Portugal «não pode ignorar» a geotermia superficial

Lacunas na legislação, falta de informação ao público, oferta escassa e pouco qualificada para executar projetos, remetem a geotermia superficial para último plano no universo das energias renováveis em Portugal. Instalação de projeto pioneiro no barrocal algarvio, em Querença, pretende ser exemplo nacional.
Pedro Madureira, geólogo da Synege, empresa que está a fiscalizar a empreitada no Ombria Resort, em Querença, Loulé.

A questão é colocada sem rodeios: por que motivo não foi feito um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) prévio à instalação do sistema de climatização com geotermia superficial no Ombria Resort, em Querença, em pleno barrocal, no interior do concelho de Loulé? Responde Pedro Madureira, um dos geólogos responsáveis pelo projeto. «Com a informação geológica disponível e os trabalhos a desenvolver, considerou-se que não haveria vetores de impacte que justificassem o desenvolvimento específico de um EIA. O descritor que nos mereceu mais atenção foi o da hidrogeologia. Considerou-se, contudo, que o sistema vertical fechado a instalar neste terreno, com furos espaçados e só com água em circulação, não afetaria a dinâmica das águas subterrâneas», sem qualquer risco de contaminação para o meio ambiente.

Por outro lado, e para completar a resposta, em termos de escala, o geólogo sublinha que a instalação tem «pequena expressão em área face às formações de eventual recarga do aquífero a serem intercetadas na obra», uma vez que o aquífero Querença-Silves tem 318 quilómetros quadrados, abrangendo os concelhos de Albufeira, Lagoa, Loulé e Silves. «Não obstante, há uma constante monitorização do que está a ser feito, tanto pela fiscalização e segurança ambiental da própria obra, como pelas entidades reguladoras, nomeadamente, pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), entidade à qual também apresentámos os nossos estudos e considerandos muito antes de se iniciarem os trabalhos de campo», garante ao «barlavento» Pedro Madureira, geólogo da Synege, empresa que está a fiscalizar a empreitada.

A geotermia superficial «aproveita uma energia renovável com um mínimo impacte ambiental que, apesar de pouco implementada em Portugal, já tem provas dadas. Hoje, esta tecnologia está um estado de arte avançado em diversos países do norte da Europa, nos EUA, e e muitas outras nações. Aliás, devo destacar o forte desenvolvimento deste tipo de geotermia no mercado espanhol», sublinha Pedro Madureira.

«Vamos ter um hotel de cinco estrelas no barrocal algarvio, onde no exterior, durante o verão, o termómetro pode subir até aos 35º centígrados, ou mais. E onde no inverno, as temperaturas mínimas descem aos 10º centígrados. Para oferecer um conforto térmico adequado com base em um sistema de ar condicionado convencional, teríamos que fazer subir, ou descer, a temperatura interior do hotel para 22º centígrados.

Na prática, isto significa uma diferença (delta de temperatura) de 13º centígrados, conseguida à custa de um brutal consumo de energia», detalha.

«Com a geotermia superficial teremos um delta de temperatura inferior, tanto na estação de aquecimento, como na estação de arrefecimento. Ou seja, uma menor necessidade energética, quando comparado com os sistemas convencionais de chiller/caldeira. É possível que nalguns dias, se possa utilizar o direct cooling, ou seja, climatizar os espaços apenas com a circulação de água no sistema, sem indução de energias, nem necessidade de recurso à bomba de calor », explica.

Segundo os cálculos dos projetistas, a aplicação do sistema de bombas de calor geotérmicas no Ombria Resort permitirá uma redução de entre 342133,00 e 372991,00 quilogramas de CO₂ por ano, quando comparado a um sistema «base» de chillers e caldeiras a gás natural.

Em termos práticos, o Ombria Resort contará com um sistema de geotermia superficial em circuito vertical fechado, composto por quatro zonas distintas de furos. Cada zona tem um conjunto de furos com comprimentos variando entre os 110 e os 125 metros, nos quais são introduzidas as sondas geotérmicas (simples «U») por onde circulará água.

À superfície, as sondas geotérmicas serão ligadas a tubagens coletoras enterradas na horizontal até cerca de 1,5 metro de profundidade máxima, que conduzem o circuito às bombas de calor instaladas nos edifícios. «O sistema permite trocas de calor através de uma rede de tubos de água, que estão isolados. Só nos interessa captar ou rejeitar o calor existente no subsolo. É inadequado aplicar a palavra extração, como tem vindo a ser dito», clarifica o geólogo.

Na geotermia superficial, «há um circuito primário que consegue captar a temperatura do terreno e há um outro (secundário) que a distribui. O material que usamos no sistema é o PEX-A, o melhor disponível em termos de resistência e propriedades térmicas, semelhante ao utilizado, por exemplo, no fabrico dos para-choques de muitos automóveis topo de gama. Estas sondas têm certificado de garantia da marca de 25 anos. Este material também é inócuo para o ambiente. O sistema está pensado para funcionar num equilíbrio sazonal, sem provocar alterações na temperatura natural do terreno», garante. «Não há impacte visual. Não há ruído, nem emissão de fumos. O que acontecerá é um poupança de 50 por cento na conta da eletricidade, em comparação ao uma solução de climatização tradicional, ainda que o investimento inicial seja maior», conclui.

Geotermia superficial, parente pobre das renováveis?

«A geotermia superficial tem múltiplos usos. É uma fonte endógena, reduz a dependência dos combustíveis fósseis e a pegada de carbono. O aproveitamento do recurso geotérmico de muito baixa entalpia é uma alternativa de futuro no que toca à eficiência e redução de consumo energético. Deve ser aproveitada em Portugal, como já acontece em outros países da Europa. Acredito que no futuro será uma tecnologia emergente», considera Pedro Madureira, geólogo envolvido no projeto do Ombria Resort. «Na minha opinião, penso que o relativo atraso na evolução deste mercado no nosso país está ligado a uma série de fatores, que vão desde a falta de informação disponível ao público, às lacunas na regulamentação atual. Para já, o potencial consumidor deste tipo de serviço não sente segurança na pouca oferta que existe no mercado nacional. Além disso, o custo de execução de alguns destes projetos pode ser elevado, com um longo período de retorno, consoante a tipologia e consumos. Tudo isto contribui para manter a geotermia superficial numa certa obscuridade», diz. Soluções? «Uma política de incentivos por parte da tutela, tal como acontece em Espanha, seria um contributo muito positivo. Sem esquecer a grande importância das fontes solar e eólica, temos todas as razões para colocarmos também na equação das renováveis esta energia que se encontra aqui mesmo, debaixo dos nossos pés».

Falta de informação confunde opinião pública

O geólogo Pedro Madureira considera que em Portugal, o desconhecimento acerca da climatização de edifícios com recurso a bombas de calor geotérmicas, «induz as pessoas a relacionar este aproveitamento com as metodologias ligadas à geotermia dita profunda, que envolve extração de calor para geração de eletricidade e que normalmente está associada a zonas vulcânicas e/ou a perfurações de alta profundidade (mais de 600 metros), com impactes que têm de ser avaliados, consoante os procedimentos», explica. Mas isto não é o que acontece com a geotermia dita superficial (de muito baixa entalpia/temperatura), tipologia que está a ser aplicada no Ombria Resort, em Querença, no concelho de Loulé. «Devemos divulgar e esclarecer as diferenças de forma a não permitir que este desconhecimento crie um estigma negativo na opinião pública sobre uma energia renovável com múltiplas aplicações e com provas dadas em diversos países da Europa e do mundo», conclui.

Um exemplo para o país

O Ombria Resort, em Querença, no interior do concelho de Loulé, pretende ser um «centro de aprendizagem para diversas instituições e academias do país», segundo diz ao «barlavento» o geólogo Pedro Madureira. Desde o início, em 2015, o projeto de climatização por geotermia superficial tem sido apresentado em seminários e conferências da especialidade, «despertando desde logo a atenção das universidades, que veem neste caso de estudo, uma oportunidade de desenvolver conhecimento, ao nível de dimensionamento do sistema, de execução, por exemplo, ao nível das técnicas, equipamentos e materiais, e, posteriormente, ao nível da monitorização e resultados».

Por outro lado, «tem sido nosso apanágio manter sempre informadas as entidades reguladoras daquilo que se está a fazer, comunicando à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e à Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG), o progresso da instalação e mantendo as portas abertas da obra a qualquer entidade que a queira visitar, quer para fins de verificação de processos, quer para fins académicos. Além disso, temos uma equipa de geólogos e engenheiros que acompanha diariamente todos os trabalhos, com registo de tudo o que se intercepta no terreno», sublinha.

«Face ao protagonismo mediático que tem merecido, este projeto deve ser também uma oportunidade para divulgar e mostrar à sociedade que a geotermia é uma energia renovável segura, que deve ser aproveitada, e que tem de ser considerada face ao paradigma ambiental e energético atual», conclui Pedro Madureira.

Obra mostra geologia «intricada» do barrocal algarvio

Pedro Madureira, geólogo da Synege, ouvido pelo «barlavento», assegura que o acompanhamento da obra no Ombria Resort tem vindo a evidenciar, com mais detalhe, a informação obtida das cartas geológicas de pequena escala que foram consultadas sobre aquela área.

Há muitos, muitos milhões de anos, o Algarve estava unido a Marrocos. A dada altura, o Mar de Tétis começa a abrir caminho para o que vai ser o futuro Mediterrâneo. Nessa primeira fase, no Triásico acontece a deposição de um certo tipo de sedimentos, como o grés de Silves. Nesta falha, em pleno barrocal, no concelho de Loulé, vê-se um filão resultante de um episódio vulcânico de idade neo-cretácica, testemunha da separação continental.

«Ao longo dos trabalhos, vamos aferindo o conhecimento que tínhamos da bibliografia e da nossa prospeção. Esta é uma zona muito intrincada em termos tectónicos e estruturais, onde há um contacto entre as formações do maciço antigo (Formação de Mira – xistos e grauvaques), com as formações da chamada orla meso-cenozóica meridional (formações detríticas e carbonatadas), de génese mais recente. Este contacto é muito conturbado do ponto de vista estrutural, com falhas, fraturas e dobras, e leva a que a interpretação acerca do enquadramento geológico local, nomeadamente, no que se refere à disposição espacial das diferentes formações em jogo, seja complexa», explica.

Categorias
Destaque


Relacionado com: