«Rota de águas doces» do Algarve é projeto pioneiro no país

«Oásis do Algarve» é o nome de um projeto pioneiro em Portugal que pretende incentivar o turismo de natureza através da divulgação das lagoas, ribeiras e zonas húmidas de água doce, quase desconhecidas e inexploradas da região.

A ideia nasceu no meio do Atlântico. João Rodrigues, 27 anos, licenciado em Biologia e mestre em biodiversidade e conservação marinha viveu algum tempo no arquipélago dos Açores, onde descobriu a paixão pela fotografia subaquática, ganhou experiência e desenvolveu a técnica para resultados de alta qualidade.

«Tive a oportunidade de trabalhar ao lado de nomes importantes da National Geographic e da BBC. Aprendi muito. Eu era o mergulhador de segurança dos operadores de câmara e fotógrafos. Depois de ver como tudo se processava, decidi explorar a biodiversidade da natureza e a história natural com a especialidade subaquática. É o que quero fazer da minha vida», revela ao «barlavento».

«Quando regressei ao Algarve, já no outono de 2016, houve muitas tempestades e o mau tempo não permitia o mergulho no mar. Foi então em dezembro, que decidi experimentar mergulhar no Sítio das Fontes, em Estômbar, no concelho de Lagoa. A visibilidade era muito boa e fiquei fascinado. A partir daí comecei a fazer uma pesquisa bibliográfica e a reunir informação sobre os sistemas de água doce no interior algarvio», o que deu início a um fértil trabalho de campo.

Sítio das Fontes de Estômbar.

Desta prospeção resultou o estudo e documentação de 18 locais «ricos em flora, fauna e providos de paisagens de cortar a respiração», no interior de nove concelhos algarvios, de Alcoutim a Aljezur.
João Rodrigues compilou as imagens subaquáticas que captou, e também uma série de dados, por exemplo, sobre a vida marinha aquática e os habitats. É o pilar do projeto «Oásis do Algarve», que pretende lançar já no próximo ano.

O biólogo acredita que a melhor forma de conservar este património natural, é potenciar o seu usufruto com regras amigas do ambiente bem definidas. «É preciso que as pessoas conheçam o que existe para que o possam proteger, e que fiquem sensibilizadas», diz. Assim, para cada um dos locais, muitos desconhecidos do grande público, criou propostas de «como explorar a natureza, sem a prejudicar».
As sugestões estão associadas a variáveis tais como, qual a melhor altura para planear as visitas, quais as profundidades de mergulho possíveis em cada local e a visibilidade expectável, quais os melhores locais para snorkeling, entre outras. Em complemento, o projeto «Oásis do Algarve» olha também para a envolvente, fornecendo dados sobre a biodiversidade, e quais as melhores atividades lúdicas a praticar nas proximidades.

Ribeira do Vascão.

«A ideia é criar uma aplicação móvel e um website» sobre a riqueza do Algarve interior. A aplicação servirá como um guia turístico, na qual estará contida toda a informação da rota «Oásis do Algarve». O biólogo deixa ainda em aberto a possibilidade de publicar de um livro guia com todo este levantamento e a obra fotográfica que tem vindo a compilar.

«O turista está cada vez mais interessado nas atividades na natureza – caminhadas, BTT, observação de aves. No entanto, parece-me que o Algarve ainda continua a apostar muito na costa, o que leva à saturação. Este projeto iria ajudar a dispersar as pessoas e a fazê-las explorar e conhecer um outro Algarve que não sabem que existe», argumenta.

Ser simultaneamente biólogo, mergulhador profissional e fotógrafo, mune João Rodrigues das ferramentas necessárias para «perceber que há uma história por detrás de cada peixe, que não devia estar ali porque é uma espécie invasora, ou pelo contrário, que está ameaçado e é uma enorme sorte ter a oportunidade de encontrá-lo», explica.

João Rodrigues.

Para já, «a vertente subaquática é a que estou a dinamizar com mais empenho. Quero desvendar o que está no fundo destes sistemas com água corrente onde, regra geral, a visibilidade é mesmo muito boa. A minha tarefa é, entre outras, identificar os animais mais icónicos de cada local e falar um pouco sobre a biologia de cada um. Espero conseguir estimular a curiosidade das pessoas».

O biólogo fundou uma empresa própria, a «Chimera Visuals» para materializar o projeto «Oásis do Algarve». Após a concretização, estará disponível para realizar outros trabalhos ligados à investigação e ao registo fotográfico de ambientes naturais. «Irei associar os meus serviços ao turismo do Algarve e de natureza, o qual está a crescer muito. Atualmente são gastos cerca de 22 milhões ao ano, na Europa, em viagens neste nicho. Por isso, faz sentido ajudar a promover a riqueza do património natural da zona do Algarve, apelando sempre à consciência para a importância de conservar estes espaços e os animais que ali vivem», conclui.

Em relação ao modelo de negócio, João Rodrigues adianta apenas que a base de dados será uma fonte de informação passível de ser utilizada por todos os interessados. «Se, por exemplo, um município quiser passar a ter um guia que mostre o sistema de água doce daquela região, ou se outras empresas quiserem usar esta informação para oferecerem novos serviços, isso será possível».

«Ouvir a natureza aos gritos»

«A ribeira do Vascão, no concelho de Alcoutim, foi uma experiência impressionante. Quando lá chegamos deixamos de ver carros, casas e o silêncio é avassalador. Ouve-se a natureza aos gritos», metaforiza. «A única coisa que vi foi um pastor com cabras no cimo de um monte. Senti-me transportado para outras épocas. Não há ali ação humana e o local é uma autêntica escapatória da civilização. O sítio ideal para passar um dia longe de tudo», revela João Rodrigues. Dependendo da zona e dos caudais, as profundidades no Vascão variam entre os dois e os seis metros.

Fonte da Benómola

É aqui, explica o biólogo, «que podemos encontrar uma das espécies mais ameaçadas da Península Ibérica, o saramugo (Anaecypris hispânica) cujo tamanho raramente ultrapassa os 7 centímetros. É dos poucos sítios onde ainda se pode admirar este peixe. Assim como cágados de carapaça estriada, bogas, e toda uma biodiversidade incrível», sublinha.

Um dos mergulhos mais marcantes no âmbito do projeto «Oásis do Algarve» foi realizado na Fonte da Benémola, em Loulé, onde o biólogo encontrou um cardume de bordalos (Squalius alburnoides). «Para ser sincero, foi quando decidi que tinha de partilhar estas imagens com o mundo. E eu não me fascino assim tão facilmente, já vi tudo e mais alguma coisa no mar. Mas existe uma biodiversidade fantástica no interior algarvio pronta a ser explorada, e ainda muito desconhecida», sublinha.

«Oásis do Algarve» aberto a investidores

«O projeto está por enquanto em documento» mas encontra-se em fase de conclusão de orçamento. Depois, será entregue a uma empresa de consultoria que tratará de recorrer a financiamentos a nível europeu. No entanto, o empreendedor João Rodrigues avança que este «não é muito dispendioso». Além dos fundos europeus, a ideia é tentar obter o interesse e o eventual investimento dos municípios algarvios, assim como de empresas privadas que gostem da ideia. O financiamento servirá para adquirir «material para a obtenção de imagens subaquáticas ainda mais especializadas, pagar serviço de recolha de imagens e vídeos, prestação de serviços, trabalho de edição, o website e a aplicação». O biólogo gostaria de avançar com uma primeira versão já em 2018. Até lá, as informações serão atualizadas em
www.chimeravisuals.com

Águas do Algarve reconhece trabalho do fotógrafo

João Paulo Rodrigues conquistou o segundo prémio e uma menção honrosa na quarta edição do concurso «A Água pelos meus olhos» promovido pela Águas do Algarve, no final do passado mês de junho. A imagem premiada foi tirada na «reserva natural da Fonte da Benómola, onde é preciso uma licença para se mergulhar com garrafa. Apesar do fundo ser baixinho é preciso esperar muito tempo debaixo de água para que os peixes se aproximem da objetiva». A fotografia premiada mostra um bordalo (Squalius alburnoides), espécie que «está em estado vulnerável, muito devido à poluição. Mas nas nossas águas, no Algarve, estão em perfeito estado de conservação».

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