Piratas, tesouros perdidos e a história imaginada pelas crianças de Faro

No contexto da celebração dos 530 anos da impressão do Pentateuco, a editora Sol, Sul e Sal decidiu dar uma prenda aos estudantes do Agrupamento D. Afonso III, de Faro. É a publicação do livro «Uma grande aventura…no rasto do tesouro perdido» escrito e ilustrado em conjunto pelos alunos das escolas EB Alto de Rodes e EB do Carmo.
As professoras Maria José Ramalho, Célia Santana Ramos, Otelinda Gomes e Marta Soares

As artes inspiraram e geram criatividade, até quando não se espera. É assim que nasce o livrinho «Uma grande aventura… no rasto do tesouro perdido», uma ficção histórica imaginada pelas crianças das Escolas Básicas do Agrupamento D. Afonso III, de Faro.

Uma narrativa feita em conjunto, que tem como pano de fundo a incursão da armada inglesa na capital algarvia, em julho de 1596, levando, entre outras coisas, parte da biblioteca do Bispo do Algarve, D. Fernando Martins Mascarenhas, e da qual fazia parte o Pentateuco, o primeiro livro impresso em Portugal.

«A ideia surgiu a 7 de março, no âmbito de uma prenda de aniversário de uma aluna minha, que foi uma peça de teatro apresentada pelo pai, Pedro Monteiro, do Teatrito», explica Maria José Ramalho, professora da turma 4ºB, na Escola Básica de Alto de Rodes, e coordenadora deste projeto editorial. «Falava de piratas e a dada altura, falava no Francis Drake e no Conde de Essex. Foi o ponto de partida para um exercício de escrita criativa. A partir daí, nós, docentes do quarto ano, começámos a debater em grupo: e que tal partirmos desta experiência para desenvolvermos mais competências? Porque, às vezes, os miúdos resistem a escrever. Mas se houver um estímulo, algo que os leve a pensar que estão a viver a história, é muito melhor» para a aprendizagem, quer individual, quer coletiva.

Assim, e «porque se aproximava a semana da leitura e da biblioteca, resolvemos dinamizar este texto», acrescenta Célia Santana Ramos, professora da Escola Básica de Alto de Rodes, que este ano leccionou à turma 4ºD na Escola D. Afonso III. «Porque não havemos de dar a ler aos nossos alunos, não apenas aos do quarto ano, mas a todos os outros, produções de crianças? Se calhar, fará sentido. Foi este o repto que lançámos. Fizemos o primeiro capitulo, que foi lido na entregue à turma seguinte que desenvolveu o segundo capítulo, e acabou por envolver cinco turmas», diz Maria José Ramalho.

O processo criativo decorreu até 22 de março. «Depois, e ainda antes das férias a Páscoa, as turmas do quarto ano foram ler aos colegas do 1º, 2º e 3º ano que mais tarde fizeram os desenhos para ilustrar o que ouviram». Foram os alunos a escolher, democraticamente, as ilustrações que constam no livro. Outro aspeto interessante do projeto é que na Escola D. Afonso III, onde há duas turmas do 4º ano, os alunos foram ler aos colegas de 5º ano. «Foi uma articulação vertical e horizontal», explica Célia Santana Ramos.

«Os miúdos fizeram muitas pesquisas. Falámos com instituições como o Museu Municipal de Faro, e a associação 1540. Conversámos com historiadores, e os pais também se interessaram pelo projeto. Também foi importante ter conseguido que todos os professores aceitassem desenvolver as propostas, por exemplo, a nível do desenho. Foi bom estarmos todos unidos numa opção pedagógica comum», sublinha a professora Maria José Ramalho.

«Depois deste envolvimento todo, houve crianças que continuaram a inventar outras histórias. Isto é promover a escrita», diz Célia Santana. Para que conste, também foi fundamental a colaboração das docentes Marta Soares (da turma 4ºC na EB do Carmo), Manuela Baião (da EB do Carmo, a lecionar a turma 4ºE na Escola D. Afonso III) e Otelinda Gomes (da turma 4ºA da EB de Alto de Rodes).

Por mero acaso, o Círculo Cultural Teixeira Gomes e a Sul, Sol e Sal tiveram conhecimento deste projeto que decidiram abraçar, sendo que editora assume todos os custos inerentes à publicação. «Foi uma coincidência feliz, ao mesmo tempo que estávamos a preparar a edição do Pentateuco, soubemos que estava a ser feito um outro sobre o Conde de Essex. É um livro que vamos oferecer aos alunos. É um incentivo à criação, ao primeiro livro. Queremos fomentar e incentivar as escolas e o interesse pela história local. Possivelmente até poderá nascer uma nova coleção. Já editamos um livro infantil, e este será o segundo. Queremos dar sequência a isto, com uma série infanto-juvenil sobre temas regionais ligados à cultura e à história», explicou o editor Manuel Brito, ao «barlavento».

Para Paulo Neves, co-organizador das comemorações dos 530 anos do primeiro livro impresso em Portugal, «é uma obra original. Eu vi e ainda não acredito. A autenticidade dos desenhos mostra os logo a autenticidade dos autores. Lemos o texto e vimos que nos conseguem transportar para o mundo dos piratas, dos corsários e da imaginação que é fundamental para as crianças». O livro será distribuído gratuitamente na sexta-feira, 30 de junho, às 11h30, na Biblioteca do Seminário Diocesano de Faro.

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