Pastelaria Arade reinventa folar antigo de Monchique

 Casal de jovens empreendedores renovou um espaço bastante conhecido em Portimão. Hoje é referência na doçaria tradicional, com mérito nas receitas próprias .

Patrícia Carvalho embrulha uma nova fornada de Dom Rodrigo. Ágil com as mãos, faz esta tarefa com tanta destreza que até parece fácil. Na Pastelaria Arade, os bolos são sempre frescos e todos os produtos são de fabrico próprio. A casa é conhecida e tem uma carteira fiel de clientes, que apreciam a qualidade, mas também a simpatia e a proximidade.

«O doce fino é pintado à mão», tarefa que já começa a ser rara com a chegada dos aerógrafos. A decoração artesanal «fica melhor, mas claro, precisa de mais tempo», explicou ao «barlavento». Na cozinha, a azáfama é muita.

No salão, saboreiam-se os doces, com chá ou café. O ambiente calmo remete para os salões de chá à antiga e até os azulejos são iguais aos originais e centenários. A empresária não esconde que «os primeiros tempos foram difíceis», quando decidiu apostar neste negócio, em 2004. No entanto, em conjunto com o marido Pedro, conseguiu diferenciar o que fazem. «Temos o Dom Rodrigo, o doce fino, a doçaria tradicional», e foi quase por acaso que lançaram aquele que viria a ser um dos grandes sucessos da casa.

Quando começou a confeccionar os doces, Patrícia Carvalho, natural de Aveiro, optou por usar, às vezes, o recheio de ovos moles. Aproveitou o facto de ter a receita e de saber fazer. «Toda a gente que nasce lá sabe. É como aqui com o doce fino», compara. Começou a vender os «folhados de ovos moles», mas «ao início não foi assim um grande destaque», porque fazia «apenas com o recheio, sem a cobertura», conta. Vendia alguns. Nada de extraordinário. Até que um dia, «tivemos cá um estagiário que começou a cobrir os folhados com os ovos moles. O mérito foi dele, porque eu achei que seria em excesso», admitiu.

Foi, porém, nessa altura que estes bolos começaram a sair, sendo hoje um dos que os clientes apreciam e levam para casa. Patrícia Carvalho afirma ainda que tenta sempre adaptar as receitas às diferentes épocas do ano. Até à chegada do calor, é possível encontrar na vitrine do balcão as filhoses ao domingo, por exemplo. Produto que só é retomado em outubro. E como a Páscoa está à porta, nos próximos dias haverá folares para compor as mesas desta quadra festiva.

«Fazemos uns folares diferentes dos outros, porque levam requeijão na massa», confidencia. E explica porquê: «os meus pais têm uma fábrica de plásticos em Lisboa e dedicam-se muito às caixas para os queijos frescos ou requeijão (cinchos). Então, temos muita facilidade em ir buscá-los aos produtores. Ao fim de semana, quando os meus pais vêm, trazem-nos».

A ideia de inserir este ingrediente surgiu porque a empresária recuperou uma receita antiga de folar, de Monchique, na qual constava o soro. Como consegue obter «requeijão de muito boa qualidade e ainda com algum soro», decidiu experimentar. É um produto que só é produzido nesta época concreta do ano, e por isso vai estar em destaque ao longo dos próximos dias.

A seguir à Páscoa, em maio, será altura das rolhas e doces à base de figo, nos primeiros dias do mês. A sazonalidade não se faz sentir, já que «são poucos os períodos fracos», refere a empresária. Há picos de trabalho durante as festas, o verão e a Rota do Petisco.

A Pastelaria Arade aceita encomendas para casamentos, eventos especiais, bolos de aniversário, por parte do cliente direto. «Temos uma cozinha pequena e apesar de já nos terem pedido, por exemplo, bolos de doce fino para revenda, não dá. Já experimentamos e, para nós, não é bom, porque é difícil de conciliar com o trabalho diário e também não é o nosso objetivo», concluiu.

Da banca em Lisboa aos doces em Portimão

Patrícia Carvalho, proprietária da Pastelaria Arade, recorda todo o processo de renovação desta casa que remonta a 1929. Há duas dezenas de anos não seria, contudo, bem este o projeto que tinha em mente, admite, em conversa com o «barlavento». Formada em gestão de marketing, trabalhava na Caixa Geral de Depósitos, em Alvalade, Lisboa. Às vezes, quando se deslocava ao notário, passava por «uma loja muito gira e pequenina que havia no Saldanha», conta. «Era a mesma coisa que aqui, mas não tinha mesas. Era só serviço de balcão com bolos».

Circunstâncias familiares influenciaram a vinda para o Algarve, e levaram a que tivesse de encontrar um novo desafio profissional. «Tinha que arranjar alguma coisa para fazer. Os meus pais já tinham tido uma casa destas na Parede, e eu gostava mesmo disto, por isso resolvemos procurar um local».

A ex-Pastelaria Almeida, criada em 1929, na baixa de Portimão, estava, em 2004, para trespasse. Outrora uma casa de renome, estava bastante degradada. Mas «chamou-nos logo a atenção pelo aspeto. Tem um pé alto belíssimo. Falámos com a senhoria e acabámos por investir aqui», relembra. Aos poucos, o casal foi restaurando o estabelecimento. Ao fim de cinco anos, fecharam quase três meses para mudar o chão, e «dividir melhor o espaço».

O investimento foi forte para o casal, mas, hoje, 12 anos depois, acreditam que tem compensado. Aliás, esta é uma zona, em frente ao Teatro Municipal de Portimão, onde já se nota alguma requalificação de espaços mais antigos. Também a fachada está a ser reabilitada. Aberta durante todo ano, a pastelaria encerra em janeiro, para férias do pessoal.

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