Portimão vai ter carreira de tiro aberta

Associação de Tiro de Portugal (ATP) conseguiu levar a bom porto uma ambição antiga, com a assinatura de um protocolo com a Câmara Municipal para criar infraestrutura.

Um novo campo de tiro aberto será construído nas proximidades do Autódromo Internacional do Algarve, no concelho de Portimão, pela Associação de Tiro de Portugal. O protocolo para a cedência do terreno pela Câmara Municipal de Portimão foi assinado com a associação, na quarta-feira, 25 de abril, durante as comemorações do feriado do Dia da Liberdade.

Ao «barlavento» João Martins, presidente da Associação de Tiro de Portugal, adianta que apesar da sede, no Vale da Arrancada, naquela cidade, ter condições para realizar cursos, exames e algumas provas, todas as modalidades que envolvem, por exemplo, tiro com bala não podem ser realizadas neste espaço.

«Há tiro de bala em campo fechado também, mas requer exigências elevadíssimas em termos financeiros, que não temos aqui. Depois há disciplinas, como o tiro olímpico ou o triatlo, entre outras, que são em carreira aberta», exemplifica.

João Martins avançou que ainda «há passos a dar até que a construção comece. Ainda assim, após a assinatura do protocolo, se a Câmara atribuir de imediato o terreno, estou convicto que no espaço de seis ou sete meses, teremos a infraestrutura de pé. Quero que o recinto esteja a funcionar em pleno em 2019, quando Portimão for a Cidade Europeia do Desporto, porque já fui, inclusive, contactado por duas federações estrangeiras para saber se, este ano, já tínhamos provas na vertente do tiro com bala», justifica.

A pretensão da ATP já data do tempo da presidência de Manuel da Luz e, quando mudou o executivo, o ex-autarca deixou todos os elementos para o que o executivo soubesse desta intenção. Houve ainda duas reuniões com a atual presidente Isilda Gomes, que delegou no vice-presidente Joaquim Castelão Rodrigues este projeto, a quem João Martins agradece todas as diligências. «Tenho de frisar o grande empenho que o vice-presidente sempre teve para connosco. Sempre acreditou que este projeto era uma mais-valia. Também a atual vereadora Teresa Mendes se empenhou nesta pretensão», sublinha.

A verdade é que, além da modalidade de tiro, esta carreira em campo aberto virá colmatar uma lacuna para quem exerce profissões com atribuição de arma de defesa pelo seu estatuto profissional. «Aquilo que estamos a fazer é para o futuro. Todos os agentes das polícias e autoridades, as pessoas que têm arma de defesa vão poder tirar proveito. Há atividades que, por inerência, têm arma atribuída, como os técnicos tributários, os juízes e magistrados, o próprio funcionário do tribunal, e alguns camarários. Ora, a lei 17/2005 veio regulamentar esta questão. Antes era atribuída uma arma e esta por norma seria guardada no cofre, sem ser usada com frequência. Às vezes, quando a pessoa precisava, nem sabia o que poderia fazer com a arma, porque não teve a devida preparação. Hoje não. A pessoa tem que fazer provas de capacidade de uso de arma para que se familiarize e para que não ponha a própria vida em perigo, nem a de terceiros», esclarece.

Também as forças policiais estão obrigadas a realizar provas de classificação ou aproveitamento, consoante a força policial em questão, havendo casos em que são retiradas as armas por incapacidade ou por não atingirem as pontuações exigidas. As instalações vão permitir que estas provas de manutenção sejam feitas em Portimão, quando até agora por norma teriam que se deslocar a Lisboa ou à unidade móvel de prática de tiro, que entretanto foi retirada do ativo. Por outro lado, «a carreira de tiro complementa as disciplinas existentes, sendo que estas, por utilizarem bala, são mais apelativas, e mobilizam o grosso dos atletas», descreve João Martins. E são estes atletas que viajam com a família, impulsionando a economia local. Em média, este tipo de provas costumam durar até três dias. «Na reunião que tive com Paulo Pinheiro (administrador da empresa responsável pelo Autódromo) ele compreendeu que será uma mais-valia, porque têm alojamento. Quando se organizam estas competições, das quais os atletas do leste da Europa e de Espanha são fervorosos adeptos, a família que os acompanha pode praticar outras atividades» paralelas, sugere João Martins.

Uma das provas mais procuradas, que poderá ser organizada no futuro campo aberto será o tiro dinâmico, em que há «um cenário, no qual surgem alvos que têm que ser abatidos pelo atleta», descreve. Essa é uma das disciplinas que o presidente da ATP gostaria de ver impulsionadas no novo campo de tiro. Haverá linhas de 25, 50 , 80 e cem metros em vários calibres e tipo de armas. Os exames continuam a ser lecionados na sede do clube, no Vale da Arrancada, espaço que é acessível também a atletas paralímpicos, por ter uma rampa de acesso até à entrada, sem qualquer desnível.

Tiro pode ser aprendido a partir dos 11 anos

Dos 168 sócios da Associação de Tiro de Portugal (ATP) mais de uma dezena são jovens até aos 18 anos, havendo também muitas mulheres a praticar este desporto. «A partir dos 11 anos já se pode começar, com monitores a apoiar. No entanto, até aos 14 anos, é como começar com a bicicleta a pedal. Ou seja, começam com o tiro de ar comprimido, adaptado à estrutura e capacidade da criança, aprendendo ainda a manusear a arma, as questões de segurança, o cuidado que deve ter, a perceber o que é a arma, o que esta pode fazer e porque é que é uma arma. A partir dos 14, já conseguimos introduzir outras formações», explica João Martins, presidente da ATP. A prova que este não é apenas um desporto de homens, é o facto que a melhor atiradora desta associação na carabina, em termos de pontuação, é uma mulher. Apesar de ser um desporto com armas, no que toca às crianças e adolescentes, João Martins defende que é importante desmistificar o seu uso. «É preferível que saibam o que têm nas mãos, que estejam preparados e instruídos do que, pela curiosidade, provoquem um acidente», considera. Acrescenta também que o caso dos Estados Unidos da América (EUA) é muito diferente do português, ainda que haja tendência para comparações. «Lá não existe um controlo, ao contrário de cá. Em Portugal não há nenhuma arma que não passe pelo nosso crivo e pela Direção Nacional da PSP, exceto as ilegais. A própria legislação exige que haja normas de segurança e cofres e o que ensinámos é para que haja consciência no manuseio das armas», argumentou. Aliás, segundo conta ao «barlavento» há dois jovens na ATP que desde que entraram nesta aprendizagem subiram o rendimento escolar, pois «não há um regime militar, mas» os formadores tentam «ser um bocadinho fortes e concisos na disciplina. Temos que ser flexíveis, mas quanto baste», descreve, acrescentando que nesta associação há atletas sócios entre os 11 e os 76 anos. E a verdade é que, neste momento, a ATP está em 11º no ranking da Federação Portuguesa de Tiro, num universo de mais de 120 membros, entre os quais estão, por exemplo, o Sporting Clube de Portugal ou o Banco Milénio, estruturas mais ricas e com meios.

Aceitação na ATP tem que ser seletiva

A questão não se traduz em preconceito, ou elitismo, mas em responsabilidade. Nem todos podem aprender ou obter licença para ter armas. «Há um certo crivo. Que não fique mal interpretado, porque os estatutos exigem-nos uma certa abertura, mas, pela exigência e pela responsabilidade que temos, há que ser seletivo», começa por elucidar João Martins, presidente da Associação de Tiro de Portugal (ATP). Assim, sem tabus. É que, antes de realizar uma inscrição num curso, os interessados são avaliados por uma médica para perceber se estão aptos psicologicamente para ter uma arma. «A responsabilidade é grande, porque a pessoa poderá passar a ter armas, bem como acesso a uma panóplia grande de pistolas, revólveres, carabinas, de vários calibres. Nós somos os formadores e, perante a polícia, somos os principais responsáveis de algo que possa existir. A arma por si só não é perigosa, mas hoje uma pessoa está bem psicologicamente e amanhã poderá não estar», justifica. É por isso que a ATP acompanha de perto os praticantes para notar qualquer evolução que possa haver. Por outro lado, como em qualquer desporto, a pessoa «tem que ter aptidão e vontade, porque este é um desporto de exigência mental, de preparação psicológica e de estudo», esclareceu. O atleta tem que frequentar o curso, onde é necessário conhecer a fundo a legislação relacionada com armas e tem que estar capacitado para manuseá-las. Ainda assim, desmistifica a arma de fogo, até porque há muitos outros objetos que podem ser utilizados para ferir alguém, como uma faca de cozinha, um bastão de basebol, um tubo galvanizado ou até uma simples pedra. «A arma por si só é inofensiva, a capacidade psicológica do portador da arma é que pode ser perigosa ou não, por isso há toda uma preparação que fazemos, tudo o que ensinamos dá uma capacidade diferente de outro tipo de atividade desportiva», admitiu. Para ingressar nesta modalidade é necessário completar o curso de Admissão de Licença Federativa e, só após esse passo, é que é possível escolher uma das várias disciplinas da modalidade.

Associação de Tiro de Portugal nasceu em Portimão há 18 anos

É uma associação de âmbito nacional, mas está sediada em Portimão, tendo nascido, de acordo com o presidente da Associação de Tiro de Portugal (ATP) João Martins, pela mão de «três polícias, dois funcionários judiciais e três militares», em 2000. A ideia começou antes, nos anos 1980, porque os clubes ou associações desta modalidade estavam apenas cingidas a dois núcleos (Lisboa e Porto) havendo uma lacuna no sul de Portugal. Assim, oito pessoas decidiram levar a cabo a tarefa de criar condições para constituir aquela que viria a ser a ATP. A intenção deste grupo fundador era implementar a disciplina no sul do país, de onde eram naturais. João Martins, cumpriu serviço militar. Fez uma comissão em Angola e participou no 25 de Abril 1974. Recorda que a ATP teve algumas dificuldades em aprovar os estatutos. «Quem os elaborou foi um Procurador da República que, na altura, estava em Portimão e que se disponibilizou, em 1987/88. Entretanto, o senhor desapareceu da cidade e a pretensão ficou em banho maria. Já nos anos 90, decidimos que devíamos tentar continuar, pois continuávamos com o bichinho do tiro e o gosto pelas armas», conta João Martins. Até essa altura era necessário deslocarem-se até ao Jamor (campo mais perto) para praticar. Houve então um advogado que pegou no trabalho já realizado e continuou-o. Só em 2000, contudo, foi possível à ATP aprovar os estatutos, depois de três alterações. A sede em Portimão impulsionou a descentralização da modalidade, que até à data estava resumida a dois grandes centros nacionais. Por imposição da legislação, esta associação é membro da Federação Portuguesa de Tiro, do IPDJ e por inerência está sob a supervisão da Direção Nacional da Polícia de Segurança Pública (PSP), estando vocacionada para os atletas a nível individual. Por sua vez, a ATP, enquanto associação, pode agregar outros clubes, sendo que a partir da sua criação, mais lhes seguiram o exemplo, como é o caso da Associação Regional Sul ou Associação Regional Norte, lembrou. A verdade é que ao longo dos anos têm sido os sócios a trabalhar também na sede, sem pedir apoios à Câmara Municipal. «Quando ficámos com esta sede, fomos nós que a pintámos, arranjámos, fizemos todas as obras necessárias, com os nossos recursos. Temos associados médicos, pedreiros, advogados, polícias, das mais variadas profissões e todos ajudaram».

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