Projeto «CurArte» combate isolamento e solidão através do teatro em Loulé

O projeto piloto «CurArte» que tem por objetivo combater o isolamento na terceira idade através do teatro e expressão dramática, em Loulé, chega este mês ao fim. As mentoras contam ao «barlavento» como esta experiência mudou a vida de dezenas de pessoas, inclusive, as suas.

Todas as semanas Catarina Bernardino, 32 anos, formada em Educação Social, abria o roupeiro e decidia qual a personagem a encarnar durante as visitas domiciliárias a alguns dos cerca de 30 utentes do Centro Comunitário António Aleixo, em Loulé. A tia de Cascais, a algarvia ou a nortenha, a noiva perdida, a Eduarda Mãos de Tesoura, a gata preta, ou o Zé Povinho, entre muitas outras, ganhavam vida e arrancaram sorrisos e gargalhadas a idosos isolados, alguns doentes e acamados, por todo o concelho louletano.

«Tenho um verdadeiro cardápio. É preciso muita imaginação, criatividade e pesquisa mas o mais importante é que sejam personagens engraçadas, que façam o meu público rir», explica. Até porque o «público» de Catarina são sobretudo «pessoas idosas a quem a Fundação António Aleixo já providencia de serviços de higiene, limpeza e alimentação, entre outros, e onde eu sirvo de apoio extra para dar-lhes ânimo e alimentar-lhe a alma», explica.

A ideia surgiu enquanto desenvolvida «um trabalho muito interessante enquanto atriz e animadora na unidade de cuidados continuados numa unidade hospitalar em Portimão. Comecei a fazer personagens e a visitar pessoas de quarto em quarto e na sala de convívios. E assim comprovei que as artes são uma forma eficaz de causar muitas emoções, aumentar a auto-estima e a motivação nas pessoas», recorda.
Depois dessa experiência, passou o projeto para o papel. Após algumas tentativas de parceria falhadas, conheceu Sérgio Sousa, responsável pela Casa da Cultura de Loulé, que demonstrou interesse imediato e apoiou desde o primeiro momento o projeto «CurArte». Passaram então poucos meses entre a apresentação do projeto no âmbito da iniciativa «Loulé Cidade Educadora», o qual recebeu aprovação e financiamento por parte do município louletano para a sua concretização.

A Catarina Bernadino juntaram-se então Marta La Piedad, 35 anos, e Andreia Brito, 31 anos, e além do Centro Comunitário António Aleixo, envolveu ainda o Centro Social e Comunitário de Vale de Silves em Boliqueime, e Associação Existir, em Loulé.

Enquanto Catarina Bernardino se dedica a desenvolver visitas domiciliárias encarnando personagens por forma a promover o bem-estar e animação dos idosos em situação de isolamento social, as visitas às outras associações ganham um outro carácter. «Todas visitamos uma vez por semana os utentes da Associação Existir, cerca de 30 pessoas, com deficiências físicas e motoras, e onde partilhamos aulas de expressão dramática e atividades ocupacionais», explicam. Já no Centro Social e Comunitário de Vale de Silves, é Marta quem dá apoio a cerca de 12 utentes, onde durante os últimos seis meses dinamizou aulas de expressão dramática. «Cada instituição tem a sua realidade, e nós adaptamo-nos consoante as pessoas», explica Marta.

Mas há algo comum a todos os utentes: «muitas vezes têm mais necessidade de falar do que de nos ouvir». «Eu represento e faço a minha personagem e ao mesmo tempo proporciono-lhes uma atenção exclusiva no espaço deles. Sentem-se confortáveis para falarem deles e de todos os aspecto da vida. É uma partilha muito interessante», sublinha Catarina.

«O que mais nos marcou foi sem dúvida a partilha de histórias e vivências. «Há muitas coisas que partilharam comigo que sei que não partilharam com mais ninguém durante muitos anos. Este projeto funcionou como uma terapia de grupo, para eles e para nós», explica Marta. São pessoas «geniais» refere Andreia.

«Uma vez fizemos um exercício de teatro que consistia em entrevistas espontâneas, à base do improviso, para um trabalho enquanto ajudante de Pai Natal. Achei as respostas impressionantes porque eram de génio! Coisas que a mim não me ocorreria. São super espontâneos e sem filtros», refere Andreia. «Quando entro ali, fico logo bem disposta. É maravilhoso e muito gratificante», recorda.

O «melhor de tudo», é saberem que «as suas visitas têm sempre uma boa influência na vida destas pessoas. Sentimos que conseguimos melhorar um pouco a vida delas, e elas a nossa», confidenciam.

De acordo com Sérgio Silva este projeto «enquadra-se perfeitamente na filosofia da Casa da Cultura de Loulé» e «deverá ter continuidade no futuro». Para além de tentarem manter o projeto em funcionamento no concelho louletano, a ideia é também tentar «replicá-lo noutros concelhos do Algarve», caso outros municípios demonstrem interesse.

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