A situação chamou a atenção de alguns transeuntes condoídos com a situação aflitiva do animal. À dor acrescia-lhe o medo. Quando alguém se tentava aproximar para o ajudar, levantava-se e tentava correr antes de voltar a cair. Ao local acudiram os agentes da PSP Adelino Cunha e Aleixo Gouveia, Diamantino Duarte da «Loja da Cátia», e Maria Manuela Liza, voluntária da «Cadela Carlota & Companhia», associação de proteção animal com sede e jurisdição sobre o concelho de Lagos.
Todos se desdobravam em esforços de socorro, há mais de três horas. Preto e branco, raça indefinida, porte médio, este cão não tinha coleira desconhecendo-se se teria ou não dono. Teria sido abandonado ou perdido? Teria um chip que permitisse a sua identificação? Era urgente chamar um veterinário, ou levar o animal a uma clínica para ser assistido. Contudo, o que parece ser uma tarefa simples comporta custos e riscos. Um cão, quando abordado por estranhos, pode reagir e morder. Há o perigo de contágio de raiva, caso o animal não tenha as vacinas em dia.
A patrulha da PSP tentou contactar Osvaldo Mateus, veterinário municipal de Portimão, que nunca atendeu o telemóvel de serviço que lhe está atribuído. Contactadas várias clínicas veterinárias privadas, nenhuma se dispôs a se deslocar ao local. A única ajuda disponibilizada foi receberem o cão ferido, a troco dos devidos honorários.
Tentou-se outra via: os Bombeiros Voluntários de Portimão declinaram qualquer possibilidade de colaboração. O caso está fora da sua competência, justificaram.
Contactada a GNR de Portimão, onde existe uma equipa do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA), rejeitou o caso. Só podem atuar quando se trata de espécies em vias de extinção.
Em boa verdade, bastaria ajudarem com o leitor de chips que possuem para ajudar a resolver o caso. Foi dada a informação que num sábado ao anoitecer, nenhum militar do SEPNA estava de prevenção.
Decidiu-se contactar a Associação de Defesa dos Animais de Portimão (ADAP), na pessoa de João Ferreira. Também declinaram a ajudar, alegando não terem recursos financeiros. Além disso, esta instituição sublinhou que já tem demasiados animais a seu cargo.
Maria Manuela Liza, da «Cadela Carlota & Companhia», associação de proteção animal informou a ADAP que tinha encontrado uma pessoa disposta a cuidar do animal. Só pedia que fosse tratado e transportado, só precisando para isso da colaboração da ADAP.
A tensão entre os voluntários das associações que supostamente partilham a causa era evidente. Questiúnculas passadas. Terão os animais carecidos de imediato socorro que pagar pelas rivalidades?
Perante a inflexibilidade da ADAP, a voluntária solicitou auxílio a Luís Sykes, da associação Carlota, que, vindo de Lagos, compareceria no local, com a ajuda dos agentes PSP pegou no animal, colocou-lhe açaime, com o seu leitor de chips verificou que o cão não tinha nenhum implantado, assumiu a sua pessoal disponibilidade para o transportar, tratar e posteriormente acolher, providenciando ainda pela sua adoção. O animal viria a ser operado pela veterinária Heike Rauterbergm, da Clinica Veterinária do Ferrel, em Espiche, e encontra-se neste momento bem.
Maus tratos a animais já são crime
Em vários países da Europa, cães e gatos já não são meras «coisas». Embora a lei não possa obviamente reconhecer os animais como pessoas, é-lhes dado um novo e terceiro género, com estatuto e direitos próprios, que é o de seres sencientes. Isto é, animais que, tal como os humanos, são capazes de perceber e de sentir prazer, angústia e dor manifestando emoções de felicidade ou sofrimento. Em Portugal, o Código Penal passou a criminalizar, desde outubro de 2014, o abandono e maus tratos a animais de companhia, como cães e gatos, estando previstas penas de prisão. No entanto, cabe à sociedade civil exigir soluções de intervenção com animais de companhia acidentados. Há quem defenda ser premente a criação de um sistema de socorro médico-veterinário no caso de acidentes graves com animais sencientes perdidos ou sem dono, designadamente quando os canis/gatis oficiais se encontram encerrados ou nos horários de folga dos veterinários municipais.