Paulo Águas fará périplo pelas empresas do Algarve

Paulo Águas, professor da Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo (ESGHT) é o novo reitor da Universidade do Algarve (UAlg). Uma vitória inédita no Ensino Superior português, pois é a primeira vez que um docente do subsistema politécnico é eleito reitor. Logo após o resultado da votação, o magnífico respondeu às questões dos jornalistas.

Esta eleição tem um gosto especial, uma vez que, numa primeira fase a sua candidatura não foi considerada elegível e depois acabou por recorrer e ganhar?
Paulo Águas:
Não valorizo essa situação. Fui um candidato de pleno direito como os restantes dois colegas que aproveito para saudar, e que também tiveram a coragem de se candidatar ao cargo de reitor da Universidade do Algarve. O gosto especial é que terei a máxima determinação para que, com todos, consigamos caminhar no sentido da afirmação da academia nos planos regional, nacional e internacional.

Como professor do subsistema politécnico, acha que poderá trazer uma perspetiva diferente ao Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP)?
Reconheço a particularidade e é uma novidade eu ser do sub-sistema politécnico. Agora, tenho já acumulada também alguma experiência em equipas reitorais. Nós respeitamos os subsistemas. Procuramos desenvolver sinergias entre ambos e olhamos para a universidade de uma forma global. Acho que isto tem de ser visto com naturalidade. Ou então, cairia num exagero. Não estamos aqui em qualquer processo de libertação. No fundo, é o resultado do caminho e da maturidade que esta universidade atingiu, o qual eu tive o privilégio de viver na primeira pessoa. Fui contratado em 1986 para o Instituto Politécnico de Faro. Participei e assisti aos processos de articulação entre a UAlg e o Instituto Politécnico de Faro em 1988. Participei na Assembleia Estatutária que conduziu aos estatutos da UAlg, aquando da autonomia das Instituições de Ensino Superior em 1992. Portanto, temos de ver esta eleição com naturalidade, sem deixar de admitir ou de reconhecer que é a primeira vez que um docente do subsistema politécnico se candidatou e foi eleito reitor.

Qual a primeira medida que vai tomar? Será uma transição fácil?
Eu julgo que sim. A instituição irá continuar a funcionar de uma forma tranquila. Claro que nestas mudanças de ciclo há sempre um encher de peito e espero conseguir embalar com a energia que sinto neste momento na instituição. É mais fácil quando temos nas equipas reitorais algumas pessoas que permanecem. Atenção, com isto não estou a defender que esse é o processo natural. Obviamente tudo se faz de mudança e tem de haver renovações. Se eu não tivesse integrado uma equipa reitoral, poderia estar um pouco apreensivo. Não estou. Tenho a consciência que conheço bem a instituição. No plano de ação tive a oportunidade de enunciar os objetivos estratégicos para o ensino, para a investigação, para a comunidade e para a governança.

No início do mandato, o reitor cessante fez um périplo pela região e visitou as 16 Câmaras Municipais do Algarve. Tenciona fazer isso?
Equaciono. Mas antes, tenciono fazer um périplo pelas empresas e pelas organizações e associações empresariais. Será seguramente o meu primeiro périplo.

O lema «estudar onde é bom viver» continuará válido no seu mandato?
Nós temos uma missão que é a razão de existência da universidade, uma casa do conhecimento, de transferência do conhecimento, uma instituição que recebe financiamento público que é escasso. Mas ao receber esse financiamento público, tem uma responsabilidade acrescida perante a sociedade e a comunidade envolvente. Para lá dessa missão, eu senti necessidade de definir uma visão: como é que eu gostaria que a universidade fosse daqui por quatro anos. Não será uma rotura. Numa frase muito simples, a minha visão é promover a sustentabilidade, através da inclusão e da inovação no ensino e na investigação, num clima de proximidade. E é tudo aquilo que todos os colaboradores, os funcionários não-docentes, e os professores têm que sentir. Tudo o que fazem deve contribuir para promover a sustentabilidade do ponto de vista económico, social e ambiental. E naturalmente, temos de ter um fio condutor que vai ganhando maturidade e que se vai sedimentando. «Estudar onde é bom viver» vai continuar a ser o slogan e o lema da UAlg, tal como o lema da minha campanha, «juntos faremos a diferença».

Como lidará com os problemas do subfinanciamento?
Explicitei isto no meu programa de ação. Só para se ter uma ideia, no período de 2010 a 2012, a diferença entre a dotação do Orçamento de Estado (OE) e os salários, era de 4 milhões de euros a menos. Ou seja, a universidade já há muito tempo que utiliza o esforço direto das famílias, através da propinas, para pagamentos de salários. Não foi esse o propósito quando há alguns anos atrás, se avançou com as propinas no Ensino Superior. Atualmente, essa diferença é na ordem dos 7 milhões, o que significa que a situação é mais difícil. É certo que o Estado tem tentado que os valores do financiamento sejam colmatados com investimento competitivo através de fundos comunitários. Mas tem de haver alguma cautela porque as instituições estão em regiões diferentes. Umas em phasing out, outras em regiões de convergência. As universidades devem ser tratadas em termos nacionais, por políticas nacionais e não por políticas regionais. A UAlg tem um grande desafio porque não é uma universidade rica. Há pelo país, universidades que têm uma situação financeira bastante interessante, atrevo-me a dizer, e estão em regiões ditas pobres. Nós estamos numa região dita não pobre, o que torna a situação muito difícil. A minha posição será dizer muito claramente que a UAlg está subfinanciada. E que o financiamento público tem que acompanhar o que é feito nos países da OCDE e da União Europeia. É de facto um desafio muito grande que temos pela frente.

Durante os próximos anos, haverá necessidade de rever a oferta formativa?
Ao nível do primeiro ciclo, a oferta está relativamente estabilizada. Tivemos dois cursos novos nos últimos três/quatro anos e portanto não se perspetivam grandes alterações. O que proponho é avaliar o que fizemos desde Bolonha e perspetivar a 10, 15 anos, como é que poderemos estar. Já tivemos mais oferta nas áreas das tecnologias que não desejamos abandonar, mas que o próprio mercado, isto é, a procura por parte dos estudantes, fez retrair. A oferta do segundo ciclo será sempre mais dinâmica.

Quer deixar uma mensagem aos alunos?
Eu espero trabalhar de uma forma muito próxima com a Associação Académica. Tenho muita confiança nos alunos, são os grandes embaixadores da UAlg. É interessante verificar que há um sentimento de pertença que os alunos criam, durante estadas relativamente curtas. Este será um reitor muito, muito presente, que gostará muito de andar por aí fora do seu gabinete e estará disponível para os alunos, para o corpo docente e não-docente, e para comunidade envolvente.

Paulo Águas sucede a António Branco na reitoria da Universidade do Algarve

Paulo Manuel Roque Águas nasceu a 7 de dezembro de 1963, em Portimão. É casado, tem um filho e uma filha. É doutor em Gestão, especialidade em Marketing, pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa, aprovado com Distinção e Louvor, por unanimidade, em fevereiro de 2006. É Mestre em Gestão pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa, com a classificação final de Muito Bom, em março de 1998. Licenciou-se em Economia, pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, com a classificação final de 15 valores, em julho de 1985. Conta com uma larga experiência no exercício de cargos de gestão académica. Sucede a António Branco, eleito reitor a 27 de novembro de 2013, com maioria absoluta. Na altura, concorreram Adelino Canário (2 votos), António Branco (18 votos) e Efigénio da Luz Rebelo (12 votos).

Paulo Águas e António Branco.

Resultados da votação

Terminou na quinta-feira, dia 16 de novembro, o processo de eleição do reitor da Universidade do Algarve (UAlg), que culminou com a vitória do candidato Paulo Manuel Roque Águas, na votação final, em Conselho Geral, com 31 votantes. Foram precisos dois dias para concluir o processo, depois de uma votação inconclusiva na véspera. Na verdade, não foi uma vitória fácil. Isto porque numa primeira fase, a Comissão Eleitoral, órgão do Conselho Geral da UAlg que avalia as candidaturas ao cargo de reitor, rejeitou a proposta de Paulo Águas, devido a este ser professor do subsistema politécnico. No entanto, a candidatura foi aprovada após o então ainda vice-reitor ter apresentado recurso, que acabou por ser aceite por unanimidade. Neste processo apresentaram-se três candidatos, Saúl Neves de Jesus (1 voto); Efigénio da Luz Rebelo (14 votos) e Paulo Manuel Roque Águas (16 votos). A tomada de posse do novo reitor está agendada para o dia 13 de dezembro, data em que também se comemora o 38º aniversário da Universidade do Algarve.

Categorias
Destaque


Relacionado com: