar da distância geográfica. Esta é uma das conclusões da reportagem do «barlavento» na Suécia.

A contagem decrescente para a inauguração da loja IKEA de Loulé, a 30 de março, pulsa no centro nevrálgico da marca, em Älmhult, apesar da distância geográfica. Esta é uma das conclusões da reportagem do «barlavento» na Suécia.

À primeira vista, a vila de Älmhult, com 10 mil habitantes, rodeada por uma enorme floresta no sul da Suécia, não parece albergar o cérebro e o coração da gigante multinacional. Um olhar mais atento, contudo, revela que tudo tem o toque da IKEA.

Aqui trabalham 4700 pessoas de todo o mundo. Cerca de 50 nacionalidades, entre os quais, aproximadamente 20 portugueses. As bicicletas estacionadas ao redor não têm cadeados. No interior, os cacifos dos colaboradores também não. A confiança e respeito mútuo fazem parte da cultura sueca. Também não há horários de trabalho. Produz-se quando surge a inspiração e criatividade, mas assume-se sempre que os prazos e as metas são para cumprir. «A liberdade para criar acarreta outras responsabilidades» explicou ao «barlavento» Luís Pires, 36 anos, um dos vários portugueses a viver e trabalhar na IKEA of Sweden.

Luís Pires é um dos portugueses a viver e trabalhar na sede da IKEA, na Suécia.

A sua equipa é constituída por cinco profissionais que se dedicam «à criação e desenvolvimento de mesas e cadeiras da gama de cozinha. Aqui lidero o processo e faço o elo de ligação com os designers. Fazemos um briefing, damos-lhes a missão e depois voltam com ideias, rascunhos e analisamos o material. Trabalhamos no lançamento de novos produtos ou no melhoramento dos já existentes», explicou. «O meu objetivo é promover um design com qualidade e de fácil acesso à maioria das pessoas e que melhore as suas vidas. Aqui, a nossa missão é tornar o design democrático. Faz parte da filosofia da empresa», explicou. Em média, cada produto à venda na IKEA demorou cerca de três anos a concluir.

E quais os requisitos para trabalhar em Älmhult? «Muito empenho, paixão e uma mente gloriosa», conclui Luís Pires. O complexo é constituído por 13 unidades de trabalho espalhadas pela vila, na região de Småland. No passado recente, esta zona era muito, muito pobre. O solo, fértil em pedras, nem permitia que a agricultura se desenvolvesse. A população não se esquece. Apesar de hoje Älmhult acolher a sede de uma das principais empresas do mundo, os muros construídos com recurso às rochas, aqui e ali, revertem para a origem humilde. Atualmente, a IKEA emprega 163 mil colaboradores em todo o mundo. As 12 lojas IKEA existentes na Suécia dão emprego a 14 mil pessoas, mas no global a marca está presente em 48 mercados.

Comunicar com o mundo

Desenvolver uma linguagem universal, não é tarefa fácil. Neste momento, neste instante, toda a nova gama de novos produtos que irão integrar o novo catálogo, a ser lançado em setembro de 2017, está a ser fotografada na IKEA Communication, ou como se diz em Älmhult, na ICOM. Trata-se de um dos maiores estúdios de fotografia da Europa, com 18 mil metros quadrados onde são produzidas milhares de imagens trabalhadas ao pormenor. Produzir cada edição do catálogo demora cerca de 14 meses. Não é lento, considerando que todos os anos são impressos 211 milhões de catálogos, distribuídos por 72 versões, disponíveis em 53 mercados em todo o mundo.

Novos produtos estão atualmente a ser fotografados para o catálogo 2017/2018 da IKEA na ICOM.

O catálogo da IKEA é o segundo livro mais distribuído no mundo. O «barlavento» não pode atrapalhar a azáfama, nem registar nada sem autorização. Os produtos devem permanecer no segredo dos deuses. A equipa ronda os 300 colaboradores fixos, mais 200 adicionais nesta época específica do ano. São também aqui elaboradas as brochuras de cozinha, casa de banho e armários, além de toda a comunicação interna, conteúdos para o website e as instruções de montagem de todos os produtos.

IKEA of Sweden: o reino da criatividade

Aqui nascem e são desenvolvidos todos os produtos da marca sueca. Todos os anos, são retirados do mercado 2000 itens e introduzidos igual número de novos produtos. O complexo «IKEA of Sweden» tem duas unidades: a loja de protótipos e o laboratório de testes. Estão interligados entre si. Ou seja, cada vez que um protótipo é elaborado, seja um sofá ou uma lancheira para crianças, todos são «testados até à exaustão. A nossa principal preocupação é a segurança de todo o que fazemos», explicou ao «barlavento» Stefan Bertilsson, o responsável desta unidade.

Uma equipa de 36 investigadores avalia todos os dias centenas de produtos que devem cumprir as normas europeias e a legislação em vigor, e também as normas específicas estabelecidas pela própria IKEA, antes de seguir para a linha de produção.

Questionado sobre a taxa de aprovação dos novos produtos, Bertilsson explicou que apenas «cerca de 10 por cento são aprovados ao primeiro teste». A maioria tem de regressar a este laboratório reconhecido a nível internacional, em média, seis a sete vezes antes de ser aprovado. A cada é elaborado um relatório com a avaliação e os resultados em detalhe. «Somos muito rigorosos. Por vezes basta mudar a cor de um produto para termos de voltar a testá-lo», explicou. Neste laboratório realizam-se 14 mil testes por ano. Mas dado o volume de trabalho, a IKEA recorre a cerca de uma centena de outros externos espalhados pelo mundo.

Stefan Bertilsson responsável pelo laboratório de testes da IKEA.

Um dos testes reais a que o «barlavento» assistiu, simulava um incêndio num sofá provocado por uma beata de cigarro. O material que compõe o móvel deveria, só por si, extinguir o fogo em menos de dez minutos, e não perder mais de 60 gramas de material. O teste foi superado com a extinção do fogo em pouco mais de três minutos e uma perda de cerca de 30 gramas.

Algumas das experiências mais repetitivas e monótonas para testar a fadiga e a resistência dos materiais são realizadas com recurso a robots sofisticados. Estes são capazes de abrir e fechar armários, gavetas, sofás, cadeiras, mesas e até lancheiras de plástico milhões de vezes, de forma a que, na prática, se calcule uma estimativa do tempo de vida e durabilidade dos produtos. Existem até snifers profissionais para testarem o cheiro emanados pelos produtos.

Colecionadores à caça dos protótipos

Já na «loja dos protótipos» trabalham 15 pessoas distribuídas por cinco áreas: têxteis, 3D, madeira, metal e tratamento de superfícies. Todos têm o mesmo objetivo: «quão rápido, rigoroso e barato conseguimos desenvolver um produto?», explicou ao «barlavento» Henrik Holmberg, o responsável pela unidade desde 2008, e colaborador da IKEA há 15 anos. Todos os anos são aqui produzidos cerca de 2700 protótipos, cerca de dez por dia. Muitos acabam mesmo por não chegar ao mercado, por variados motivos. No entanto, não quer dizer que vão para o lixo. Na verdade, são disponibilizados na «FYND» uma loja única no mundo, em Älmhult a preços baixos. São artigos únicos que nunca chegarão ao grande mercado. Fiascos para a empresa, ouro para os colecionadores que aqui vêm à procura de todo o tipo de itens.

«Olá. Podemos entrar?»

Viktor Olivemark, strategic planner da Ikea Business & Consumer Intelligence (IBCI) da IKEA of Sweden, é um dos 25 investigadores que tentam perceber a forma como vivem os indivíduos em casa. «A nossa equipa tenta perceber que necessidades têm, o que querem e o que sonham em ter as diferentes pessoas em diferentes áreas do globo», explica. Questionamo-nos sobre «como é o dia a dia das pessoas?», «quem são estas pessoas?», «de que forma podemos melhorar a sua vida?». Depois a equipa apresenta resultados e tenta tomar decisões que vão ao encontro de todas as informações recolhidas.

Uma das formas de analisar «como se vive em casa» decorre do programa «home visits», isto é, visitas a casas. Tal como aconteceu no Algarve. Uma equipa destacada visitou centenas de casas algarvias com o objetivo de entender as especificidades das casas do sul.

O próprio diretor da IKEA de Loulé, Abdelhak Ayadi, visitou algumas habitações para se inteirar melhor sobre a realidade algarvia. Estes dados recolhidos sobre as casas e a forma «como vivem os algarvios » serão apresentados ao público pela IKEA Portugal durante as próximas semanas. Olivemark explica que há cinco anos que desenvolvem a investigação «vida em casa», para perceberem como se comportam os indivíduos em casa: o que querem, o que precisam, o que valorizam. Em qualquer um dos casos, o objetivo global e a resposta tem sempre como objetivo criar um «design democrático» e acessível à maioria.

E como é avaliado o preço de cada produto? A mesma mesa de cozinha não tem o mesmo valor em Portugal, na Suécia ou na Indonésia. Os preços são ajustados tendo como termo de comparação o custo dos produtos alimentares e o salário médio dos trabalhadores em cada país. Em breve, a IKEA Portugal revelará também dados sobre este estudo comparativo.

Hubhult, o ex-líbris da civilização

A pouco mais de uma hora de Älmhult, o coração e alma da IKEA, encontra-se na cidade de Malmö. O edifício da marca suec acolhe o «mais sustentável edifício de escritórios da Escandinávia». Batizado de Hubhult, é um espaço de trabalho que dá apoio a várias áreas operacionais da empresa. Alberga centenas de espaços de trabalho abertos, dinâmicos e personalizáveis: individuais, coletivos, para encontros, workshops e reuniões. Não há doutores, nem engenheiros, ninguém se faz tratar por títulos académicos. «Aqui somos todos iguais. Temos 1400 colaboradores. Ninguém tem a sua própria secretária. Todos são livres de usar qualquer um dos lugares disponíveis. Temos 5500 estações de trabalho. Cerca de 2200 secretárias e 5500 cadeiras ergonómicas. A maioria das pessoas dedica-se a uma de cinco áreas diferentes, divididas em 18 organizações. Desde pequenas administrações de duas pessoas até equipas que coordenam programas como o e-commerce, constituído por cerca de 250 pessoas. O edifício recebe ainda 200 visitantes por dia. Um número que tem tendência para aumentar», explicou ao «barlavento» Daniel Lewin, um dos responsáveis pelo espaço.

A poucos minutos do aeroporto de Copenhaga, na Dinamarca, é o local ideal para reuniões de trabalho internacionais. E se por algum motivo, não poderem ser presenciais, não há problema. Não há impossíveis para o gigante sueco. Os colaboradores têm à disposição as conferências via Skype nas «10 minutes boxes»; caixas insonorizadas para reuniões privadas; entre uma vasta oferta de diferentes ninhos de trabalho para todos os gostos. Em caso de necessidade de fugir ao stress, há inclusive uma «sala de reflexão», onde as paredes e decoração brancas podem ser preenchidas com rabiscos de planos e ideias, e uma outra para «reabastecimento de energias». Todos os fadigados podem fazer uma pausa para relaxar.

Muito à frente? «Temos muito orgulho por sermos o primeiro país do norte da Europa a receber o certificado Breeam Outstanding, pelo edifício sustentável que desenvolvemos. Produzimos, por exemplo, mais energia do que a que consumimos graças aos nossos painéis solares e também devido aos nossos parques eólicos. E o coração do Hubhult, há um enorme espaço de encontro em madeira coberto por confortáveis almofadas, foi construído com recurso aos restos de madeiras que utilizamos. Estes são apenas alguns exemplos», do que os suecos fazem no local de trabalho.

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