Sete passagens de nível no Algarve serão suprimidas

Está prevista a criação de passagens desniveladas, mas também é preciso mudar os comportamentos de risco que continuam a ser motivo de preocupação, ainda que a redução de acidentes seja de 89 por cento em duas décadas.

Portimão, Silves, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António serão as localidades que verão passagens de nível serem suprimidas, naquele que é um constante investimento na segurança destes atravessamentos, conforme descreveu a Infraestruturas de Portugal (IP), na quinta-feira, 6 de junho, no Convento de São José, em Lagoa.

Na Linha do Algarve, além de Lagoa, que também poderá ter supressão de duas passagens de nível (Parchal e Estômbar) no âmbito de um protocolo de segurança assinado com a autarquia naquele dia, a IP prevê a supressão da passagem em Silves (quilómetro 313,914), Portimão (330,572), Olhão (359,659), Tavira (371,317 e 373,245) e Vila Real de Santo António (395,140 e 395,401). São projetos que estão em desenvolvimento no âmbito do Ferrovia 2020, sendo que apenas duas, do total de sete, manter-se-ão como passagens para peões, sendo apenas suprimida a componente de atravessamento rodoviário.

Neste caso, serão Tavira (371,317) e Vila Real de Santo António (395,401). Ou seja, a supressão não implica o desaparecimento do caminho, mas um desnivelamento (superior ou inferior), um desvio na localização ou um percurso alternativo.

Parchal e Estômbar, no concelho de Lagoa, têm condições para vir a ser suprimidas, como explicou Luísa Garcia, diretora de segurança da IP. «Do ponto de vista rodoviário, a solução é uma obra de construção civil, do ponto de vista pedonal, a passagem de nível do Parchal tem dificuldades diferentes para ser suprimida. A de Estômbar poderá ter uma passagem desnivelada superior e a do Parchal tem condições para ser inferior», avançou.

O calendário previsível pode ser de três anos, entre projeto e execução, no caso de Estômbar, sendo que o Parchal, numa segunda fase, avançará dois anos depois da conclusão da primeira, referiu ainda Luísa Garcia.

Na verdade, segundo afirmou Alberto Diogo, vogal do Conselho de Administração da Infraestruturas de Portugal, a empresa quer continuar este plano de supressão e reclassificação de atravessamentos de caminho de ferro, pois a aposta tem demonstrado eficácia na redução da sinistralidade.

«A IP tem, no seu programa de investimentos, o planeamento de ações para a eliminação de passagens de nível para a construção de passagens desniveladas e automatização de outras que ainda não apresentam prioridades de supressão. O valor de investimento nestas ações é de 97 milhões de euros em todo o país. O planeamento é composto por duas componentes, a Ferrovia 2020 e Plano de Proximidade, programa de melhoria nas condições de segurança e aumento da capacidade da rede ferroviária nacional, onde se inclui a dotação de melhores condições de segurança no atravessamento da via férrea», afirmou. Assim, está prevista em todo o país a supressão de 104 passagens de nível e a automatização de 149, ficando o número total de passagens de nível em Portugal reduzida a 740.

No Algarve serão um total de 34, no programa Ferrovia 2020, sendo que destas há as sete para suprimir. «As restantes serão objeto de reclassificação por automatização ou dotação de melhores condições associadas o sistema de sinalização. A supressão de uma passagem de nível implica sempre o encontrar um caminho alternativo àquele que existe», esclareceu ainda.

Luísa Garcia enaltece a importância desta medida. «Dos 17 acidentes em 2017, geraram-se seis vitimas mortais e todas foram peões. Do nosso ponto de vista estes números ainda são significativos, apesar de estarmos a falar de um contexto de 850 passagens de nível em 2017».

Nada que se compare às estatísticas com quase duas décadas, em que existiam 2494 passagens, sendo que a sinistralidade chegou aos 154 acidentes, 15 com peões e 104 com viaturas. Foi uma redução de 89 por cento na sinistralidade desde 1999, até ao ano passado.

O problema não está, porém, apenas nas condições das vias, sendo também essencial uma nova abordagem aos comportamentos de risco que teimam em persistir na população, sobretudo, nos jovens. A questão da falta de tempo, do arriscar uma vez mais porque na anterior não houve nenhum acidente, o momento de hesitação entre o passar ou esperar que o comboio passe apesar da sinalização indicar a aproximação do veículo, ou o caminhar junto à linha de auscultadores (headphones) são ainda motivos de grande preocupação para a entidade gestora da linha férrea.

«A nossa vivência diária tem como consequência uma contínua falta de tempo que conduz a que, cada dia, se arrisque mais um pouco e à medida que somos mais experientes, maior é a nossa confiança. E estes comportamentos são imitados pelos mais novos. São assimilados e incorporados no dia a dia», concluiu Alberto Diogo.

Lagoa compromete-se com segurança das passagens de nível

Parchal e Estômbar são duas das passagens de nível que vão sofrer melhorias, estando prevista a supressão e a criação de plataformas desniveladas para o atravessamento. É uma aposta em segurança, sobre a qual a Câmara Municipal de Lagoa fez questão de assinar um protocolo com a Infraestruturas de Portugal (IP), na quinta-feira, 7 de junho.

Mais do que um mero protocolo, de uma calendarização de supressões de passagens de nível este é um compromisso de segurança da parte da Câmara Municipal de Lagoa da IP. «É o compromisso entre as duas partes para garantir que o percurso que os peões e os condutores de automóveis fazem no atravessamento da passagem de nível é mais seguro e tem melhores condições. Garantir que conseguimos criar condições para, quando cada um de nós atravessar esta passagem de nível, tome consciência e não tenha um ato irrefletido», colocando em risco a vida, explicou Luísa Garcia, diretora de segurança da IP.

Aliás, Francisco Martins, presidente da Câmara Municipal de Lagoa, considera que tem havido constantes melhorias a nível da acessibilidade, como é o caso do percurso pedonal na zona do Parchal. No entanto, quanto ao caminho de ferro, o autarca considera que «todas as medidas que possam ser desenvolvidas para diminuir riscos», devem ser tomadas. «A segurança ainda é aquela que deve prevalecer sobre tudo. A Câmara de Lagoa acolhe este convite para que comecemos por aqui estas intervenções. Estaremos cá para cumprir a nossa parte do protocolo», garantiu o autarca na quinta-feira, data em que se assinalava o Dia Internacional da Segurança nas Passagens de Nível.

Estudo da UAlg poderá ajudar a criar melhores condições de segurança

O Instituto Superior de Engenharia, da Universidade do Algarve (UAlg), está a trabalhar em parceria com o Instituto Politécnico de Viana do Castelo, com o Centro de Inovação e Excelência para a Indústria Automóvel, num estudo sobre a acessibilidade para o turismo. Como explicou Daniela Rosa, professora coordenadora do Instituto na UAlg, na quinta-feira, 7 de junho, no Convento de São José, em Lagoa, o projeto é direcionado para a mobilidade e acessibilidade.

É suportado pela FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia e pelos Programas Operacionais do Algarve e norte, colaborando ainda com entidades como a Câmara Municipal de Lagoa, as Infraestruturas de Portugal, a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO).

A investigação foca-se no turismo sénior e nas soluções que devem ser tomadas para tornar as infraestruturas acessíveis, quer sejam as pedonais ou as que implicam um veículo. Por outro lado, a investigadora avançou que este projeto inclui também a mobilidade sustentável, sendo importante tomar em consideração as dificuldades de pessoas em cadeiras de rodas, cegos e amblíopes, idosos, mas também situações mais específicas como turistas com trolleys ou pessoas com carrinhos de bebé. «Este projeto de investigação é um estudo piloto que prepara uma paragem de autocarro para que esta seja acessível a todos, inteligente e sustentável», esclareceu.

No entanto, há outra dimensão do projeto que inclui a criação do Percurso Pedonal Riverside, sendo o hotel com este nome, localizado em Lagoa, «uma referência nacional e internacional em turismo acessível», afirmou Daniela Rosa. É um caminho de 800 metros, entre as interfaces do Parchal (paragem de autocarros) e a unidade hoteleira, que terá 1,5 metros de largura, livre de obstáculos, com pavimento regular. Neste trajeto, por exemplo, um dos pontos é a passagem de nível do Parchal, que não garante a continuidade da rede pedonal ao cidadão, num ambiente de segurança.

«É um ambiente viário, com uma faixa de rodagem muito larga, junto a uma curva, tem o pavimento irregular, e apesar da boa visibilidade do caminho de ferro, só há cancelas em metade da via de tráfego», de cada um dos lados, «o que permite que um turista ou um ciclista ande aos ziguezagues e as contorne», apontou. As soluções passam por colocar pavimento regular, marcações visuais para cegos, amblíopes, algum tipo de sinalética para surdos, como exemplificou a investigadora com recurso a imagens de casos aplicados a nível internacional.

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