Solar das Pontes de Marchil será novo centro de artes plásticas em Faro

Coletivo de 12 artistas plásticos juntou-se para reabilitar o edifício da antiga delegação de Faro da Associação de Comandos.
Bertílio Martins, Fernando Amaro, Ângelo Gonçalves e Gustavo de Jesus.

Há uma nova associação dedicada às artes visuais que está a recuperar o espaço que uma outra há muito vagou. Chama-se 289, tal como o indicativo telefónico do concelho e, desde junho, tem vindo, aos poucos, a recuperar o velho Solar da Pontes de Marchil, que no passado acolheu o centro de férias do Algarve da Associação de Comandos, delegação de Faro. O objetivo é criar ateliers, quer individuais, quer partilhados, no primeiro andar do edifício e um novo espaço para exposições, aberto ao público, ao qual não falta um bar de apoio.

Bertílio Martins, um dos artistas que vai trabalhar no Solar e presidente da associação 289, explica que «esta iniciativa parte de um grupo informal de pessoas que, pelas afinidades que partilha, começou a falar em juntar-se, eventualmente para encontrar um espaço de trabalho. No fundo, que servisse as necessidades básicas dos artistas. Por outro lado, é mais fácil enquanto coletivo termos um sítio onde as despesas fiquem mais baratas ao nível logístico. Depois, há uma outra questão essencial. Vivemos numa região onde a crítica artística não abunda. O facto de nos juntarmos, faz com que sejamos críticos de nós próprios e dos nossos colegas. Também era do nosso interesse arranjar uma área de exposição, de forma a que pudéssemos abrir a nossa associação à comunidade».

«Existe uma universidade, existem artistas, existe uma cidade, mas não abundam espaços de iniciativa cultural de artes plásticas, que é o nosso grande foco», afirma. Fruto de «uma série de casualidades», surgiu então as possibilidade de ocupar a antiga delegação de Faro da Associação de Comandos, um edifício centenário que se encontrava devoluto, vandalizado e abandonado, apesar de ter potencial para uma nova e proveitosa utilização. Desde logo, a 289 começou a pensar em diferentes formas de o dinamizar, com atividades culturais como workshops, exposições, tertúlias e até mesmo concertos e mostras de cinema.

Segundo Fernando Amaro, artista residente, «chegámos ao proprietário do Solar, que estava bastante degradado, e ele achou por bem que nós o ocupássemos, para já, por tempo indeterminado, para os objetivos que nos propomos a fazer. É um edifício privado, não temos qualquer apoio da Câmara Municipal, nem qualquer outro de ordem institucional. Propomos criar aqui uma dinâmica que não existe. Faro pretende candidatar-se a Capital Europeia da Cultura em 2027, mas falta fazer muita coisa. Se calhar, podemos dar uma mãozinha», sublinha ao «barlavento».

Bertílio Martins diz que o grupo procurou «imensos espaços. Pediram-nos rendas exorbitantes e incomportáveis. Nesse sentido, vê-se que não existem políticas que apoiem, no fundo, este tipo de projetos». Assim sendo, artistas e amigos tiveram que jogar mãos à obra.

Fernando Amaro

«Há aqui muito investimento em termos de tempo, de trabalho, de materiais e financeiro. Sai-nos tudo do bolso. Cada um trabalha com as suas competências e disponibilidades» para ajudar a dar forma e vida ao futuro centro artístico, sublinha Fernando Amaro.

«Tomámos posse em maio e começámos em junho. Fizemos um trabalho primário de desobstruir o espaço, que era uma floresta autêntica. Havia toneladas de lixo aqui dentro. O espaço foi vandalizado, não havia um fio elétrico, nem canos ou torneiras. Foi tudo roubado. Os sanitários estavam partidos, não havia uma única porta ou janela no sítio. Já depois de estarmos cá, os poucos materiais que dispúnhamos foram também roubados. Tivemos de fazer um investimento num sistema de alarme para podermos estar aqui mais seguros», diz Bertílio Martins.

Na verdade, em julho de 2014, já tinha havido uma tentativa de recuperação do Solar por parte da Associação de Comandos, em parceria com um empresário farense. Foi feito um grande esforço de recuperação e limpeza de todo o espaço interior e exterior e, durante algum tempo, funcionou uma «cantina social» que servia almoços diários. No entanto, a iniciativa não pegou e o velho Solar voltou a cair no esquecimento.

Margarida Gomes.

A 289 é atualmente composta por: Ana Rostron, Ângelo Gonçalves, Bertílio Martins, Catarina Correia, Elisabeth Ninolla, Fernando Sampaio Amaro, Gustavo de Jesus, Jorge Mestre Simão, Margarida Pavão Gomes, Paulo Serra, Susana de Medeiros, Tiago Batista, Vasco Marum Nascimento, Vincent Régis Ribeiro e Xana – co-autor do projeto de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade do Algarve, onde é professor convidado desde 2004, e nome consagrado da arte moderna nacional.
Fernando Amaro admite que quase todos têm «alguma ligação ao curso de Artes Visuais da Universidade do Algarve. Mas não é uma extensão do mesmo, nem um prolongamento. Somos um coletivo independente», conclui.

Inauguração aberta a toda a comunidade

A associação 289 vai abrir as suas portas já no próximo sábado, dia 18 de novembro, entre as 15 e as 3 horas, com uma programação variada que irá contemplar a visita aos ateliers dos artistas, a inauguração de uma exposição coletiva às 18h00, performances, projeção de curtas-metragens em parceria com o Shortcutz Faro, e ainda a exibição do filme «Shirley: Visions of reality», de Gustav Deutsch (2013), em colaboração com o Cineclube de Faro, às 21h30. A partir das 22h30 haverá música, a cargo do DJ Pedro Mesquita.

«Vamos partilhar tudo o que temos estado aqui a fazer, a partir das nossas ideias, com a comunidade. Ao longo do dia vamos ter diversas surpresas e todas pessoas interessada estão convidadas a vir até cá. O evento é aberto de entrada livre», assegura Bertílio Martins, artista plástico e presidente da associação 289. Sendo a promoção das artes visuais um dos principais focos, é um objetivo futuro estabelecer e manter protocolos e parcerias com outras organizações congéneres de natureza cultural, nacionais e internacionais. Mais informações estão disponíveis em http://www.289.pt/

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