Salga Romana descoberta em Faro dá novas pistas sobre Ossónoba

Arqueólogos garantem que a estrutura é comum, mas a informação recolhida contribui para o conhecimento histórico e científico de Ossónoba.

Esteve soterrada desde finais dos séculos IV-V, numa zona ribeirinha junto à Ria Formosa, que se manteve à margem do principal núcleo urbano de Faro, durante séculos. A descoberta não surpreendeu, contudo, a equipa de arqueólogos que estão a trabalhar na Rua Francisco Barreto, junto à estação de comboios da capital algarvia, onde até há pouco tempo existia um armazém, entretanto demolido para dar lugar a um novo hotel.

«O edifício que aqui estava era de inícios do século XX. Por baixo, estava tudo coberto por um conjunto de depósitos de diferentes épocas. Aquilo que se sabe, pelos vestígios arqueológicos encontrados até agora, é que toda esta zona ribeirinha seria ocupada em época romana. A salga estava a a cerca de um metro de profundidade», explicou ao «barlavento» Paulo Botelho, um dos arqueólogos com a responsabilidade científica da intervenção no terreno.

«Os trabalhos em curso decorrem no âmbito da construção de um projeto hoteleiro, que deu entrada na Câmara Municipal de Faro e na Direção Regional de Cultura. O promotor foi informado acerca das medidas de minimização do impacte a cumprir. Numa primeira fase procedemos à realização de seis sondagens de diagnóstico prévias, as quais antecederam os trabalhos de demolição», esclareceu. «Identificámos as estruturas romanas dispersas por toda a área. No seguimento de uma reunião com a tutela para apresentação dos resultados, houve necessidade de aplicar novas medidas, que passaram pela escavação integral da área a afetar, para se fazer um registo pormenorizado de todas as realidades que existiam aqui».

«Ainda estamos numa fase preliminar dos trabalhos. Esta salga terá sido construída no século I ou II, e foi abandonada no século IV ou V. Existem vestígios que este espaço terá sido reestruturado ao longo da sua existência. E é isso que vamos registando durante a escavação, que segue um método específico», explicou.

Aliás, Botelho sublinha que «o mais importante é a informação recolhida e não apenas as estruturas em si. Nestes núcleos urbanos é raro haver oportunidade para intervenções com estas dimensões. Estamos a falar em cerca de 400 metros quadrados. Os dados são importantes para o conhecimento da cidade de Faro, para um melhor conhecimento da história de Ossónoba», disse.

Garum, delícia do Império também se fazia em Faro

A salga terá ficado esquecida ao longo dos tempos. «No final da época romana houve uma retração da cidade que voltou para o núcleo inicial. Depois, em época moderna, esta zona volta a ser ocupada por alguns edifícios religiosos, aos quais surgem associadas algumas hortas», descreveu Paulo Botelho.

Apesar de ser um achado interessante, «todos têm pormenores específicos e elementos comuns. O que vemos aqui é o que resta dos pátios que seriam áreas de trabalho ao ar livre e as restantes estruturas que teriam telhado de tégulas e imbrex», e que mais tarde vão dar origem à telha lusa e à telha de meia-cana.

O complexo poderia ser maior. «Sim, isto é apenas uma parte do que existiria. Não sabemos exatamente a sua dimensão, apenas identificámos quatro cetárias, que foram mais tarde subdivididas e passaram a seis. Talvez tenha sido por questões económicas. Este tipo de salgas são conhecidas ao longo de toda a nossa costa e também no Mediterrâneo. Existem vestígios em Marim, em Lagos, em Portimão. Serviam para produzir garum. Era uma pasta produzida com uma mistura de peixes esquartejados, vísceras e especiarias. O garum não era igual em todo o império romano. A receita variava conforme as espécies que existiam em cada região. Aqui não encontrámos abundante fauna ictiológica», que possa dar algumas pistas aos arqueólogos, em relação ao pescado que seria utilizado nesta produção local.

No entanto, têm sido encontrados muitos objetos, desde anzóis a moedas. «Recolhemos diversa cerâmica, vidros, bem como artefactos em metal. Quando há um abandono rápido das estruturas e um colapso (um incêndio, ou um terramoto, por exemplo), encontramos frequentemente os artefactos in sito. Aqui neste caso, nota-se que houve um abandono progressivo. Encontramos fragmentos de um mesmo objeto espalhados por toda a área. O nosso papel é colar estes fragmentos de História», explicou Paulo Botelho.

Ainda em relação às estruturas da salga, «datam de uma fase final da ocupação romana, conhecida por uma economia mais frágil e uma construção menos cuidada. São muito perenes e frágeis. Temos apenas a base, as fundações. Ainda falta escavar uma área de 20 metros quadrados», informou.

Questionado sobre se os achados podem por em risco o projeto hoteleiro, Botelho diz que caberá à tutela decidir. «Estamos a escavar tudo dentro dos parâmetros normais e segundo os métodos científicos que são aplicados nestes casos. Após a realização do registo gráfico, fotográfico e tridimensional de todas as estruturas identificadas será agendada uma reunião, para se perceber se existe, ou não, necessidade de adotar novas medidas. Mas dada a condição de conservação das estruturas, o normal nestas situações é o seu desmonte e escavação das mesmas, de forma metodológica» e não uma iniciativa de musealização.

Para o arqueólogo poderão ser consideradas outras opções alternativas. «Há sempre a possibilidade de se integrar alguns elementos provenientes da escavação no futuro projeto. Seria interessante e uma mais-valia para o futuro hotel, manter uma memoria das pré-existências do atual edifício, através de painéis explicativos e alguns artefactos. É a tal memória que devemos conservar», disse. Os trabalhos estarão concluídos até inícios de novembro. Estão a trabalhar no terreno os arqueólogos Fernando Santos e Paulo Botelho, responsáveis científicos da intervenção, Andreia Campôa e Liliana Nunes da Engobe – arqueologia e património cultural, Lda.

O que diz a tutela

Contactado pelo «barlavento», Rui Parreira, diretor de Serviços dos Bens Culturais, salientou que neste caso, a decisão final acerca do futuro dos achados não caberá apenas à Direção Regional de Cultura do Algarve (DRCAlg), mas também, e sobretudo, à Direção Geral do Património Cultural, que tem a tutela nacional.

«O local não está classificado, nem abrangido por zona de proteção a monumentos classificados. Assim, aplica-se o princípio que está consagrado na lei, que é a conservação pelo registo científico, antes de haver uma remoção dos vestígios. Depois teremos que avaliar a relevância dos achados, e chegar a uma decisão que não prejudique as legítimas expetativas do promotor» do projeto hoteleiro, «nem aquilo que a Câmara Municipal de Faro pretender para o local», referiu.

Também o arqueólogo Frederico Regala da DRCAlg que tem acompanhado o processo, confirmou que a decisão final terá que ser tomada em breve, pois as chuvas que se avizinham podem colocar em risco a conservação dos achados. Por outro lado, não descarta a hipótese de «alguma estrutura relevante» desta herança romana vir a integrar o projeto do novo hotel previsto para o local.

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