Pista da Praia Verde ganha asas todo o ano

Encerrada desde 1996, a pista de aviação de São Bartolomeu/ Fonte, entre Castro Marim e Vila Real de Santo António está de novo operacional, certificada pela Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) a 21 de agosto. Será a base operacional da empresa de turismo aeronáutico «SkyXpedition».

No terreno, já pouco ou nada restava da antigo aeródromo São Bartolomeu/Fonte, mais conhecido por pista da Praia Verde, devido à proximidade daquele areal, que neste caso, era também um ponto de referência para a aproximação das aeronaves à aterragem. Passados 22 anos sem atividade, e com algumas peripécias pelo meio, o campo está de novo operacional, graças à determinação de Pedro Cotovio, 46 anos, metade dos quais a voar balões e outras máquinas pouco convencionais.

Cotovio sempre teve a ambição de operar no Sotavento algarvio. Começou em 2015 com um paratrike (parapente a motor), experiência que «correu muito bem». No ano seguinte, fez uma temporada de teste nos Açores, também com sucesso. «Isso provou que há uma procura para este tipo de voos turísticos e de lazer».

Nos dois casos, a única adversidade foi a operacionalidade das máquinas. «O paratrike é muito suscetível, e tal como a maioria das aeronaves ultraligeiras tem limitações em termos de meteorologia», explica. O autogiro surge então como alternativa mais fiável.

Chegar à pista é por si uma aventura. O acesso é feito a partir da EN125 (agora sinalizado) e é preciso seguir por uma estrada em terra batida, atravessar uma passagem de nível sem guarda, em direção ao coração do Parque Natural do Sapal de Castro Marim/ Vila Real de Santo António.

«Na verdade, esta pista já não existia. E como tal, não havia tutela sobre uma coisa que não existe. É privada, pertence a uma família da região, cujo pai dos herdeiros, infelizmente já falecido, era um entusiasta da aeronáutica. Foi ele quem fomentou a criação desta infraestrutura. Entretanto a atividade desapareceu e ficou abandonada durante este anos todos», conta Pedro Cotovio.

Na comunidade aeronáutica «todos juravam a pés juntos que seria impossível reativar a pista. Bem, perante tanta unanimidade na impossibilidade, pensei que não poderia ser verdade. Alguma coisa não estaria certa. Primeiro que tudo, fomos falar com os proprietários», a família Drago, que aceitou muito bem o projeto e tem «sido um excelente apoio».

Depois, «a primeira entidade com quem falámos foi a Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC), que tem sido inexcedível», sublinha. Neste caso, a má reputação da máquina burocrática do Estado, não se fez sentir. Também alguns preconceitos ficaram sem efeito: «o que ouço dizer é que a ANAC não tem interesse no desenvolvimento da aviação ultraligeira em Portugal. Aquilo que tive de feedback do conselho de administração, com quem reuni, e dos técnicos com quem falei e que verdadeiramente me ajudaram neste processo, prova o contrário. Após tudo estar pronto para o pedido de certificação da pista, que foi entregue no final de julho, a licença foi concedida a 21 de agosto, apesar de estarmos em período de férias. Agora, o fundamento por detrás da ideia que a ANAC não tem interesse, se calhar, é o mesma que suportava a ideia que seria impossível reabrir a pista da Praia Verde», esclarece.

Preparar o terreno «obrigou a trabalhos de máquinas pesadas durante cinco semanas, porque quisemos que fosse feito da forma mais ecológica possível. Não foi utilizado qualquer tratamento ou ação agressiva em termos ambientais. A única coisa que se fez foi ter o cuidado que a lâmina da máquina tocasse no solo. Foi um trabalho cirúrgico. Tivemos o apoio da Câmara Municipal de Castro Marim, através da vice-presidente Filomena Sintra», sublinha.

Voar num parque natural

Pedro Cotovio não nega que «teria sido muito mais fácil instalar-nos no Aeródromo de Lagos», mas não seria a mesma coisa. «Ninguém imagina como é a paisagem à volta de Castro Marim. É como se fosse a paleta de tintas de um pintor ou ver a reserva integral das dunas de Monte Gordo que está fechada, e que tem um lago no meio junto ao mar. Depois da Manta Rota entramos na Ria Formosa até à Fuzeta. É uma paisagem incrível», garante o piloto. Para já, a «SkyXpedition» oferece três experiências de voo: o básico de 15 minutos (90 euros); o intermédio de 30 minutos (150 euros) e o premium de 60 minutos (250 euros), «até às ilhas barreira perto de Faro». «O que fazemos aqui é concretização de sonhos. Aquilo que os turistas veem, regra geral, quando procuram um destino como o Algarve, são imagens aéreas, até porque os drones estão na moda. É isso que trazem na imaginação, mas depois não conseguem ver. Quando operámos o paratrike, dada a natureza, a avifauna e a beleza do Sotavento algarvios, os passageiros, no final da viagem até querem pagar mais. E querem regressar», diz. A operação da empresa já começou e tem vários voos reservados a partir do final de setembro. «Também é possível fazer itinerários personalizados. Imagine alguém que quer sobrevoar a costa portuguesa do Algarve ao Minho».

Turismo de Portugal apoiou projeto acessível

Segundo Pedro Cotovio, concretizar este projeto só foi possível graças ao apoio do Turismo de Portugal. «O nosso país é muito dado ao empreendedorismo, mas quando uma start-up chega às entidades financeiras, aquilo que pedem é a contabilidade que não existe. E quando se trata de um negócio novo, não há forma de se fazer um estudo comparativo. A verdade é que não podemos avançar sem capital, e por isso é preciso recorrer a uma entidade financeira. Mas, nestas condições, ficamos num impasse», admite.

«Aqui, o Turismo de Portugal lançou um programa de apoio a ideias inovadoras e fomos das primeiras entidades a apresentar um projeto. Foi extremamente rápido na sua análise, fomos apoiados a sete anos sem fundo perdido», conta. Um dos pontos fortes é o facto que a «SkyXpedition» está vocacionada para o chamado turismo acessível, um ninho ainda pouco explorado. Tem uma grua especial que permite o acesso de pessoas em cadeiras de rodas ao cockpit do girocoptero, de forma fácil, confortável e digna.

Girocóptero é seguro e voa todo o ano

A máquina que Pedro Cotovio escolheu para a sua empresa é um autogiro fabricado pela marca austríaca/eslovena Trixy aviation, certificada pela European Aviation Safety Agency (EASA). O aparelho, equipado com um motor Rotax de última geração, foi entregue novo em abril deste ano.

«É uma máquina que funciona todo o ano, até tem aquecimento se tiver frio. A única coisa que pode manter um autogiro no chão é o nevoeiro, mas, legalmente nenhuma aeronave ultraligeira pode voar em condições de fraca visibilidade. As limitações operacionais do fabricante são vento lateral de 35 Km/h lateral à descolagem ou vento frontal de 75 Km/h. Penso que em qualquer ponto de Portugal isso é uma ventania desgraçada!», brinca. Este tipo de aparelho tem uma vantagem crítica para a operação turística. «É extremamente seguro. Por uma questão ética, parto do princípio que quando alguém quer ter uma experiência de voo, assume que terá acesso a algo bem feito. Vi tudo o que há no mercado. A Trixy não é apenas um fabricante. Assume-se como empresa de investigação e desenvolvimento. E isso faz toda a diferença. Por exemplo, o mastro do rotor não tem carnagem, para facilitar a verificação (pre-flight check) antes do voo. Toda a cablagem da máquina está à vista para o piloto verificar antes de voar. É um argumento muito forte quando se está a trabalhar em turismo», explica. Apesar da zona não ter espaço aéreo controlado, por uma questão de segurança, Pedro Cotovio faz questão de submeter um plano de voo e coordenar com os serviços de controlo de tráfego aéreo do Aeroporto de Faro (NAV). O autogiro está equipado com «beacon de emergência, transponder e um sistema anti-colisão (FLARM), que nos mostra todos os aparelhos nas proximidades, até parapentes ou asas-delta que tenham o mesmo sistema simplificado. Conseguimos saber quando vem uma avioneta a puxar uma manga publicitária», para evitar problemas.

ICNF convidado para parceria

A pista da Praia Verde está enquadrada no Plano de Ordenamento da Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António. A única limitação é que o voos devem ser feitos a 2000 pés, à exceção da descolagem e aterragem, ou no caso de voos de combate a incêndios, vigilância ou de investigação. «A operação é relativamente simples. Há que ter em conta que estamos numa reserva natural e é preciso respeitá-la. O autogiro tem um hélice de seis pás que foi uma opção nossa, para adaptá-lo a este local. Faz muito menos ruído do que um hélice convencional. Os flamingos já perceberam que não somos uma ameaça», descreve. Por outro lado, «propus ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) uma parceria que os nossos voos fossem utilizados num conceito a que chamei turismo de conservação da natureza». Ou seja, «as primeiras pessoas que se vão aperceber de qualquer alteração ambiental somos nós. Quem ateia um fogo, sabe que não tem ninguém por perto para vê-lo. Mas se souber que anda uma aeronave a passar com frequência, se calhar, pensará duas vezes. O mesmo é válido para quem faz descargas ilegais de entulho».

Categorias
Destaque


Relacionado com: