Spirulina, o novo super alimento produzido em Monchique

A primeira quinta em Portugal exclusivamente dedicada à produção artesanal de spirulina – uma espécie muito antiga de alga, hoje considerada um super-alimento – fica a 700 metros de altitude, na serra de Monchique. É um projeto familiar do casal Georges Porta, 61 anos, e Cristina Palma Brito, 58 anos. Investiram cerca de 35 mil euros e três anos de trabalho. Esperam que outros interessados repliquem a ideia, segundo os príncipios éticos que defendem.

A caminho da subida para o topo da Fóia, há um desvio à direita que quase passa despercebido. Vai dar ao Restolho de Aveia, onde os terrenos estão em pousio há mais de 20 anos. Restam os antigos muros, vestígios de época distante em que estas terras eram cultivadas numa agricultura de subsistência. Na verdade, não era muito diferente do projeto que Georges Porta e Cristina Palma Brito estão agora a estabelecer. Numa zona onde a invasão do eucalipto começa a dominar a paisagem, as suas estufas surgem em contraciclo ecológico.

Começaram a montar tudo há três anos. «Primeiro tivemos que nivelar o terreno, preparar o espaço para as estufas e fazer toda a unidade de transformação com material higiénico e com certificação alimentar», contam.

Georges Porta, vegetariano convicto, «aprendeu a falar português com o Diário da República», brinca Cristina Palma Brito. Na verdade, este francês tem origem catalã, o que facilitou a aprendizagem do idioma.

Os primeiros contactos com o Ministério da Agricultura, tiveram a sua dose de caricato, mas não devido às barreiras linguísticas. «Não sabiam o que é a spirulina. Ninguém em Portugal faz isto, pelo menos de forma legal. Somos os primeiros», contam.

«Desconheciam totalmente o que era. Explicámos, e olhavam-nos incrédulos. Só à terceira vez é que começaram a acreditar que não era nenhuma história maluca, mas uma realidade com números», orçamentos e tudo o necessário para fundar um novo negócio. O processo tomou forma e deu origem a uma candidatura aprovada ao PRODER (Programa de Desenvolvimento Rural).

Antes de vir para Monchique, por motivos familiares, Georges Porta teve uma loja de produtos biológicos em França, atualmente gerida pelo filho, e portanto está habituado a papéis e contas. «Não se pode falar mal de Portugal», diz sobre a montanha de burocracia que teve de mover. «É o mesmo em toda a Europa. Penso que em França, a única diferença é que não aplicam as normas com a mesma rigidez», admite.

A primeira colheita

A estufa principal, que contém um tanque de 160 m2 rende um quilograma de spirulina por dia. «Uma produção normal são sete gramas por dia por metro quadrado», explica. «Agora que se aproxima o inverno é bom que a spirulina fique concentrada, para resistir melhor ao frio. Mesmo que a temperatura desça ao zero graus, não morre», embora no Inverno de Monchique, a 700 metros de altitude, nunca desça a mínimos inferiores a 7/8 graus centígrados.

Perguntamos se este primeiro ano está a correr bem. «Sim e não. Conhecia a teoria, mas a prática é pouca. O exemplo que dou é que se você cozer um quilo de arroz é fácil. Se quiser cozer 10 quilos, vai acontecer alguma coisa esquisita. Aqui é igual. Comecei no mês de maio e tenho vindo a aprender», conta Georges, sobre o processo de afinar as ferramentas, os métodos, as quantidades.

A técnica é relativamente simples. Uma bomba filtra a spirulina através de panos permeáveis com furos cujo diâmetro ronda os 30 microns. «Fica concentrada como se fosse queijo fresco», explica. Fazem-se várias colheitas, até haver o suficiente para ir à prensa. A seguir, a massa enxuta vai para uma máquina manual de fazer salsichas, adaptada para este efeito, de onde sai na forma de fios fininhos, parecidos aos da massa esparguete. É levada a secar, a baixa temperatura, e está pronta para embalar.

O meio de cultura precisa de sal – cinco gramas por litro de água, aproximadamente – o que influencia um pouco o sabor. A quinta aproveita a água, de excelente qualidade, que nasce no interior de uma mina a poucos metros da estufa.

Não há impacto ambiental, já que «implementamos um tanque de reciclagem dos expurgos e as águas usadas são recicladas num outro tanque através de plantas». Por outro lado, não há desgaste dos solos como na agricultura convencional porque esta cultura faz-se em ambiente fechado.

Para já, a spirulina é vendida em pacotes de 100 gramas, o suficiente para três semanas a um mês de consumo. «Toma-se ao início do dia. Tem um efeito de limpeza profunda. Por exemplo, em Chernobil e em Fukushima usaram a spirulina para tratar a gente contaminada com os metais pesados», exemplifica.

Vizinhos idosos rendidos

«Sei que o produto que fazemos é bom para a saúde. Funciona muito bem em casos de má nutrição». Que o digam os vizinhos idosos ao redor do Restolho de Aveia, que têm sido provadores oficiais deste super-alimento. «Muita gente velhota tem falta de ferro e sofre de anemia. Agora, passados dois meses a tomarem spirulina, estão melhores e com mais energia. Estamos contentes», simplifica o fundador da ideia. Os seniores entusiasmaram-se e os atletas têm seguido, sobretudo os praticantes locais de BTT.

«Este é agora mais um produto local e gostamos de fazer a venda direta. Podemos dar conselhos às pessoas e receber críticas», diz Georges Porta. A Spirulina da Serra está disponível no Intermarché de Monchique, numa loja da especialidade em Portimão e no local. «Isto tem a ver também com ajudar as pessoas a tomarem consciência sobre o que comem. Podem vir aqui e ver o que é. É importante estimular isso, até numa perspetiva de desenvolvimento local», diz Cristina Palma Brito.

«A grande diferença entre esta spirulina, que cresce artesanalmente, e a industrial é o processo de secagem. Ao contrário da produzida industrialmente, fazemos uma secagem muito mais lenta, a não mais de 42 graus centígrados. Acima dos 60 graus, perdem-se muitos nutrientes. Isso é muito importante». Comparativamente, segundo Georges Porta, a spirulina industrial é processada segundo o processo «instant dry», o mesmo usado para liofilizar o café a 80 graus, «é muito violento e quase que queima». «É por isso que a maioria da spirulina que se encontra nas grandes superfícies tem uma cor escura e sabor amargo», explica.

Possível de produzir em qualquer sítio

«Só precisamos de água e sol. E não muita água. Uma vez que o tanque está cheio, não há perdas, só por evaporação. Não é necessário repor a cada dia», explica. Uma das vantagens é que as estufas podem ocupar solos inférteis. «A ideia é que esta exploração sirva de exemplo para outras pessoas que queiram produzir spirulina com ética», diz.
Georges Porta faz parte da Fédération des Spiruliniers de France que junta cerca de 120 quintas como a sua naquele país. Segundo conta ao «barlavento», em conjunto só garantem 20 por cento do consumo de França. O resto é importado do Havai e China. «O importante é que esta federação segue uma ética e um código de entreajuda. Isto não pode ser visto meramente como um projeto económico» para o lucro fácil.

Jean Paul Jourdan, o grande pioneiro da spirulina, «pensou que talvez fosse uma solução para a fome no mundo. Porque a história da comida do futuro tem a ver com pouca água e pouco espaço para produzir muita proteína. Trabalhamos na Índia com ONGs. Vimos que, para uma criança com má nutrição, basta um a dois gramas por dia para o corpo reagir ao fim de duas semanas. Este lado é muito interessante. Na Europa temos uma comida muito ácida, e a spirulina é alcalina. Cresce em Ph acima de 10. Equilibra a acidez da comida ocidental. Também o valor nutricional da comida na Europa é duvidoso, está cheia de antibióticos e porcarias. Isto pode ajudar», conta Cristina Brito.
«Este projeto, quando atingir a maturidade, terá 400 metros quadrados. Teremos um rendimento suficiente para viver. A ideia não é fazer grande lucro. É ser uma coisa sustentável para ajudar outras pessoas a criar um circuito de produção e consumo de spirulina noutros locais».

«As 120 quintas em França desenvolveram-se assim. A federação promove a troca de saberes, não há concorrência. Muito desses produtores em França, e é um pouco a ideia de Georges Porta, no inverno vão para países subdesenvolvidos ajudar a montar quintas de Spirulina», por exemplo, na África francófona. «Não é preciso exportar ajuda alimentar para esses países. Isto pode ser feito localmente». Porque não é mais conhecida a spirulina? «Porque não se pode patentear»…

Ingrediente da origem da vida

Estima-se que a spirulina apareceu há 3,5 biliões de anos. É uma cianobactéria, ou «alga azul», com espessura de 0,3 mm, e deve o nome à sua forma em espiral mais ou menos apertada. Realiza a fotossíntese a partir de partículas de luz, convertendo dióxido de carbono em matéria orgânica e libertando oxigénio. Estas cianobactérias são os antepassados das algas, líquenes, musgos e todas as plantas. São igualmente responsáveis ​​pela linhagem animal: ameba, vertebrados, homo erectus. Aliás, o homo-sapiens é o bisneto de uma cianobactéria que borbulhava na sopa original da vida no planeta. Atualmente encontra-se no seu habitat natural em algumas partes do mundo, onde as características do ambiente original foram mantidas: águas quentes, alcalinas e ricas em sais minerais.
O casal suspeita que no parque de Donana há spirulina selvagem, que vem nas patas dos flamingos e cresce onde encontra condições de Ph favoráveis. Um dia gostariam de ir lá verificar e colher amostras, nos locais inacessíveis. «Basta um litro desta spirulina para começar a produção». Ainda não procuraram nas zonas húmidas do Algarve.

E já foram procurados por outros interessados? «Sim, mas a maioria das pessoas vêm em busca de uma ideia fácil para fazer dinheiro rápido», lamentam. «Penso que é uma coisa que tem de se gostar, é um ser vivo. Precisa de atenção. Funciona muito com o cheiro, para conhecer a saúde», diz Georges Porta.

A spirulina de Monchique vem de França, mas a sua origem é da Índia, num lago vulcânico. Também há na Mauritânia e no México, tendo sido consumida pelos Aztecas. Ganhou destaque nos anos 1960, quando cientistas europeus repararam na boa saúde e condição física de alguns povos ao redor do lago Chade, em África, comparativamente aos seus vizinhos. «Reparavam que consumiam uma substância verde, que as mulheres colhiam, secavam e vendiam nos mercados. Analisaram e concluíram que era spirulina. Começou a assim a pesquisa».

Mais info: https://spirulina-da-serra.com/

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