Rancho do Rogil à procura de acordeonista, mas nova direção traz ideias e esperança

Sociedade Recreativa até quer reativar o grupo, mas a dificuldade de encontrar um músico que toque acordeão levou à paragem do coletivo desde 2013.

Se não há quem dê uso ao acordeão, não há rancho folclórico. A história até se conta em poucas linhas e é com alguma emoção que Rosa Tomé, presidente da Direção da Sociedade Recreativa do Rogil, freguesia do concelho de Aljezur, traça a realidade. Há quatro anos que o grupo procura um acordeonista mas tem sido difícil encontrar quem tenha carolice suficiente para ajudar a manter vivo o projeto, o que levou à decisão de suspender, por tempo indeterminado, o rancho em 2013.

«Acredito que se tivéssemos acordeonista, o rancho voltava a ser constituído, porque há interesse por parte das pessoas. Começaríamos do zero. Há adultos que andaram cá, quando eram mais jovens, e que hoje já têm crianças. É o caso, por exemplo, dos meus filhos, que têm à volta dos 45 anos, e eu já tenho netos» que podiam ingressar na aventura. Aliás, foi assim que o Rancho Folclórico do Rogil deu os primeiros passos nos longínquos anos de 1981/1982.

«Isto nasceu numa brincadeira», afirma entre risos ao «barlavento». Foi uma roda de Carnaval, que correu bem e que motivou o coletivo a organizar–se. «Achámos tão interessante que pensámos em formar um rancho folclórico. Arranjámos o acordeonista. Como não tínhamos casa, ensaiávamos numa garagem. Depois arrendámos um barracão. Lá, organizávamos bailes, assávamos frangos, por exemplo, e convivíamos», recorda Rosa Tomé.

Na altura, não era só treinar os passos para as atuações. O espírito de partilha também dava alento e levava a que se criassem laços de amizade naquelas paragens. À medida que o tempo foi passando, angariaram verbas para construir uma sede. «Tivemos muitas ajudas, quer da Câmara Municipal de Aljezur, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, porque fizemos uma candidatura a fundos comunitários. Fomos construindo aos poucos. Comprava-se o material e todos vinham para aqui ao fim de semana ajudar. Toda a gente deu serventia», destaca. Seguiram-se mais de duas décadas de bailes e atuações. «O rancho continuou por 26 ou 27 anos, mas um dia o acordeonista morreu num acidente e ficámos sem ninguém. Mais tarde, arranjámos outra pessoa e foi aí que começou o descalabro», admite.

Na verdade, ser acordeonista de um rancho folclórico exige força de vontade e empenho, e o grupo ainda não encontrou o candidato com o perfil adequado. Por isso, deixaram de soar os tons que servem de ritmo às danças naquela sede do Rogil, erguida com voluntariado e o esforço da comunidade.

«Só precisávamos que a pessoa soubesse tocar este instrumento, porque até temos um acordeão», confirma com um sorriso que disfarça a pena de ver suspenso este projeto de tantas décadas.

Caso apareça um novo candidato, há apenas uma condição. «Teria que aprender as nossas músicas. Não temos a pauta, só a letra. Tem que ser uma pessoa que saiba aprendê-las de ouvido», explica. Ainda assim, a tarefa não seria complicada, pois Rosa Tomé tem fama de ser uma ótima maestrina, e em boa verdade, sabe os tons de cor e salteado. «Aos que por cá passaram, eu dizia-lhes que a nota tinha de ser mais abaixo ou mais acima. Sem saber tocar, já lhes dizia quais os tons que tinham que tocar. E era assim que se fazia», orgulha-se em afirmar.

Reativar o Rancho do Rogil não é uma questão de peneira, nem vaidade. Está inserido numa pequena comunidade que precisa de atividades culturais e recreativas quase como do pão para a boca. Antes, conseguia reunir 30 a 40 residentes, sendo que apenas dançavam dezena e meia a uma vintena. Os outros eram figurantes, mas participavam. O problema, esse, foi sempre a falta do acordeonista. Pessoas para bailar, dançar e rodopiar sempre houve e continua a haver. Sem salários, remunerações, pois é assim que, regra geral estes coletivos se mantêm. «O acordenista era o único elemento que ganhava dinheiro. Até março de cada ano, no máximo, tínhamos que ter os contratos das saídas, as chamadas permutas. Têm que estar feitas para recebermos os outros ranchos e também para irmos nós participar nas atividades dos outros grupos folclóricos. No início eram seis ou sete permutas, mas tivemos de nos limitar a quatro, que com a nossa fazia cinco, porque depois tornava-se demasiada gente para estar aqui. Não conseguíamos colocar todos na sede para servir o jantar», recorda.

«Não se dava grande seca às pessoas, porque aquilo chega ao fim e é só aquilo. E aqui era tudo mais à vontade. Depois o acordeonista desapareceu. Veio outro e assim andávamos», diz. Daí a decisão de deixar suspenso o projeto.

A Sociedade Recreativa não vivia, porém, apenas do Rancho, mas até nisso não houve muita sorte. «Também fazíamos bailes», mas houve quem começasse a organizar eventos particulares deste género «e nós, com a falta de verbas para fazer frente, fomos obrigados a deixar de promovê-los», reafirma.

Dona Rosa carregava o peso da Sociedade Recreativa às costas, ainda que com um sorriso. Por isso, a nova ajuda foi bem-vinda. «A nova direção surge, porque a cada dois anos isto tem de mudar. E chega a um ponto que as pessoas também saturam, assim como eu», ironiza, pois apesar de o afirmar, o olhar é de quem não consegue ignorar a falta que um projeto destes, fundado também por si, faz à comunidade. Apesar de parecer um meio pequeno, afinal de contas o Rogil parece ser pouco mais do que uma estrada ladeada pelas típicas casas algarvias, há mais de 800 pessoas a residir na freguesia (isto tendo em conta aqueles que estão recenseados na freguesia, pois haverá muitos mais, estrangeiros inclusivé).

«Apareceu aqui esta juventude com uma vontade enorme de trabalhar, de trazer ideias novas e há que aproveitar. Também preciso de descansar mais, pois estava tudo às minhas costas. E tinha vontade de fazer, mas sozinha não podia», confidencia.

Vontade de participar também há, mesmo que no início o negativismo condicione o arranque. «Há quem questione porque é que vamos fazer se depois ninguém aparece», diz a presidente. Não é de todo uma verdade, pois, por exemplo, «na ginástica juntam-se sempre 14 pessoas, pelo menos, e em Odeceixe são muito menos, são quatro ou cinco. Em Aljezur, nem conseguem fazer. Aliás, tudo o que temos feito aqui, tem sempre casa cheia. Fizemos uma noite de fado, a cantar sem música, nem nada, e tivemos 120 pessoas sentadas aqui dentro. Sem divulgação», enaltece.

Nova direção traz esperança

Nas paredes da sede da Sociedade Recreativa ecoam os objetivos para os novos tempos que se avizinham. Criar novas atividades e fortalecer ligações entre os diferentes elos que compõem a comunidade local. Vontade e energia há de sobra e deverá ser o suficiente para atrair novos rostos ao espaço. O espaço já soma alguns anos a guardar a memória dos sons do rancho, dos bailes e dos convívios. No entanto, foi uma atividade muito pouco sonora que lhe tem dado uma nova vida.

«Eu comecei a dar aulas de yoga e vinha aqui todos os dias, olhava para o espaço e achava que era uma pena (estar vazio), comecei aí a espalhar umas sementinhas. Arranjámos um grupo, com algumas pessoas que já cá estavam, que sabem algumas coisas que nós não sabemos sobre a associação, e juntamos este grupo novo, que está super inspirado. A intenção é essencialmente trazer cultura», conta Noélia Marreiros, proprietária do restaurante vegetariano do lado oposto, na rua principal do Rogil.

Até aqui, a Sociedade «tem sido a Dona Rosa e somente a Dona Rosa. Achamos que o espaço tem tanto potencial e que há tanta coisa que se pode fazer… por isso, aproveitámos a altura de eleições» para a direção, admite Noélia, filha desta terra.

O primeiro projeto deste novo rumo sai já este mês. Será uma biblioteca-café, «em que se possa contar histórias, partilhar, fazer workshops, tentar ao máximo envolver a comunidade local e a estrangeira ou portuguesa que tenha vindo de fora do Rogil. Misturar as pessoas de cá com as pessoas que vêm. Integrar aqueles que são novos cá e que, muitas vezes, também têm tendência a se juntar num grupo à parte», conta.

Não foi o que aconteceu a Maria Gallet, que encontrou na Sociedade Recreativa uma forma de se envolver e contribuir para a comunidade. Desde a adolescência que frequentava o Rogil nas férias. Foi viver para fora de Portugal, quando conheceu o marido, de naturalidade francesa, mas o bichinho de residir em Portugal era mais forte. Tal como a vontade do marido. Quando o levou ao Rogil, foi claro como a água de que aquele era o local certo para ambos. «Muito pela natureza, mas também pelas pessoas. Fomos tão bem recebidos, acolhidos e agora sentimos que esta é a nossa terra, o nosso cantinho, daí também termos muita vontade de nos envolvermos nestes projetos em que acreditamos», sublinha. É na sede da associação que tem um pequeno gabinete onde acolhe casais, pois o seu «trabalho é muito focado nas mulheres, nas grávidas, quer na fase da gravidez, quer no pós-parto, mas também na mulher em si», esclarece.

Maria Gallet, Rosa Tomé e Noélia Marreiros.

No entanto há mais na calha para o futuro. «Algo que ficava bem, aqui e em todo o lado, era misturar pessoas idosas com crianças e jovens, porque sabem imenso sobre plantas, tradições, histórias», considera Noélia Marreiros. Um dos projetos poderia ser pegar no grupo de teatro que já existe, a cargo da São, e replicá-lo de novas formas. «Achava giríssimo que ela pudesse aceitar o desafio de começar um teatro com crianças e quem diz a São, diz alguém. Outras pessoas são bem-vindas, porque estamos muito abertos a propostas», assegura.

Também acredita que o Rancho poderia ser reativado, mas seria, com certeza, em moldes diferentes. «Os tempos mudaram. Há pessoas, dessa altura, que já não estarão disponíveis, outras podem estar, mas se calhar querem apoiar doutra forma. Acho que todos estamos conscientes disso», começa por argumentar. «Queremos os bailes de roda, as tradições locais, mas com uma nova abordagem, até porque faz sentido que seja assim, se queremos atrair novas e mais pessoas», esclarece.

Voltando ao yoga, Noélia Marreiros explicou que o feedback tem sido muito positivo. «Até porque há grupos muito giros, compostos por locais e franceses que vieram de fora para morar no Rogil. Torna-se engraçado, porque falam entre si. Comecei a desafiá-los. Sempre que há qualquer evento convido-os e vão nascendo os tais laços», argumenta. E, depois, há gestos simples, que ajudam, como é o caso de mostrar que quem tem hortas pode vender os produtos a quem vem de fora. Ou seja, criar pontes na comunidade.

Até porque, falando de pontes, o Rogil faz a ligação entre Aljezur e o Odeceixe. É um local intermédio, sendo uma freguesia receptiva e aberta a estas novas vivências. Por ser «tão bom» Noélia retornou às origens, onde também, em jovem frequentou o Rancho, entretanto desativado.

«Quando crescemos em sítios mais pequenos, mais campestres, mais saloios, é natural também que queiramos sair e ver outros mundos. No entanto, mais tarde, podemos sempre regressar», afiança. Há 25 anos, quando partiu, o campo ainda era campo, sem grandes réstias de urbanismo. Não havia casas da estrada para trás, nem alcatrão. Era longe de tudo e todos, algo que tem vindo a mudar aos poucos, com os novos exodos do século XXI. Ainda fica longe, mas está mais próximo.

Apostou num restaurante vegetariano, reescrevendo a história do negócio dos pais, no local onde escolheu criar as filhas. «Não foi uma opção muito consciente, na verdade, porque pensava ir para outro país, mas na passagem percebi que isto ainda era melhor do que o que eu tinha imaginado», admite. E ficou para envolver todos numa verdadeira comunidade.

Pasta e Basta: colocar as mãos na massa com o «Lavrar o Mar»

No meio de uma história de um Rancho sem acordeonista e de uma nova direção que quer dinamizar a Sociedade Recreativa, como se cruza o projeto «Lavrar o Mar», no âmbito do programa «365 Algarve»? Como estas histórias são feitas de outras histórias, Noélia Marreiros, uma das caras novas da Sociedade Recreativa, revela que procurou Giacomo Scalisi, um dos mentores do projeto «Lavrar o Mar», em conjunto com Madalena Victorino, para desafiá-los a conhecer a sede. Quem sabe se não poderiam aproveitar o edifício? «O Lavrar o Mar é algo muito bonito porque não se resume a organizar eventos. Faz uma ligação com as pessoas locais, convidando-as a serem parte dos espetáculos», sendo esse o objetivo que a nova direção da Sociedade Recreativa do Rogil procura.


«O Lavrar o Mar foi um sucesso na primeira edição, porque não se trata apenas de propor alguns eventos ou espetáculos, mas criar uma política cultural no território, tentando encontrar o potencial que lá existe e, a partir daí, construir uma rede entre a arte, a natureza e as pessoas», considera o diretor artístico e programador cultural Giacomo Scalisi.
«E esta coletividade está no meio da aldeia, faz parte da história do Rogil e da identidade da freguesia. Para nós é importante criar sempre estas ligações e imaginar como lhes dar vida. Já aqui existe um projeto e o facto de aqui poder fazer o Pasta e Basta faz sentido, por diferentes razões», justifica.

Criado para o lisboeta «Festival Todos», em 2015, será este espetáculo a assumir o protagonismo na sede da Sociedade. «Tem a ver com a interculturalidade, é falar dela, sem falar dela. Ou seja, mostrar, neste caso, tomando como metáfora a cozinha e a culinária», sublinha. O espetáculo toma forma com a união dos ingredientes, «que veem de diferentes culturas, e a criação de pratos que, no fundo, são o somatório destas culturas», compara. A refeição, no Pasta e Basta, é composta por sabores que surpreendem.

Há três pontos fundamentais neste espetáculo, segundo o autor. O primeiro é colocar as pessoas (um grupo entre 60 a 70 por sessão), que não se conhecem, à volta de uma grande mesa, a partilhar o momento.
«Vamos separá-las. Ou seja, quando as pessoas chegam com um amigo, ou em casal, por exemplo, marido ou mulher, são separadas e colocadas estrategicamente ao lado de quem não conhecem. A ideia é que se conheçam enquanto fazem massa fresca», que é a essência do espetáculo. «Quem não sabe fazer, aprenderá. E quem não fizer bem, terá que comê-la na mesma», brinca.

Por outro lado, este evento também pretende sensibilizar para um regresso ao básico. «É o facto de fazer a própria comida partindo dos elementos primários, como a farinha, os ovos, a água e voltar a pensar no que consumimos, coisa que alguns fazem e outros não. É uma ideia de consciência acerca do que é importante fazer para alimentar o corpo, até porque este não se alimenta só de comida, mas também de muitas outras coisas, como afetos, emoções, sentimentos e partilhas», explica Giacomo Scalisi. «É qualquer coisa de muito interessante. E é uma experiência muito forte», até porque cozinhar pode ser encarado como uma expressão de amor, acrescenta.

E há uma história, escrita por Afonso Cruz, conhecido escritor de renome, que fala sobre a questão das diferentes culturas e da responsabilidade que cada pessoa tem para com os outros. É contada ao longo do espetáculo, que dura 3h30, durante a preparação da comida.

O final da história promete fazer quem participa nele refletir, tanto que será dado o texto para que as pessoas o levem para casa e possam relê–lo, com calma.

A verdade é que entre o cozinhar da massa, tudo poderá acontecer, desde novas amizades a novos amores e é isso que o projeto tem também de positivo. «Ainda ontem encontrei duas pessoas que se conheceram no Pasta e Basta em Odemira e, a partir daí ficaram amigos», enaltece Giacomo Scalisi.

Há ainda uma versão diferente para famílias, com massa colorida e uma outra história, pois o criador faz questão que seja um evento para pais e filhos. «É uma experiência que vivem juntos e que podem repetir em casa quantas vezes quiserem, porque é importante que as famílias partilhem alguma coisa que é feita com as mãos», acredita. Esta será uma versão algarvia do Pasta e Basta original, integrada no Festival da Batata-doce, em Aljezur, onde entrará este tubérculo e os enchidos de Monchique, criando elos à gastronomia do território, algo que está no ADN do «Lavrar o Mar».

E tal como tem acontecido noutros locais, Pasta e Basta conta com a participação de um grupo de residentes no concelho onde o espetáculo é apresentado, bem como duas pessoas de culturas diferentes (uma indiana e uma africana), que fazem sempre parte do espetáculo, e dão um toque exótico, diferente, à receita da pasta italiana. Faz sentido? «Vivemos numa sociedade de culturas diferentes. A ligação e a compatibilização entre si, quando as pessoas veem de outros países, é um grande problema na sociedade. Por isso, esta é uma grande oportunidade para abraçar outras influências que os vários participantes podem trazer» para o espetáculo, reforça. «Dar a conhecê-las é também importante para que percebam a sua própria essência», conclui.

O espetáculo Pasta e Basta | Um Mambo Italiano, versão algarvia, promovido no âmbito do projeto Lavrar o Mar, será apresentado entre 16 e 18 de novembro, às 19h30, e a 19 de novembro, às 11h30 (versão famílias) na sede da Sociedade Recreativa Folclórico Amador do Rogil. Em Monchique será entre 30 de novembro e 2 de dezembro, às 19h30, e no dia 3, às 11h30 (versão famílias), no Parque da Mina. Tem 3h30 de duração, custa dez euros para adultos e cinco para crianças (apenas na versão famílias). O autor Giacomo Scalisi faz parte do espetáculo, em conjunto com outro ator (André Amálio), sendo uma produção da cooperativa cultural Cosanostra. O «Lavrar o Mar» é um projeto integrado no «365 Algarve», apoiado pela Câmara Municipal de Aljezur e Monchique. Os bilhetes podem ser adquiridos on-line aqui.

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