«Que se continue a imprimir no Algarve o primeiro livro impresso em Portugal»

Das oficinas de Samuel Gacon, em Faro, a 30 de junho de 1487, saiu o primeiro livro impresso em Portugal. 530 anos depois, o Pentateuco volta a ser publicado por uma editora algarvia. A data é celebrada com o envolvimento da Fundação Portuguesa das Comunicações.

A Biblioteca do Seminário Diocesano de Faro, espaço pouco acessível ao público no dia a dia, vai acolher esta sexta-feira, 30 de julho, às 11h30, o lançamento do Pentateuco. É uma reprodução fac-similada do exemplar depositado na British Library, em Londres, para onde terá sido levado na sequência da incursão do II Conde de Essex à capital algarvia, então sob domínio espanhol, em julho de 1596.
A iniciativa não deixa de ter um caráter inédito. «Em 1987, celebraram-se os 500 anos do primeiro livro impresso em Portugal, a nível nacional, em Lisboa. Mais tarde, em 1991, foi impresso um Pentateuco já com alguns anos de atraso em relação à efeméride, graças à intervenção do governador civil da altura, Cabrita Neto», explica Paulo Neves, co-organizador deste evento pelo Círculo Teixeira Gomes.

A tiragem foi reduzida e hoje restam apenas alguns exemplares nas bibliotecas municipais da região. «Não houve mais nada», lamenta. Assim, em fevereiro, no seguimento de uma ideia original da associação Ibn Qasi, «no âmbito dos seus estudos sobre a região algarvia», Paulo Neves decidiu juntar as várias vontades para concretizar o projeto. O primeiro passo foi a reedição também do estudo introdutório, revisto e atualizado, de Manuel Cadafaz de Matos, da Academia Portuguesa da História. Foi adquirido pelo Círculo Cultural Teixeira Gomes, com o objetivo de prefaciar uma eventual reimpressão dos primeiros cinco capítulos do Antigo Testamento.

Depois «decidimos desafiar uma editora regional, em vez de nos voltarmos para fora, como é habitual, até em homenagem ao facto de o Pentateuco ter sido o primeiro livro impresso no Algarve. Pois que continue a ser impresso no Algarve!», sublinha.

A Sul, Sol e Sal, com sede em Olhão, aceitou o desafio. «Foi, digamos, a chave para que isto pudesse ver a luz do dia. Não só pelo seu saber fazer, mas porque decidiu fazê-lo com muita qualidade. Foi um trabalho quase manual, de caracter a caracter hebraico, sem perder a ordem das páginas» tal como saíram do prelo em 1487. «A editora assumiu a responsabilidade integral pelo conteúdo, para que valesse a pena imprimir. E valeu», elogia.

«Há aqui todo um enquadramento. Quando os ingleses atacaram Faro, nós estávamos sob o jugo espanhol. Se um dia, o livro regressar, por exemplo, para uma exposição, poderia servir para se comemorar a mais antiga aliança do mundo» entre Portugal e Inglaterra. Por isso, «em jeito de convite aos ingleses, a editora quis incluir uma tradução do prefácio», que ficou a cargo de Ana Isabel Soares, do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC) da Universidade do Algarve. Por outro, a expedição que o historiador de Lagos José António Martins quer fazer a Oxford, para conhecer melhor o espólio bibliográfico levado pelo II Conde de Essex, no assalto a Faro, «é pertinente por uma razão simples. O bispo Mascarenhas tinha uma biblioteca com um valor e interesse tal, que hoje faz parte do núcleo inicial da British Library», justifica.

Ouvido pelo «barlavento», Manuel Brito, editor da Sul, Sol e Sal sublinha que, «para nós, o mais importante é demonstrar que o Algarve, em finais do século XV, era já uma referência. Este livro é um marco simbólico do início da imprensa em Portugal, com tudo o que isso constitui de avanço tecnológico, científico, e até para a história das ideias».

Considerando que esta é uma herança da comunidade judaica de Faro, outrora numerosa e influente, estão convidados para este lançamento representantes da comunidade israelita em Portugal, tal como a família de Ralph Pinto (o falecido presidente da comunidade judaica do Algarve) e a embaixadora de Israel, que já confirmou a presença em Faro.

Prelo de Gutenberg a caminho de Faro?

Apesar de não querer levantar muito o véu, os organizadores desta iniciativa, confirmam a presença de Luís Manuel de Andrade, presidente da Fundação Portuguesa das Comunicações, na cerimónia comemorativa dos 530 anos da impressão do Pentateuco, em Faro, que deverá anunciar um projeto ambicioso. «Vamos tentar fazer uma visita virtual no próprio dia ao Museu (em Lisboa) e à parte mais antiga que tem a ver com o prelo do Gutenberg, onde foi feito o primeiro livro impresso em Portugal. Vamos tentar garantir a perenidade deste processo, para que as crianças no futuro, as gentes de Faro e os turistas saibam o que aconteceu».

Faro a ferro e fogo

O saque à cidade de Faro, em 1596, foi um dos acontecimentos mais significativos durante os 22 anos que D. Fernando Martins Mascarenhas foi bispo do Algarve (1596/1611). Reza a história que a frota inglesa tinha sido avistada ao largo do Cabo de São Vicente, em finais do mês de junho. Depois do ataque a Cádis, terminado a 16 de julho, julgava-se que o Algarve seria o alvo seguinte do conde de Essex. Aliás, o bispo saiu de Faro, à frente de um destacamento militar, a fim de reforçar a defesa de Lagos – onde se esperava que os ingleses atacassem – deixando Faro desprotegida. Assim, a 23 de julho de 1596, perante a falta de resistência com que se depararam, os ingleses decidiram atacar a cidade na manhã do dia seguinte. Chegaram a entrar em São Brás de Alportel. Entre 25 e 27 de julho «os ingleses tiveram tempo para tudo. Saquearam o que entenderam e, no fim, deitaram fogo» a Faro. «Até os sinos e o relógio da torre sineira da Sé foram roubados». O bispo ficou sem a sua biblioteca, ou segundo se dizia na época, uma «livraria».

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