Os Andrade, fotógrafos de Tavira imortalizados em livro

Damião Cândido de Andrade, recentemente falecido e proprietário da Foto Andrade, na Rua da Liberdade. Neste espaço em breve irá nascer núcleo museológico.

«É uma obra de referência. Agrada às pessoas da terra, e estamos bastante satisfeitos com isso», explica Luís de Melo e Horta, autor do livro «Tavira e os Andrades – 120 anos de fotografia», edição de autor, com a chancela da casa comercial dos irmãos Luís Fernando e Maria Alcide Andrade, e onde também trabalham Miguel e Victor, os dois filhos de Luís Andrade, o principal impulsionador de todas as iniciativas em torno da divulgação da obra familiar.

«Não é um livro em que o texto se impõe às imagens. São as fotografias que conduzem a narrativa», afirma Luís Horta. «Na verdade, eu não sou o verdadeiro autor. Apenas me adaptei ao material que tinha, que o Luís Andrade me trazia, para escrever e contar as histórias. Por isso, os autores são as três gerações de fotógrafos da família Andrade que registaram Tavira e as pessoas. Se calhar o mais rigoroso é dizer que somos todos coautores. Eu assino a obra porque o Luís Andrade, que é um homem muito correto, não se quis apropriar d

1956. Distribuição de pão ao domicílio em Tavira.

as fotografias dos outros familiares e decidiu que o melhor seria eu assumir essa responsabilidade. Mas, na verdade, somos todos autores». Luís de Melo e Horta, jornalista, historiador e funcionário público aposentado, explicou ao «barlavento» a metodologia de trabalho. «Eu fiz uma intervenção no jornal «Lestalgarve» há bastante tempo, nos anos 1980, lembrando os Andrades que tinham uma profícua e já longa vida profissional em Tavira. Mais tarde, voltei a escrever um texto sobre esta família no «Jornal do Sotavento». Eu e o Luís Andrade conhecemo-nos desde pequenos, estudámos juntos e foi no seguimento dessas reportagens que nasceu em ambos a ideia de fazer este livro». Em 2011, também a direção do Palácio da Galeria / Museu Municipal de Tavira se interessou, dando origem à exposição «Fotografar. A família Andrade, olhares sobre Tavira».

O projeto do livro ficou nesta altura adiado. Luís Horta continuava, no entanto, a sentir a necessidade que ainda havia muito por dizer. «Este livro tem quase dois anos de trabalho. Foi escrito com muito cuidado, sem pressas, pois não são boas conselheiras. Primeiro escrevi a história da família Andrade. Só depois começámos, o Luís e eu, a organizar os capítulos e a juntar as fotografias relevantes. Não foi fácil, pois por vezes implicava escolher entre centenas de imagens. Aos poucos o livro ia crescendo e ganhando forma. Posso dizer que ficaram ainda muitas fotografias para mostrar, e com elas outras tantas histórias por contar». O espólio dos Andrades fotógrafos é rico e cruza-se com a história recente da cidade.

A vela em Tavira começava muitas vezes a praticar-se na cidade, no Rio Gilão, com os «lusitos». Um incentivo para que os jovens se tornassem nos velejadores que saíam para a costa e para a competição nacional e internacional.

A segunda parte do livro, sob o título geral «Janela sobre Tavira», está subdividida em 10 capítulos, que abordam a vida militar, o tecido económico e social, a educação e a cultura ao longos dos anos, o desporto, as festas tradicionais e até o património urbano. Folhear esta obra é muito mais do que rever a vida e o fruto do trabalho profissional das várias gerações da família, compilada em quase 400 páginas. A maioria das imagens publicadas são a preto e branco e têm o sabor de outros tempos. A viagem começa em 1900 e termina em 2017.

Ouvido pelo «barlavento», Luís Andrade referiu um dos méritos do trabalho de Luís de Melo e Horta: «Ele tem uma memória impressionante. Lembra-se de tudo, dos nomes das pessoas, das datas dos acontecimentos. E isso o que torna este trabalho rigoroso».

Mercearia Vital Silva, em 1958.

Famílias inteiras, geração após geração, com tradições na atividade da fotografia comercial e documental existem muitas, espalhadas um pouco por todo o país. Mas com um arquivo extenso e bem organizado serão, por certo, poucas. É nesse domínio que os Andrade foram e são exemplares. As diversas gerações souberam igualmente, quase sempre, guardar e conservar milhares dos seus registos. «Apenas um dos ramos originais da família, o de José Damasceno, que não era aliás fotógrafo a tempo inteiro, não tinha o seu arquivo organizado e além disso morreu cedo. A viúva não deu importância ao que o marido teria, e quando ela morreu todo esse património perdeu-se. Desapareceu. Se tivesse sido conservado, o espólio dos Andrades seria ainda mais valioso», conclui Luís Horta.

Para já, apenas é possível adquirir por 60 euros o livro na loja Fotografia Algarve, em Tavira. A edição inteiramente custeada pela família. «Vão-se os anéis, ficam os dedos. Os dedos servem-me para continuar a trabalhar», diz Luís Andrade. E servem também para folhear esta obra, que não será ainda a última iniciativa para imortalizar este legado.

 

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