Pedro Cabrita Reis convoca «todas as diferenças» artísticas em Faro

Aos 61 anos, sendo um dos nomes maiores da arte portuguesa da atualidade, Pedro Cabrita Reis projetou, comissariou e montou uma coletiva que junta 80 artistas, entre consagrados e emergentes, no solar das Pontes de Marchil, sede da Associação 289. Fica patente até 15 de setembro.

barlavento: Não deixa de ser invulgar um artista com o seu gabarito organizar uma exposição numa recém-formada associação de província…
Pedro Cabrita Reis:
Estas pequenas associações revelam uma energia que está patente em muitos sítios, é subterrânea e anima o país de norte a sul. A 289 faz parte de uma rede de iniciativas idênticas no litoral, no interior, nos bairros periféricos das cidades. Há um Portugal que não é conhecido dos jornais, mas que trabalha com energia, com intenção e com objetivos. Claramente e desde logo, de índole cultural e a seguir, políticas e de animação cívica. É uma rede que não tem organismos, não tem direções, mas tem um estado de espírito e tem uma intenção e um modo de viver. Encontra-se isto em Braga, Castelo Branco, Tavira, pelo país fora. Não faz parte dos telejornais, faz parte da verdade e da realidade. A 289 é um sintoma de como estas pessoas sentem diariamente as suas ambições no plano cultural, filosófico, e se quisermos, no plano vivencial.

Foi difícil juntar este coletivo?
Não, não foi, porque todas as pessoas que aqui estão, assim como muitas outras que poderiam estar, mas que por razões de ordem logística não foi possível incluir, vivem todas de uma coisa que é importante: a base da disponibilidade e do acreditar. Ao cinismo da política opomos o acreditar nos desafios. Não se fazem grandes revoluções, mas transforma-se o dia a dia, e com isso, transformam-se as mentalidades. Demora mais tempo, mas é mais sério. Não há cinismo, há apenas o acreditar. Estas 80 pessoas responderam à chamada da 289 porque sabiam que isto é algo que era preciso fazer. Porque é a partir do exterior que se chega ao centro.

 

Estamos, contudo, mais habituados ao centralismo…
Do centralismo emana o poder que é oriundo das classes dominantes, sejam elas as classes ligadas à finança, à política profissional. O poder verdadeiro que estrutura uma mudança do país, emana de todos os sítios ao mesmo tempo. É rizomático, é contaminante. Nós que estamos nestas pequenas associações não sofremos do problema de estarmos localizados no centro. Nunca estamos em sítio nenhum e estamos em todos os sítios ao mesmo tempo. É daí que vem a força desta espécie de corpo que atravessa o país e que é composto de gente de boa vontade, de idades diversas, de culturas diversas, de modos de estar totalmente opostos, mas que no momento certo, sabem que é preciso estar unidos.

Já que menciona o cinismo da política, pergunto-lhe como vê o país atual?
Continuamos a ser um pequeno país na periferia de um sistema capitalista, um país que está sempre submetido à violência tática e estratégica do domínio internacional, que não são definidas, como sabemos, pelo Parlamento Europeu, mas sim porque uma mancha escura, nebulosa e indefinida das grandes corporations multinacionais que têm os lobbies nos órgãos ditos democráticos das assembleias europeias. Portanto, não é Bruxelas que manda em Portugal, são as empresas petrolíferas, de energia, de informação, de telecomunicações, entre outras que têm os seus agentes lobistas nos supostos teatros de exercício do poder na União Europeia. Portugal é apetitoso porque é pequeno, tem pouca gente e está fragilizado por anos de uma economia de dependência, que vem desde o 25 de Abril. Vem agravado por gestões como as Cavaquistas e de Passos Coelho. Neste momento, a administração socialista, por muito frágil que seja a sua capacidade de transformar esse paradigma negativo, temos de admitir, goste-se ou não, que os últimos anos de governação foram anos positivos. Aos poucos, leva o país a um sítio diferente. Eu não tenho qualquer filiação partidária, e não penso tê-la jamais. No entanto, tenho um pensamento a partilhar e sobretudo um exercício crítico. Em política, não há perfeição, há o possível num conjunto de alianças e movimentos que se vão gerando, transformando e construindo no tempo. A atual forma da administração política portuguesa parece-me extraordinária. A verdade é que Portugal tem hoje uma atitude completamente diferente. Quando o povo, a população, a cidadania está envolvida num debate político e com ele estabelece pontos de relação, isso é um momento positivo e de respiração de ar puro. Isso é recente, não víamos isso desde a troika. Não estávamos à espera que fosse possível no consulado Passos Coelho. Com esta atual governação, que não tem com certeza carta branca dada pelos movimentos sindicais e população, tem pelo menos, uma disponibilidade diferente. Vamos ver se merece o respeito que os portugueses lhe dão. Espero que sim.

Há alguma linha temática nesta coletiva?
Justamente, a linha temática é não haver uma. Se tivéssemos tido uma linha temática, estávamos a dar privilégio à ideologia sobre a cultura. As linhas temáticas e unidirecionais provêm de um esvaziar de pensamento. Aqui borbulha tudo o que é diferente e convive no mesmo momento. Faz sempre sentido convocar todas as diferenças. As artes têm esse privilégio. São o único território em que podemos convocar tudo o que à partida se oferece como diferente e oposto, e ainda esperar que nasça luz disso.

Nos dias de hoje, a arte ainda é contestatária?
A palavra ainda está deslocada. A arte é contestatária por natureza. A pergunta é se isto é um pensamento romântico? Não. Só se pode acreditar que ela é contestatária e porquê? Porque tudo o que se faz, um quadro, uma escultura, um desenho, uma pintura, uma performance, um vídeo, são sempre formas diferentes de ver o mundo trazidas até nós pelos seus autores, pelos artistas. Ora, uma forma diferente de ver o mundo é, por si, perturbadora, faz roturas e contesta o saber adquirido. Não pensamos, nem queremos, esperamos ou achamos que seja importante que os artistas se transformem em panfletários. Um panfletário é sempre um mau artista. Ou seja, nem sequer é um artista. A arte tem sempre formas de transformar política e filosoficamente a nossa maneira de ver o mundo. Com silêncio, com ausência, com descaração, ou com violência ou evidência, tanto faz. Agora não é a colar «cartazes» sobre as hipotéticas injustiças do mundo que a arte se manifesta e se reproduz. A arte é de longe mais inteligente e profundamente enraizada num pensamento crítico que essas manifestações superficiais. Desconfiamos sempre dos artistas que reivindicam para a sua obra uma eminência política apenas para circunstância.

O Algarve debate-se neste momento contra a exploração de hidrocarbonetos ao largo da costa. Qual é o seu comentário sobre esta ameaça?
Tanto quanto sei, a exploração de petróleo vai a contra-vento da evolução tecnológica da atualidade, e das ambições da humanidade. Nós estamos a caminho de encontrar formas alternativas de energia que vão transformar os combustíveis fósseis numa história do passado, em breve. Não é algo que se consiga resolver amanhã porque há demasiados interesses internacionais ligados aos lucros que se fazem com a exploração do petróleo. Há um conjunto de portugueses que venderam o seu país, a sua alma e a sua consciência aos interesses económicos dessas potências estrangeiras que pretendem extrair o petróleo da nossa costa, poluindo o nosso mar, afetando as nossas pescas e dando cabo de uma coisa que parece ser a forma mais sólida da economia no país, o turismo. Águas do mar com manchas negras não convidam turistas a passar férias.

Catálogo lançado em outubro

Inaugurada no sábado, 14 de julho, a exposição «289 – um projeto de Pedro Cabrita Reis» ficará patente até 15 de setembro, podendo ser visitada de quarta a domingo, das 17 às 21 horas. O mentor e artista, em entrevista ao «barlavento» sublinhou o apoio da autarquia farense, «que não é de forma alguma possível de ignorar. A Câmara Municipal de Faro teve uma grande disponibilidade para apoiar, na medida do possível, o que aqui está a acontecer», suportando as estadias dos artistas na Escola de Hotelaria e Turismo, e também a produção do primeiro catálogo da associação, que está a ser trabalhado pela editora independente das chancelas Sistema Solar e Documenta, ex-Assírio & Alvim. Em outubro, o catálogo será lançado. Nas páginas, constará o manifesto «80 aformismos da arte» do historiador de arte, crítico e comissário, João Pinharanda. Terá também textos originais de José Miranda Justo, artista participante na coletiva 289, professor associado e investigador principal na Universidade de Lisboa nos domínios científicos das humanidades (filosofia, ética e religião, arte, línguas e literaturas) e de Miriam Tavares, professora associada e coordenadora do Centro de Investigação em Artes e Comunicação da Universidade do Algarve. No final da exposição haverá um debate aberto ao público.

289 nasce por «necessidade»

Um grupo de 12 artistas começou em junho de 2017, aos poucos, a recuperar o velho Solar das Pontes de Marchil, que no passado acolheu o centro de férias do Algarve da Associação de Comandos, delegação de Faro. O centenário palacete que passou por longos períodos de abandono. A ideia era transformá-lo em sede da Associação 289, uma entidade sem fins lucrativos para a promoção e divulgação das artes visuais. A primeira apresentação ao público para dar a conhecer o espaço expositivo foi no dia 18 de novembro de 2017. «Esta associação nasce de uma necessidade, sentida por nós, artistas e também pelos alunos e professores das artes visuais. Toda a gente se queixava que após o curso não se conseguia falar de arte contemporânea em mais lado nenhum no Algarve. Temos público que adere, que tem vindo às exposições e que tem feito a coisa connosco». explica Tiago Batista, tesoureiro e um dos sócios-fundadores. O solar é agora «um sítio onde podemos trabalhar, expor, falar e ao mesmo tempo dar a Faro uma oferta que não existia». Há uns anos, um executivo municipal ambicionou criar um centro de arte contemporânea num edifício no núcleo antigo da cidade, conhecido por fábrica da cerveja. «Mais um exercício de poder que falhou», diz Tiago Batista, a quem interessa mais o presente e o futuro. «Este município candidatou-se a capital europeia da cultura. Não podemos dizer apenas que queremos cultura. Temos que dar qualquer coisa. No meu ponto de vista isso implica ter algum currículo anterior para poder haver qualquer coisa mais à frente», metaforiza. E nesse sentido, «acho que os municípios não têm apostado como deveriam, embora, tenhamos o apoio da Câmara como parceiro institucional para este projeto».

Artistas

Fernando Sampaio Amaro
Vasco Araújo
Cristina Ataíde
Manuel Baptista
Pedro Barateiro
Paulo Barros
Tiago Batista
Sara Bichão
Diogo Bolota
Paulo Brighenti
Alexandra C.
Pedro Cabral Santo
Pedro Cabrita Reis
Rui Calçada Bastos
Pedro Calapez
Luís Campos
Rosa Carvalho
Pedro Cavalheiro
Nuno Cera
Rui Chafes
Catarina Correia
Gil Heitor Cortesão
Vasco Costa
Fernão Cruz
Luísa Cunha
Milita Doré
Armanda Duarte
João Paulo Feliciano
Ângela Ferreira
Alexandre Ferreira
João Ferro Martins
Norberto Fernandes
Fernanda Fragateiro
Vasco Futscher
Patrícia Garrido
Pedro Gomes
Ângelo Gonçalves
Gat.Uno
Sílvia Hestnes Ferreira
Tomaz Hipólito
Gustavo Jesus
Vanda Madureira
Leandro Marcos
Bertílio Martins
Edgar Massul
Susana de Medeiros
Paulo Mendes
Fátima Mendonça
Tereza Mieiro
José Miranda Justo
Vasco Marum Nascimento
Jorge Neves
Rodrigo Oliveira
Maria José Oliveira
Miguel Palma
Rubene Palma Ramos
Henrique Pavão
Marta Peneda
Francisco Queirós
Jorge Queiroz
Joana R. Sá
Ana Rostron
Rui Sanches
Julião Sarmento
Noé Sendas
Paulo Serra
Fernando Silva Grade
Jorge Mestre Simão
Tânia Simões
Marta Soares
Miguel Soares
João Timóteo
Rui Toscano
Francisco Tropa
Pedro Valdez Cardoso
João Pedro Vale + Nuno
Francisco Vidal
Ana Vidigal
Xana

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