Sardinha de aquacultura será mais-valia para a indústria conserveira

Depois de anos a investigar a corvina, a Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) tem todo o conhecimento científico disponível para quem quiser investir na produção em cativeiro. Agora é a vez da sardinha, que poderá vir a ser uma mais-valia para a indústria conserveira
Pedro Pousão Ferreira, investigador, biólogo e diretor da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO).

Também no mar, com a chegada da primavera, os peixes começam a reproduzir-se. Este ano, «a corvina que está nos tanques exteriores começou a pôr ovos dois meses mais cedo» do que é habitual, algo que surpreendeu Pedro Pousão Ferreira, investigador, biólogo e diretor da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO).

Ao longo dos últimos seis anos, esta infraestrutura do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) tem vindo a desenvolver estudos que permitem «a quem quiser produzir corvina em terra, ter a tecnologia bastante dominada. Claro que o conhecimento nunca acaba, está sempre a evoluir, mas o que temos, neste momento, já dá perfeitamente para produzir grandes quantidades, por exemplo, modelando a temperatura da água para que cresça mais depressa».

«O que nos falta mesmo são os investidores. Mas penso que são questões de momento. Quem diria que, de repente, Portugal iria ter este boom de turismo? As pessoas poderiam não querer sair de casa, pelo facto de haver conflitos no Médio Oriente. Mas visitam-nos, porque o país se tornou atrativo», compara.

«Sabemos que no âmbito do Mar2020 os investidores estão a aparecer. Não precisamos de muitos, apenas de dois ou três que invistam a sério» de forma a duplicar a produção nacional de aquacultura.

«As condições estão criadas para isso. Nós respondemos à parte biológica e tecnológica da questão», garante. «Começámos a estudar o linguado em 1985. Na altura, o sector não tinha muito interesse. E agora houve um boom no mercado. Neste momento, já há uma empresa do norte a produzir em circuito fechado e há várias empresas espanholas que arrancaram em força. Em relação ao robalo e à dourada, estamos em fase de afinação», informa o diretor da EPPO.

Sardinha em aquacultura pode interessar às conserveiras

Questionado sobre a produção de sardinha, uma das espécies que mais preocupações tem dado ao sector das pescas, Pedro Pousão Ferreira reconhece que não tem sido uma prioridade, por limitações de pessoal e de fundos. No entanto, a EPPO é parceira de vários projetos de investigação que passam por «fazer sardinha com uma taxa sobrevivência de x por cento, em y tempo e z densidade nos tanques. Agora é que nos vamos dedicar a 100 por cento.

Engordá-la é bastante fácil, agora a reprodução e o cultivo larval têm algumas dificuldades que nós ultrapassaremos. Já se fizeram testes em anos anteriores. Aliás, quando fizemos corvina pela primeira vez foi difícil e agora é fácil. É uma questão de compreender os peixes e avançar», garante.

«Temos de olhar um pouco mais para a frente. No caso da corvina temos todas as informações para oferecer ao sector privado. Quem quiser investir fará contas para perceber qual o ganho. Neste momento, poderá não se ganhar com a sardinha, mas se calhar daqui por cinco anos, previsivelmente sim, porque o consumo é enorme e o preço vai subir». Sem querer fazer futurologia, o diretor da EPPO acredita que «é muito provável que daqui a uns anos, dentro dos peixes de aquacultura, a maioria da produção se concentre em duas ou três espécies-charneira. Será 80 por cento corvina, robalo e dourada, e depois um pouco de tudo o resto», prevê. Ainda sobre o valor comercial da sardinha de aquacultura, poderá ser interessante para as conserveiras. «Penso que a indústria conserveira é uma indústria de sucesso. Uma conserva é uma coisa muito prática. Não vejo razão para que não possamos criar peixes, desde que haja uma boa relação preço/ qualidade que satisfaça esta procura. Deixamos a sardinha do mar, em fresco, para assar na brasa e esta para a lata. Podemos não ter preço agora, mas daqui a uns anos, acredito que sim».

Repovoamento de sardinha não resolve escassez no mar

Em 2016, a Estação Piloto de Piscicultura de Olhão libertou 25 mil corvinas ao largo da Armona e também uma grande quantidade de meros, ao largo de Quarteira e Armação de Pêra. «Não estamos apenas a deitar peixe ao mar. Com o mero queremos repovoar locais destinados ao mergulho», já que é um peixe curioso à presença humana. À medida que as condições do mar melhoram e os mergulhadores retomam o desporto, as informações irão chegar à EPPO. «Queremos ver o resultado. Imagine que desapareceram todos, se calhar é porque os libertámos num local muito exposto», explica. Já sobre a corvina, «esperamos ter informação mais amiúde dos pescadores. Imagine que nos dizem que está magra ou muito concentrada ou que não apareceu nenhuma», talvez predada pelos golfinhos. Os resultados ditarão as próximas ações. E não se poderia fazer o mesmo com a sardinha, para repor os stocks no mar?

«Sim, mas teremos de perceber porque é que estamos a repovoar. Se não corrigirmos as causas do desaparecimento, não valerá a pena», diz Pedro Pousão Ferreira, que não culpa apenas a sobrepesca. «Há muitas outras causas. Nós alterámos o planeta. As pessoas têm de meter isto na cabeça de uma vez por todas. Serão também fatores ambientais. Nós passamos a vida a deitar lixo para o mar e depois queremos que tudo funcione eternamente. Em vez de fazer sardinhas em cativeiro, e lançar ao mar, se calhar é melhor parar a frota um ano e indemnizar os pescadores para que o peixe se possa reproduzir. Talvez uma melhor gestão pudesse ter mais efeito», conclui.

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