Obra de José de Guimarães inspira alunos de Portimão a colorir valores sociais

Estudantes do primeiro ciclo concluíram um projeto artístico com uma mensagem humanista: educar para uma sociedade mais justa e harmoniosa.

Nas paredes dos corredores do Centro Escolar do Pontal, em Portimão, nota-se agora a influência dos traços da obra de José de Guimarães, considerado um dos principais artistas plásticos portugueses no panorama da arte contemporânea.

O uso de uma paleta de cores vivas e variadas, as formas e a perspetiva são algumas das características às quais os mais novos foram beber inspiração. Com pincel e tinta deram asas à imaginação e corpo a histórias que chamam a atenção para uma mensagem essencial nos dias que correm. E para pequenos artistas, não se saíram nada mal. O fundamental do projeto, levado a cabo na escola, foi bem interpretado. Os corredores, outrora neutros, são agora o suporte de uma pintura que comunica com os miúdos, nos intervalos de brincadeira e cumplicidade, ajudando também a aliviar um pouco o tempo que passam embrenhados nas aprendizagens da matemática, da língua portuguesa e do estudo do meio. As palavras incentivam a refletir sobre alguns dos valores essenciais como a alegria, compaixão, partilha, carinho, igualdade, democracia e justiça social. Marcarão também o percurso dos alunos que entrarão nos próximos anos letivos, assim como os adultos que por ali possam passar.

Dar o lugar no autocarro a um velhinho, não roubar a bola do colega, não ser vingativo, não passar à frente na fila do escorrega são mais exemplos de civismo e tolerância para com o próximo. Se forem (bem) compreendidos e interiorizados na infância, é certo que, no futuro, não muito distante, poderão germinar em pessoas mais bondosas e justas, melhores profissionais, melhores pais, melhores adultos. «Melhores pessoas», conforme resumiu Isilda Gomes, presidente da Câmara Municipal de Portimão, que no Dia Mundial da Criança (1 de junho). Na altura, a autarca viu os trabalhos, gostou e fez questão de estar presente na apresentação do projeto, no final do ano letivo, na quarta-feira, 20 de junho.

Impressionada não só com os painéis, mas também com as danças, as músicas, o teatro de sombras chinesas, as poesias, Isilda Gomes incentivou os artistas de palmo e meio a manter o espírito criativo. A apresentação continuou também na quinta-feira, com os os alunos das turmas de 3º e 4º anos, a mostrar o que aprenderam, num palco improvisado na Biblioteca Escolar. Na assistência, estiveram os mais pequenos do 1º e 2º ano.

«O que aqui vi ultrapassa largamente as minhas expetativas. O que se está a fazer no Centro Escolar do Pontal, com crianças desta idade, que é trabalhar os valores. Acho importantíssimo, porque além de ensinar os currículos normais, estamos a formar as crianças ou jovens no seu todo, o que é fundamental», considerou a autarca.

Na verdade, para Isilda Gomes, não se transmitem através de «grandes conversas ou preleções. Adquirem-se vivendo-os no dia a dia e eles estão a viver esses valores. É desta forma que conseguimos incutir nas crianças e nos jovens uma postura de vida» mais positiva.

E como não se deve mentir aos mais novos, depois de assistir às apresentações, de viva voz pelos alunos, a presidente, também professora de profissão e formação, afirmou que estava «muito contente pelo trabalho realizado pelos alunos com os professores», bem como «orgulhosa e vaidosa por ter uma escola que dá grandes lições também aos adultos», concluiu.

Ideia amadureceu, cresceu e aglutinou outros projetos

Começou por ser apenas um projeto proposto pelo Centro de Saúde às escolas do concelho de Portimão para desenvolver as competências sociais e emocionais dos alunos, começou por explicar ao «barlavento» a professora do Centro Escolar do Pontal Margarida Batista, também adjunta na direção executiva do Agrupamento de Escolas Poeta António Aleixo. «No ano passado, foram apresentadas quatro histórias aos professores para agarrarem e desenvolverem a nível das competências. Como já estávamos no final do segundo período, ficou a ideia para amadurecermos. Este ano, no início do ano letivo tivemos colocados [no Centro Escolar] alguns colegas de artes e uma docente, a Paula Faria, teve a iniciativa de desenvolver o projeto Encontr’art», afirmou. É um programa ligado ao desenvolvimento das competências emocionais e sociais, associados à arte.
Assim, no primeiro período, os docentes e alunos foram motivados a participar e este começou a tomar outra dimensão no segundo período, contou.

«Foi desenvolvido com algumas ações de sensibilização através de obras de artistas portugueses, principalmente o José de Guimarães. Analisámos as obras, as pinturas dele com os meninos, que observaram e exploraram as emoções retratadas», disse a professora.

Ou seja, foram mostradas imagens de obras do autor português, algo um pouco fora do normal no currículo escolar deste nível de ensino. O projeto remetia ainda para quatro histórias, que retratam quatro ações (roubo de uma bola, dar o lugar ao velhinho no autocarro, roubar a vez na fila do escorrega, por exemplo) e, por sua vez, quatro emoções.

«Cada menino escolheu uma história e uma obra do José Guimarães e, a partir daí, fizeram desenhos que foram melhorados ao longo do processo», recordou Margarida Batista. Participaram 234 alunos das turmas de 3º e 4º ano. No entanto, em paralelo, surgiram ainda dois outros projetos que acabaram por ser integrados neste, um sobre os Jogos Tradicionais e outro ligado às Medidas de Sucesso, do Ministério da Educação. Ou seja, os alunos do 3º e 4º ano iriam trabalhar as competências emocionais para depois passá-las aos mais pequenos, do 1º e 2º ano.

«Isto é, passariam a mensagem aos mais pequeninos através de apresentação de trabalhos, como os que estivemos a assistir. Através de canções, do teatro», de várias formas de arte, resumiu.

Pelo meio, surgiu ainda um outro projeto, do qual a escola tem sido parceira desde há três anos e pelo qual já recebeu três distinções a nível nacional, em cada ano. «Este ano, uma colega do Ensino Secundário [do Agrupamento de Escolas Poeta António Aleixo] ficou responsável por toda a dinâmica do Mais Vale Prevenir do que Remediar», desenvolvido pelo Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC), no qual foi também integrado o projeto Encontr’art.

Aliás, a escola apresentou esta quinta-feira, 28 de junho, em Lisboa «esta parte do projeto Encontr’art, que, de alguma forma, também se cruza no projeto da prevenção da corrupção», concluiu.
O facto é que imaginação não faltou aos alunos. Além de bandas desenhadas, houve performances de dança, teatro, jogo de sombras chinesas, canções e até valeu pegar na mítica canção «Sobe, sobe, balão sobe», interpretada por Manuela Bravo na Eurovisão, em 1979, para passar a mensagem dos valores sociais.

 

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