Quinta dos Vales lança «a experiência de ser vitivinicultor»

Consolidada a qualidade dos vinhos produzidos ao longo dos últimos 10 anos, a Quinta dos Vales prepara um novo projeto: seja o seu próprio vitivinicultor. Há várias possibilidades à escolha, que incluem lotear uma barrica de 225 litros durante um ano, arrendar uma vinha existente ou mesmo plantar uma nova dentro da propriedade.
Nova geração. Michael Stock, 27 anos, dará um novo rumo à adega fundada pelo pai Karl Heinz Stock em 2007.

A experiência de ser vitivinicultor pode começar de forma simples. Quem o diz é Michael Stock, 27 anos, gestor do novo projeto da Quinta dos Vales, propriedade de 44 hectares situada em Estômbar, concelho de Lagoa, e que desde 2006 anos produz vinhos que têm sido reconhecidos pela qualidade.

«Começamos com a opção base que é um workshop de bottle-blending (loteamento em garrafa), no qual, durante três horas, um grupo entre quatro a doze pessoas, vem conhecer a nossa equipa de enólogos, e perceber como funciona o loteamento dos nossos vinhos tintos premium. É importante perceber as variáveis como os níveis de acidez e de álcool, a opções a tomar para fazer um vinho com taninos leves ou fortes, entre outras questões. Damos uma explicação verbal de como nós, profissionais, fazemos este processo. Depois, o cliente fará tudo por si próprio, com base nas informações técnicas e explicações. Por exemplo, é possível aprender como um vinho intenso da casta Touriga Nacional pode ser loteado com uma casta como a Touriga Franca, para criar um algo ainda mais forte. Ou então, algo mais suave, para tentar fazer um vinho mais leve e encontrar um equilíbrio», explica ao «barlavento».

Neste workshop, «o mínimo é fazer uma garrafa, mas consegue-se aumentar para três, e essa é a nossa sugestão. Uma é para ser bebida no momento, porque os participantes estarão entusiasmados e vão querer mostrar o vinho que fizeram aos amigos. Sugerimos beber uma outra em seis meses e a terceira entre 12 a 18 meses, para ver a evolução. Há que ter autocontrolo e saber esperar», brinca.
O workshop inclui o engarrafamento manual, o preenchimento detalhado do rótulo com todos os passos efetuados e selagem da rolha com lacre. Primeiras impressões? «Fizemos o primeiro há dois meses, e este produto já está no mercado. Tem havido interesse, sobretudo por parte dos operadores turísticos. Acham a ideia muito interessante», revela Michael Stock.

Por outro lado, «os clientes com quem falámos também gostaram. Esta semana estive em contacto com um cliente dos EUA, que quer fazer isto no formato de competição. A ideia é criar duas equipas, e no final, fazer uma prova cega para decidir o vencedor. Em alternativa, a nossa enóloga residente poderá atuar como júri e escolher o melhor loteamento».

Uma barrica particular
Começar a própria produção de vinho particular pode ser difícil e dispendioso, mas para quem quiser atingir esse objetivo, em condições controladas e preparadas, poderá ser um desafio interessante. Pelo menos, é esta a perspetiva de Michael Stock e da sua equipa. Esta opção «é aquilo a que chamamos a experiência de loteamento em barrica. Será uma jornada que durará um ano inteiro, com bastante mais envolvimento do cliente. É todo um processo que inclui muitas decisões», explica Michael Stock. O objetivo desta experiência é alugar uma barrica de 225 litros para fazer um vinho ao gosto de cada interessado, o que dará perto de 300 garrafas (no final, irá custar cerca de 15 euros por garrafa).

«A principal decisão tem a ver com o tratamento do vinho, se usamos aduelas, se vai para barrica de madeira francesa, nova, ou usada. O cliente terá que fazer escolhas que, por norma, cabem ao enólogo». Michael Stock diz que isto pode ser feito à distância, no caso de alguém que resida no estrangeiro.

«Pode, mas isto implica, pelo menos, quatro visitas à Quinta, ao longo do ano. A cada três meses, o cliente tem de provar o seu vinho. Uma coisa é a teoria, mas é preciso ver se o que estava planeado resulta. E verá o que acontece, a nível biológico, científico, com o sabor, até à prova do vinho». No final do processo, «o cliente pode decidir o que vai acontecer. Uma barrica significa perto de 300 garrafas. Isso é uma quantidade razoável para alguém ter na sua cave de vinhos, por exemplo. Quando o cliente estiver satisfeito com a sua produção particular, engarrafamos, fazemos o rótulo personalizado, e depois entregamos onde quiser. A ideia é a pessoa identificar-se com o vinho que fez, pois saberá quais foram os passos dados durante a produção».

Questionado sobre qual o público-alvo para este conceito, Michael Stock afirma: «o perfil de cliente não tem a ver com a nacionalidade, nem com idade, nem com nada disso. Tem a ver simplesmente a ver com amar o vinho. Queremos agarrar pessoas interessadas em vinho e transformá-los em produtores. Nos últimos anos temos visto que há cada vez mais interesse em entender como funciona o processo. É por isso que começamos com uma oferta mais simples, um workshop, que permite começar a realizar o sonho de ser vitivinicultor».

Talhões de vinha para arrendar
A gerência da Quinta dos Vales acredita que haverá também quem queira ver as uvas crescer, e por isso vai disponibilizar o aluguer de vinhas tratadas. «É um outro passo ainda maior, do que a experiência de loteamento de barrica, e começará cedo, no campo. A pessoa terá que decidir, por exemplo, como tratar a vinha, que percentagem mondar, de forma a reduzir a quantidade e aumentar a qualidade. Terá que escolher a data da vindima, se a uva apanha mais sol, se deve ter mais açúcar para um vinho mais pesado em termos de álcool. Será o cliente a tomar cada decisão por si próprio, mas sempre com a nossa equipa de enologia a acompanhar, e a prestar consultadoria. Explicaremos tudo o que precisa saber para tomar decisões», garante Michael Stock.

Nesta opção, será possível arrendar uma vinha entre 2 mil e 8 mil metros quadrados. «É o aconselhado para se obter algo substancial». No campo, «não há nenhuma limitação. O único critério é que a vinha a alugar não pode entrar em conflito com a produção comercial e com as zonas que são fundamentais para nós», diz.

Mas na adega, «trabalhar em quantidades pequenas será um desafio, isso significa que não podemos usar os mesmos depósitos de 10 mil litros que usamos na nossa produção. Como cada cliente toma as suas decisões, não podemos misturar com o nosso vinho, nem com o de outros clientes».

Avançar com este projeto «implica mais e novos equipamentos». O jovem gestor não avança com números, mas será um investimento substancial.
Questionado sobre qual a altura ideal um eventual interessado avançar, «em princípio, poderá ser em qualquer altura do ano, embora isso na prática signifique que o período de envolvimento será diferente. Em dezembro, os vinhos da respetiva vindima têm a fermentação malolática terminada. Nessa altura, as decisões têm de ser tomadas: o que vai acontecer com este líquido? Então, entre novembro e janeiro será um bom ponto de início, caso o cliente queira fazer o ciclo de produção completo».

Expansão do turismo rural
Além dos projetos «seja o seu próprio vitivinicultor», a Quinta dos Vales está a avançar com a expansão do alojamento na parte norte propriedade. O plano prevê a construção de apartamentos, sendo 12 da tipologia T1 e 20 da tipologia T0, com área de lazer comum, piscina, bar e restauração. Segundo Michael Stock, esta configuração vai complementar a oferta atual, de casas e apartamentos T2, e será atrativa, por exemplo, para casais e singles em férias. «Os microapartamentos são hoje uma tendência popular. Não vamos desperdiçar qualquer espaço e esta tipologia permite-nos maximizar a ocupação do terreno», explica. «Durante o processo, pensámos que os T1 ficariam praticamente integrados dentro da quinta. Imagine estar na varanda, a três metros da vinha. Será uma vista fantástica», garante.

O projeto, com assinatura do arquiteto Gonçalo Praia, já deu entrada na Câmara Municipal de Lagoa. «Iremos começar a construção no final deste ano, para estar pronta no verão de 2018. Será vendido à unidade a pessoas que procurem uma casa de férias, e/ou também como investimento, para alugar». Embora ainda seja cedo para avançar com valores, «terão um preço muito competitivo, com um retorno entre 3 e 5 por cento ao ano».

«Não queremos criar um resort típico rodeado de relva. Queremos manter a maior parte da paisagem tal como está. Faz parte do enoturismo. Este projeto não é para pessoas que querem um hotel, é para quem quer viver na vinha, e quem sabe, criar a sua própria de raiz. Isso demora dois a três anos até começar a haver uva. E entre sete anos a dez anos, até ter vinho na garrafa», esclarece Michael Stock.
«Este é um caminho que vale a pena percorrer. É um crescimento em dois setores que vão evoluir em separado e em conjunto. Alojamento rural e imobiliário, e a experiência de ser vitivinicultor. Não há muita oferta neste tipo de nicho no mundo. E poucas empresas deste ramo oferecem tanto envolvimento do cliente nas decisões, como pretendemos fazer. Isso é mesmo um fator importante para nós. Vamos começar lentamente e cada passo será mais ambicioso», conclui Michael Stock.

«Mundus Vini Summer Tasting 2017» dá Ouro e Prata à Quinta dos Vales

A 21ª edição do concurso «Grand International Wine Award MUNDUS VINI» teve lugar entre 31 de agosto e 3 de setembro, na Alemanha, onde foram avaliados cerca de 4300 vinhos de 42 regiões vinícolas de todo o mundo, em provas cegas por um júri de 164 especialistas. A adega algarvia viu os seus esforços recompensados, recebendo duas medalhas de Prata para o branco «Dialog Secretum 2016» e o tinto «Marquês dos Vales Grande Escolha 2014» e quatro medalhas de Ouro para os tintos «Marquês dos Vales Grace Vineyard 2011», «Dialog 2012», «Marquês dos Vales DUO 2014» e o novíssimo «Marquês dos Vales Syrah & Viognier 2015».
A «Mundus Vini» foi fundada pela Meininger Verlag há quinze anos e é uma das competições de vinhos mais importantes do mundo. Marta Rosa, a enóloga residente da Quinta dos Vales, dá uma explicação simples para o palmarés de prémios conquistados. «Sem boas uvas, nada se faz. Tentamos fazer tudo da forma mais natural possível, para que no final prevaleça a qualidade. Ou seja, é tirar o máximo partido da uva em muito bom estado sanitário e trabalhar todo o processo dentro da adega para que seja preciso o mínimo possível de aditivos. É mais difícil fazer um bom branco, porque o tinto, se conseguirmos fazer os sucessivos processos que duram 12 meses com estágio, conseguimos extrair de forma natural todo o potencial que a uva tem», explica. Os vinhos do Algarve são conhecidos pelo elevado teor alcoólico, «mas se controlarmos muito bem a maturação, com o controlo rigoroso da equipa técnica que vai ao campo todos os dias colher amostras para análise, tudo isso poderá ser ultrapassado», conclui.

Vindima 2017 com «uva de qualidade»

Ouvida pelo «barlavento», Marta Rosa, a enóloga residente da Quinta dos Vales faz um balanço positivo da vindima deste ano. «Está a correr muito bem. Estamos a vindimar a casta Petit Verdot, falta vindimar o Cabernet Sauvignon e um talhão de Touriga Nacional. Neste momento, estamos nos 160 mil quilogramas, e nos 110 mil litros de mosto», contabiliza. No terreno, «temos um pouco menos de produção nos brancos, mas nos tintos estamos a ter duas vezes mais do que o esperado e tivemos mais cachos por planta. Nos brancos a produção foi ligeiramente menor no Alvarinho e também no Antão Vaz», revela. Em relação aos próximos vinhos, a enóloga diz que agora «os processos têm de ser feitos nos brancos e rosés, estamos na fase de fermentação. Segue-se a estabilização e engarrafamento no fim de fevereiro, início de março próximo. Nos tintos, neste momento, alguns estão em fermentação, outros já foram desencubados e estão em processo da segunda fermentação, que é a malolática. Depois há dois processos, seguem para inox, e as melhores castas seguem para barrica, para fazerem estágio durante o tempo que for necessário».

Quinta dos Vales recruta novo enológo

Para gerir a produção comercial e os diferentes vinhos particulares, «vamos contratar um novo enólogo. Marta Rosa está a gerir a nossa produção atual. Nos anos iniciais teve muita assistência dos nossos consultores Paulo Laureano e Dorinda Lindemann, e agora é altura ideal para passar toda esta formação. Este novo membro da equipa terá a oportunidade de participar num projeto inovador, desde o primeiro dia. Será um trabalho fascinante para um enólogo, fazer vários e diferentes tipos de vinho no mesmo sítio», revela Michael Stock.

Ano desafiante para os produtores

Segundo Marta Rosa, a enóloga residente da Quinta dos Vales, este ano tem uma especificidade. «Sei que no Alentejo houve um decréscimo de produção e há um fator que está a acontecer. O álcool está muito elevado nos tintos, mas a maturação fenólica não está concluída. Acontece que a uva quando chega à adega precisa de muito mais cuidado e muito mais tratamento, do que em anos anteriores. Portanto, será um desafio para os enólogos, trabalhar a uva que chega com um álcool muito elevado e uma maturação fenólica não totalmente efetuada. E por outro lado, com acidez e PH elevados, ao mesmo tempo, o que não é muito habitual», considera.

Algarve aumenta produção de vinho para 2018

Apesar do ano atípico que obrigou a antecipar as vindimas, o rendimento da colheita foi médio-alto e prevê-se um aumento na produção de cerca de 20 por cento para os vinhos do Algarve. Apesar da baixa pluviosidade que caraterizou o inverno e primavera, o rendimento da uva andará pelos 65 a 75 por cento, apresentando um bom estado sanitário, e esperando-se uma boa colheita para 2017. As altas temperaturas verificadas em julho aceleraram a maturação das uvas, tornando necessário a sua colheita antecipada, segundo a CVA – Comissão Vitivinícola do Algarve. A falta de mão-de-obra para a apanha das uvas é uma realidade que se tem verificado noutras regiões vinícolas e à qual o Algarve não está imune, sendo mais agravada pela forte concorrência do setor turístico. Muitos produtores contratam trabalhadores em regime temporário de fora da região para colmatar a lacuna.

Quanto custa «a experiência de ser vitivinicultor»?
Loteamento em garrafa 60 a 90 euros por pessoa, inclui uma garrafa de loteamento próprio. Cada garrafa adicional custa 19 euros.
Loteamento em barrica desde 15 euros por garrafa para cerca de 300 garrafas.
Arrendamento da vinha 7 a 12 euros por garrafa, numa área ideal de 4000 metros quadrados.
Ser proprietário da vinha 6 a 9 euros por garrafa, numa vinha ideal de 4000 metros quadrados.

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