Refugiados e segregação nos encontros do DeVIR

A quarta edição do Festival encontros do DeVIR propõe dança, música, teatro, escrita, vídeo e fotografia. A primeira iniciativa é uma exposição da fotógrafa e ativista Elisabete Maisão, sobre a problemática dos refugiados, patente nos antigos Paços do Concelho de Lagos até 6 de abril.

A guerra civil na Síria abriu caminho para um novo drama humanitário, em pleno século XXI, que veio desaguar às portas de uma Europa pouco sensibilizada. Foi essa indiferença que «revoltou» a fotógrafa Elisabete Maisão, logo em 2015. «Isso fez-me agir e acabei por ir para Calais, em França. A minha intenção era ficar apenas quatro dias, mas a viagem acabou por se transformar num projeto de vida. Ao fim desse tempo, pensei: guardo a máquina fotográfica e fico como voluntária a distribuir roupa e comida. A partir daí, não consegui abandonar o campo. Fiquei mais de um mês. Depois fui com pessoas da organização fazer uma viagem de dois meses, passando pela Eslovénia, Bélgica, Alemanha, Macedónia, até chegar à Ilha de Lesbos, destino de muitos dos que arriscavam a travessia do Mediterrâneo. Isso já não está no espaço mediático, mas ainda acontece todos os dias», explicou ao «barlavento».

«Precisavam tanto de ajuda, que nada era mais importante para mim do que ficar ali. Tinha trabalho agendado em Londres, em Portugal, vários compromissos profissionais, mas cancelei tudo». Em todos os lugares por onde passou ouviu histórias individuais, de famílias que foram forçadas a deixar tudo para trás, numa viagem sem destino. «Enquanto isto acontecia, circulava um discurso muito racista na Europa. Às vezes, sentia que estava num filme da Segunda Guerra Mundial. Isso ainda hoje me incomoda», lamentou.

Fotografar para fazer exposições nunca foi o objetivo. «Como fotógrafa, eu apenas queria documentar», sublinhou. Hoje, admite, contudo, que todo esse material «é uma oportunidade para falarmos sobre segregação, porque essas pessoas continuam completamente à parte, à margem. Na Europa, há um medo por parte da população em geral. Os media têm feito uma analogia entre refugiados e terroristas. Passou a ideia que todos os que vêm da Síria ou do Iraque são terroristas, ou têm alguma coisa de negativo. Não é verdade. A maioria está apenas a fugir de uma guerra. Podia ser qualquer cidadão português, qualquer cidadão francês, a fugir de uma catástrofe. Parece difícil de entender», referiu a fotógrafa, de 42 anos, atualmente a viver no Rio de Janeiro.

«E mais, a maior parte dos refugiados acolhidos na Europa estão em sítios isolados, o que não lhes permite reconstruir uma vida. São marginalizados de propósito, porque as populações não os querem ver. Por exemplo, na Bélgica há um campo bem longe da cidade mais próxima. Quem lá está tem vergonha de sair. Estive em Calais em outubro de 2015. O campo ainda existe, está lá, com os mesmos problemas, a França não dá soluções. Há muitos refugiados que esperam um país que os acolha em 2019 ou 2020. Compreendo que há um problema, é muita gente para integrar, mas por outro lado, acho que a Europa podia fazer muito mais. Não é por falta de recursos», considerou.

No Brasil, onde reside desde 2012, Maisão tem focado a sua objetiva na fronteira com a Venezuela onde muitos refugiados chegam ao estado de Roraima, às cidades de Boa Vista e Pacaraima, sobretudo da etnia Warao. «Por serem indígenas sofrem mais problemas de integração e aceitação». O resultado desse trabalho foi mostrado no MAM – Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, em junho de 2017.

Algumas dessas imagens são agora apresentadas em Lagos. «É bom poder levar este assunto a Portugal. Penso que temos de acabar com o discurso deprimente dominante na Europa, pois a verdade é que neste momento, o mundo inteiro está a receber refugiados», concluiu.

A exposição de fotografia «Refúgio e segregação» será também apresentada no Teatro das Figuras, em Faro, de 10 de abril a 5 de maio. Para já, pode ser visitada nos antigos Paços do Concelho de Lagos (Praça Gil Eanes) até 6 de abril, de segunda a sexta-feira, das 9h00 às 17h00.

Elisabete Maisão dá workshop de fotografia documental em Lagos

A fotógrafa e ativista Elisabete Maisão vai estar em Lagos para lecionar um workshop prático de fotografia documental, de 23 a 25 de março, nas instalações do LAC – Laboratório de Atividades Criativas. Ouvida pelo «barlavento», a fotógrafa pretende partilhar toda a sua experiência de reportagem nos vários campos de refugiados que fotografou. «A ideia é mostrar como é que nos podemos preparar para fazer uma expedição deste género. Há toda uma ética que tem de ser respeitada. Estamos a falar de pessoas que não querem ser fotografadas naquelas condições. Muitas estavam habituadas a ter uma vida normal, muito digna, até com bastantes possibilidades económicas», explica. «É preciso perceber que aquelas pessoas não são refugiados. Estão na condição de refugiados. E isso pode durar um ano, dois ou até uma vida. Dentro desse refúgio, o seu aspeto muda. Tiveram de abandonar todos os seus pertences e ficaram à mercê de uma tenda para dormir, e da ajuda humanitária. A maioria não quer ser fotografada dessa forma. Logo aí, há uma barreira muito grande», descreve.

«Claro que outras querem porque entendem que o mundo precisa saber e ver o que está a acontecer. Mas a maioria fica na timidez. Até porque muitos estão a fazer uma viagem ilegal, quando passam da Turquia para a Grécia. Têm todos os motivos para não querer ser fotografadas. Tem de haver uma confiança mútua com o fotógrafo. Mas não é nada fácil. É um trabalho moroso e muito difícil», conclui. As inscrições já estão abertas on-line.

Uma ativista improvável

Elisabete Maisão (Lisboa) iniciou carreira na fotografia em revistas e eventos de moda e, em 2006, abriu o seu próprio estúdio, Nouvelle Photo. Em 2008 mudou-se para Amesterdão, onde trabalhou no EYE – Film Institute of Nederlands e estabeleceu-se como freelancer e formadora. Em 2011 inaugurou uma nova fase de trabalho, viajando e documentando o dia a dia de diferentes culturas, trabalho esse que resultou no primeiro livro «Turning the wheels – Nepal». No final de 2012 trabalhou como fotojornalista no Rio de Janeiro. Integrou a equipa da prestigiada agência Magnum, assistindo o fotógrafo David Alan Harvey no projeto «Offside Brazil» durante a Copa do Mundo de 2014. De volta à Europa envolveu-se com a crise dos refugiados. «Não foi um interesse específico. Sempre trabalhei muito com fotografia documental, e a nível pessoal defendo as questões humanitárias e sociais. Revoltou-me muito perceber que havia um discurso tão xenófobo na Europa» em relação ao que se estava a passar.

Assim, entre 2015 e 2016 percorreu inúmeros campos de refugiados da Europa e do Médio Oriente, trabalhando como fotógrafa e voluntária. No Líbano orientou workshops de fotografia para crianças, iniciativa que esteve na origem do projeto HOPEN. Segundo confidenciou ao «barlavento», no futuro próximo pretende dar-lhe continuidade. Em 2017, de volta ao Brasil, realizou uma residência artística na Casa Rio, que resultou na exposição «Na Rota dos Refugiados» e levou-a a desenvolver o projeto HOPEN em Roraima, com refugiados indígenas provindos da Venezuela. No final de março vem ao Algarve, no âmbito da quarta edição do festival encontros do DeVIR.

«Não precisamos de mais entretenimento» diz José Laginha

Segundo a organização, a cargo da DeVIR associação de atividades culturais e do Centro de Artes Performativas do Algarve (CAPa), a edição de 2018 vai apresentar 33 criações, até maio, em Faro, Loulé, Quarteira
e Lagos.

«Queremos continuar a pensar o nosso território, aliando o social ao cultural, o ecológico ao científico e o político ao artístico, fazendo pontes com outras realidades geograficamente distantes, tornando-as próximas e mais compreensíveis, através de trabalhos já realizados, e também de encomendas de criação», explica José Laginha, diretor artístico dos encontros do DeVIR.

«Cada vez mais, quero que este seja um festival que leva estes objetivos muito a sério. Não são letra morta. Este não é um evento de circo para entreter, nem para animar. É para pôr as pessoas a pensar sobre a sua realidade, vendo a realidade de outros. Esse deve ser o papel da arte e da cultura. E por isso, tem de acrescentar algo que não é mais do mesmo, mas alternativo. Ou seja, propor às pessoas que vivem neste território, olhares mais ricos através de quem faz um trabalho relevante».

É o caso da exposição «Refúgio e segregação», patente até 6 de abril nos Antigos Passos do Concelho de Lagos, que abre a quarta edição do festival. «Fui eu que fiz a seleção das fotografias, pensando que para ser útil, não poderia mostrar mais imagens iguais às que se veem nos telejornais. Não mostra o drama, nem a visão derrotada que as pessoas já conhecem» das notícias, «mas um olhar esperançoso» à problemática dos refugiados. Laginha explica ainda que a exposição mostra uma realidade recente, e também um lado inédito «sobre a situação dos indígenas warao» da Venezuela, que não tem sido devidamente noticiado na Europa. «Há uma preocupação de ter um aspeto de denúncia no festival. É importante que tenha um testemunho de uma realidade que não conhecemos», explica.

O trabalho da fotógrafa Elisabete Maisão vai continuar a focar a atualidade, pois «para complementar este lado de denúncia, fizemos-lhe uma encomenda de criação. Ela irá durante 10 dias, no final de março, a França, Bélgica e Alemanha, aos sítios onde ainda há refugiados em situações profundamente dramáticas e, ao mesmo, profundamente enganadoras», avança José Laginha.

No caso de França, «há migrantes a viver em tendas no meio de Paris. Em Calais há muita gente dentro da floresta, não são visíveis. Na Alemanha acontece uma situação paradoxal. Todos pensamos que aquele país acolheu imensos refugiados. Mas (acolheu) de que maneira? E onde? Essas são as perguntas que poucos fazem e que queremos responder», diz. «São acolhidos completamente fora dos locais onde seria possível trabalhar e ter uma vida próximo do normal. São ostracizados. Queremos mostrar um pouco desta realidade neste festival que tem como tema a segregação»

A nova exposição, em primeiríssima mão, será montada em tempo recorde. «Vou ter apenas dois dias para selecionar e imprimir as fotografias que ela trouxer», prevê. Será inaugurada a 13 de abril, na Galeria de Arte da Praça do Mar, em Quarteira. A DeVIR/CAPa é uma estrutura financiada pelo Ministério da Cultura/ Direção-Geral das Artes. A quarta edição do festival encontros do DeVIR é uma iniciativa co-financiada pelo programa de animação turística e cultural em época baixa «365 Algarve» e pelas autarquias que o acolhem.

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