Start-up brasileira quer fabricar simuladores de Realidade Virtual em Faro para o mercado europeu

Beto Facci, Sérgio Santos (diretor do Forum Algarve) e Haroldo Sato.

Não é só aos visitantes do centro comercial Forum Algarve que o simulador da Motion Spheres tem atraído as atenções. Trata-se de uma plataforma esférica com vários eixos rotativos para gerar movimento com um sistema multimédia interativo no interior «que consegue gerar até 7G em termos de sensação de aceleração. Dentro dessa esfera, podemos simular carros super desportivos, motas, voo, naves espaciais, qualquer ideia é possível. O que temos aqui em Faro é o simulador de um McLaren de 900 cavalos. Tem um cockpit real, bancos, consola, volante, um ecrã curvo de 140 polegadas e sistema áudio de cinema. Tudo isso dá uma experiência muito próxima da realidade», explicaram Beto Facci e Haroldo Sato aos jornalistas, durante uma conferência de imprensa no salão nobre da autarquia, na quarta-feira, 28 de março.

Os executivos da Motion Sphere Haroldo Sato e Beto Facci com Rogério Bacalhau e Paulo Santos, presidente e vice-presidente da Câmara Municipal de Faro, respetivamente.

Realidade poderá também vir a ser a implementação desta start-up brasileira na capital algarvia, com todo um «ecosistema integrado» que envolve a criação de uma unidade fabril, gabinete de desenvolvimento de novos conteúdos e investigação, e ainda uma arena de simulares (esferas).

Para isso estão já assinados protocolos de cooperação com a Câmara Municipal de Faro e com a Universidade do Algarve, no âmbito do Polo Tecnológico (Tech Hub) que está a nascer no campus da Penha.
«Estamos a avaliar o tamanho do investimento, na ordem dos três milhões de euros, apenas para a parte industrial. Será uma instalação de cerca de 1000 metros quadrados, com capacidade para produzir 20 a 30 equipamentos por ano», explicou o fundador Beto Facci.

Ou seja, o objetivo é duplicar a capacidade atual que a empresa já tem no Brasil para servir a América Latina. A futura unidade em Faro terá duas vantagens em relação à fábrica brasileira. Permitirá baixar os custos de produção das esferas (80 a 100 mil euros por unidade), valor inflacionado pela burocracia e pelos custos de importação dos componentes, e abrirá facilmente a exportação para todo o mercado europeu.

«Temos recebido muitas demandas por parte de grandes centros de entretenimento», acrescentou Beto Facci. O modelo de negócio inicial será o aluguer (locação) destes equipamentos para eventos especiais, ações de marketing, feiras e outras iniciativas, a prazo.

Por enquanto ainda não há local definido para acolher a fábrica da Motion Sphere, embora o executivo preveja arrancar dentro de 3 a 6 meses. «Mas já estamos a comercializar e temos entidades interessadas na experiência de moto, que é feita numa esfera de 4 por 4 metros. Poderá ser produzida aqui, como primeiro teste de montagem», revelou.

Os brasileiros estão a estudar várias oportunidades de financiamento e esperam captar o interesse da comunidade académica para desenvolver «novas patentes e novas experiências de realidade virtual, que seriam uma evolução da plataforma». Na verdade, foi um universitário que criou esta tecnologia, em 2014, em Curitiba. No final do curso, Jeferson Mazutti, atual sócio da empresa, usou «uma lavandaria» para testar os primeiros protótipos.

Em relação à arena, a ideia da Motion Spheres é criar espaços com vários simuladores no Brasil, Emirados Árabes Unidos, Japão, China, Inglaterra e Portugal.

«Faro por ser um destino turístico, tem todo um trabalho a fazer para atrair mais pessoas na época baixa. Este mundo do gaming, da tecnologia, atrai multidões para campeonatos oficiais», disse Haroldo Satu.

Os brasileiros, por outro lado, acreditam ter encontrado em Faro receptividade na comunidade local de empresas de tecnologia. Haroldo Sato chegou ao sul de Portugal através de contactos prévios com Miguel Rocha Fernandes, fundador da agência digital farense Dengun, que é agora um parceiro estratégico.  Esperam, no futuro, vir a captar o interesse dos estudantes universitários e de outras start-ups que se possam vir a associar ao projeto.

«O Algarve foi uma grande surpresa. O meu mundo era os Estados Unidos, nunca tinha vindo a Portugal. Quando cheguei encontrei uma questão de lifestyle, com a praia, sol, vinho, peixe. E é um hub internacional. No Forum Algarve, temos conhecido pessoas de todo o mundo, até canadianos de Vancouver.  Antes eu morei na Flórida e penso que aqui não se perde nada em relação aos EUA. A cultura portuguesa é frendly e isso é muito importante para um ambiente colaborativo. Começamos a identificar um solo fértil e percebemos que a expansão para a Europa poderia começar aqui», disse Haroldo Sato.

«Faz sentido esse ecosistema. Teremos uma unidade de montagem, que na verdade, por si só não faz nada, mas um tech hub para desenvolver novas experiências em conjunto com a universidade. É uma visão expandida, não é só a industria, é o todo», reforçou.

<3>Simuladores por medida</3>
A esfera instalada no Forum Algarve, até 8 de abril, está a correr o «Project CARS2», um dos mais sofisticados softwares do género, editado pela «Slightlymad Studios». Isto significa que estes simuladores podem utilizar programas escritos por terceiros, embora a empresa também desenvolva ideias à medida de cada cliente. Facci aponta dois casos. No Brasil, «surgiu a ideia de fazer uma viagem virtual por um motor Volkswagen, para dar a conhecer a tecnologia TSI num ângulo que nunca ninguém viu. É como se você fosse miniaturizado e injetado dentro do motor». Em alguns pontos-chave da simulação, como o turbo, ou a câmara de combustão, a esfera acrescentava elementos 4D «de calor e frio».

O protótipo da esfera de Realidade Virtual criada por Jefferson Masutti.

Outro projeto foi para a Honda do EUA, patrocinadora oficial do prestigiado Festival Sundance, que pretendia promover a linha desportiva ACURA, na edição do ano passado. «Construímos a primeira simulação biocontrolada do mercado, através de sensores que liam o ritmo cardíaco e as ondas cerebrais. Toda a experiência era controlado pelas emoções de cada pessoa e era sempre diferente. Chamamos-lhe as estradas do humor (moodmaps). Até a banda-sonora mudava», explicou Beto Facci, CEO da Motion Sphere.

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