Plataforma cidadã ajuda Monchique

Movimento cívico montou página web para organizar respostas eficazes às vítimas do incêndio, angariar donativos e atrair voluntários.
Juliana José, Joana Martins e Edna Travessa.

Joana Martins, 32 anos, natural de Monchique, trabalha em ajuda humanitária, em Moçambique. Assim que soube que a sua terra estava, de novo, a arder, apanhou o primeiro avião com destino a Portugal. Veio de coração apertado, ainda com a memória da catástrofe de 2003 presente no pensamento. À chegada, uniu-se a outros conterrâneos na organização da Plataforma de Coordenação da Ajuda para Monchique, estrutura que conta com a parceria do município e das juntas de freguesia do concelho.

Martins e a sua equipa de voluntários trabalham no bloco D, sala D2, da Escola Manuel Nascimento, onde funciona o Centro de Apoio à População, aberto das 9 às 21 horas, sete dias por semana.

Para cada caso que a plataforma atende é aberta uma ficha de forma a «perceber o que aconteceu com a pessoa e quais as suas necessidades. Se tem casa, comida, água potável e menores a cargo». No terreno, «estamos a fazer o levantamento das regiões afetadas com um questionário pós-incêndio para mapear a urgência das respostas», explica Joana Martins ao «barlavento».

«O concelho é muito grande. A população envelhecida que não tem como se deslocar. Está isolada. Por isso, estamos a bater todo o território em colaboração com os Escutas e as Guias, porta a porta. Levamos kits de primeira necessidade e comida para animais. Encontramos pessoas muito deprimidas, tristes, revoltadas. Mas já temos uma equipa de psicólogas voluntárias a intervir». A situação é preocupante porque, nas décadas de 1980 e 1990, Monchique tinha a taxa de suicídio mais alta do país. «Agora já não é assim», mas neste tipo de situações, se não houver apoio psicológico, isso pode voltar a repetir-se, admite.

A plataforma recebe apenas donativos em géneros: roupa, comida, produtos de higiene pessoal e de limpeza, medicamentos e rações, entre outros bens. Todas as entradas e saídas são registadas numa base de dados. «O mais importante para um movimento civil de voluntários é ter tudo registado ao detalhe. Tem de haver transparência para que as pessoas tenham confiança. Recentemente houve situações menos honestas», lamenta, referindo-se aos donativos de Pedrogão Grande alegadamente desviados para outros fins.

«Somos um grupo cívico com sensibilidade e consciência, o que podermos fazer na hora, resolvemos logo. Mas as pessoas têm sempre de ir à Segurança Social. A população idosa não lê, não escreve, precisa de ajuda para pedir apoio às instituições públicas. Agora é a fase de emergência, mas a situação há-de evoluir. Para já, estamos a recomendar, que documentem todos os prejuízos com fotografias e aconselhamos as pessoas, se comprarem alguma coisa, que guardem os recibos com número de contribuinte. Talvez mais tarde possam reaver o dinheiro».

No entanto, poucos são os que acreditam nas ajudas do Estado. No passado também foram anunciados fundos e a maioria pouco, ou nada, recebeu. «Aqui perder a casa é grave. Mas é ainda mais grave perder o meio de subsistência. Uma habitação pode ser reparada rapidamente, mas quando é que as pessoas vão ter outra vez medronheiros a produzir? Estamos a falar de idosos com reformas de 300 euros mensais, ou menos, e metade vai para os medicamentos. Claro que precisam de ajuda!».

Joana Martins critica os serviços da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve (DRAPAL) que se instalaram na Junta de Freguesia de Monchique, em vez de no Centro de Apoio, onde há voluntários que falam cinco idiomas, o que facilitaria a vida aos residentes estrangeiros do concelho. Também confirma que houve «falta de coordenação no combate ao fogo», mas culpa sobretudo as políticas erradas.

«Todos sabemos que Monchique está cheio de eucaliptos. Que meia dúzia de empresas compraram os terrenos que havia para comprar e plantaram, graças à medida de uma ex-ministra que agora critica tudo e todos. Plantaram eucaliptos por todo o lado e agora é o que se vê», diz, referindo-se a Assunção Cristas, que quando esteve à frente do Ministério da Agricultura e do Mar, entre 2011 e 2015, no tempo do governo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, facilitou esta monocultura. «Tenho uma amiga que perdeu o negocio da família. Ardeu tudo. Mas está aqui, a ajudar outros, de coração aberto. Os fogos já são tão habituais que a população está a ficar indiferente, mas não pode ser. O Eucalipto Livre da senhora Cristas é uma prisão para o povo de Monchique».

Toda a ajuda é bem-vinda!

A Plataforma de Coordenação da Ajuda para Monchique tem opções: uma para quem precisa de ajuda (alojamento, comida, higiene e água), outra para quem quiser voluntariar-se, e outra para donativos, na qual os interessados podem consultar a lista de artigos urgentes. Tubos, depósitos de água e ferramentas para trabalhar a terra são prioritários, assim como alfaias agrícolas, tubagens, eletrodomésticos e mobiliário. Em relação ao voluntariado, trabalho não faltará. «Nos próximos meses vamos precisar de ajuda para distribuir bens essenciais, ajudar pessoas a limpar os seus terrenos, demolir ruínas, na construção e em muitas outras coisas», detalha a coordenadora Joana Martins. Mais questões podem ser colocadas por e-mail ([email protected]).

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