«Rastilho» ou o sonho de uma tarde primaveril

Um espetáculo musical que é também uma caminhada, com dança e teatro na natureza, é a proposta do projeto «Lavrar o Mar» para este fim de semana, de 14 a 16 de abril, em Aljezur.

Um cenário bucólico, um elenco de talentos locais, uma caminhada por um trilho da Rota Vicentina, coreografias com um rebanho de cabras e um grande final em que serão servidas iguarias campestres frente a um lago escondido. Tudo isto faz de «Rastilho» uma das mais ambiciosas experiências performativas da carreira da coreógrafa Madalena Victorino, desenvolvida em conjunto com um grupo de 21 pessoas, todas ligadas às artes, nove das quais músicos.

«Alguns são artistas profissionais, outros não o são, mas gostam de tocar instrumentos, de representar e de dançar. Com este grupo quis entrar na natureza deste território», na Bordeira, concelho de Aljezur. «Temos uma paisagem maravilhosa, muito distante daquilo que é a paisagem tratada ou trabalhada pelo homem. Temos um ambiente de colinas e montes, com uma vegetação que nunca ardeu. São árvores antiquíssimas e, por isso, tão valiosas. No cume de uma destas colinas altas há um lago escondido onde terminará o nosso espetáculo», explica Madalena Victorino.
«Rastilho também quer dizer ir no encalço do rasto do fogo interior desta terra e também destas pessoas com quem estou a construir sequências coreográficas muito simples. Todas elas fazem uma ligação a este lugar. Às vezes são centopeias humanas que surgem, outras vezes são rotinas de trabalho que, num registo mais abstrato, ganham ritmos orgânicos de movimento».

No entanto, tal como em qualquer espetáculo, há um guião, inventado pela coreógrafa e trabalhado em co-autoria com o elenco. «Uma espécie de ficção justifica a nossa presença aqui. Imaginámos uma empresa alemã que produz tecidos e também roupa retro (que na verdade são os figurinos de cena). O administrador desta empresa fictícia chama-se Horst Baumann (interpretado por Thorsten Gruetjen) e um dia decide oferecer um fim de semana maravilhoso aos seus 21 funcionários. 21 não é um número inocente. É o inicio da Primavera, em que tudo renasce e tudo acontece. Há um sentido de festa e de celebração», revela. Estes operários imaginários, vindos de uma realidade urbana, «experimentam uma convivência com os animais, que eles nunca têm, com as ervas, as pedras, com a terra, com a água. Entram numa experiência muito especial. E é isso que queremos mostrar ao nosso público: a evasão, a transformação, e a possibilidade de um novo encontro. De estarmos aqui e agora, em pleno século XXI, numa paisagem perdida e à margem da aceleração do mundo mediático», descreve Madalena Victorino.

O elenco usará lenços que despoletam os vários momentos artísticos ao longo da caminhada. «Ganham vida e começam a nascer duetos, quartetos, trios, ao som de uma música muito bonita tocada pelo Nuno Salvado no acordeão, que é também professor e compositor, e pela Ana Raquel Martins que é uma saxofonista vinda da escola de artes de Sines», explica. Tudo é inédito. «É quase um musical, criado por nós. Há uma canção, o Escaravelho Azul, que resulta das nossas invenções. Todas têm a ver com esta ideia de ir para dentro da natureza e esquecer a competição, o barulho das cidades, a pressa, e de entrar num outro registo».

E como funcionará na prática? Às 16 horas, «o público é recebido por mim e pela equipa de produção no Largo da Igreja, perto da Junta de Freguesia da Bordeira. Vamos dedicar este espetáculo ao antigo presidente, João Santos, que faleceu recentemente. Era um homem muito bom, muito ativo no desenvolvimento da sua terra», descreve a coreógrafa.

«Começamos a andar e connosco seguem também 10 burros e meia-dúzia de cães. A dada altura encontramos o tal administrador fictício. Depois, chegam os seus colaboradores e começam a contar curiosidades», mitologia local e lendas urbanas daqui. Por exemplo, «dizem que há uma mulher louca que corre toda nua pelas montanhas aqui perto e grita muito porque sofreu um grande desgosto de amor, pois o homem com quem queria casar decidiu ser padre».

Ainda segundo a coreógrafa, o grande desafio deste projeto foi reunir o elenco e «formar um coletivo que possa, no futuro, também criar outras coisas. Estão a nascer muitas sinergias e sinto que daqui podem germinar uma série de outros projetos. A maioria nunca tinha trabalhado em conjunto. São de diferentes nacionalidades, idades e universos pessoais. Por isso, tem sido muito enriquecedor. Isto não é apenas um espetáculo de comunidade como eu muitas vezes faço, em que as pessoas que participam dão um pouco do seu tempo livre. É diferente. Senti que para conseguir fazer algo com alguma densidade precisávamos de tempo. Pensámos que seria importante haver honorários para todos. No fundo, sentem isto como um projeto a valer. Dedicaram-lhe muito tempo, pois estamos a trabalhar desde fevereiro». A próxima etapa? «Vamos aperfeiçoar o Rastilho e apresentá-lo em maio, em versão noturna, na zona da Amoreira», durante o Festival Internacional de Artes Performativas, do projeto «Lavrar o Mar – As Artes no Alto da Serra e na Costa Vicentina», que desde o início conta com o financiamento do programa «365 Algarve». O espetáculo termina quando «já não há empresa, já não há administrador», só resta a alegria da comunhão entre todos. E «se as pessoas se sentirem bem no nosso bar natura», ao pé do lago escondido, «poderemos ficar até ao pôr-do-sol».

Informações úteis

«Rastilho» acontece de 14 a 16 de abril na Bordeira, Aljezur. O ponto de encontro é o Largo da Igreja às 16h00 e dura cerca de 3 horas. É obrigatório o uso de calçado confortável e impermeável. A distância a percorrer ronda os 6 quilómetros (ida e volta). A idade mínima é 6 anos e a lotação máxima de 150 pessoas.Os bilhetes custam 8 euros (adultos) e 4 euros (crianças entre os 6 e os 12 anos). Podem ser adquiridos na plataforma on-line BOL, na Biblioteca Municipal de Monchique e na Casa Lavrar o Mar, em Aljezur. Esta iniciativa tem o apoio da Câmara Municipal de Aljezur, Junta de Freguesia da Bordeira e do programa «365 Algarve» e insere-se no projeto «Lavrar o Mar – As Artes no Alto da Serra e na Costa Vicentina». Para mais informações e reservas estão disponíveis os contactos 282 099 452, 913 943 034 e [email protected]

Categorias
Destaque


Relacionado com: