Núcleo de Imprensa de Faro será nova atração cultural no centro histórico

Antiga capela do paço episcopal, espaço nobre e quase desconhecido, numa das principais artérias do centro histórico, irá albergar novo núcleo expositivo. Evocará a edição do Pentateuco nas oficinas de Samuel Gacon, em Faro, no ano de 1487, evento que marcou o início da imprensa em Portugal. Inauguração está prevista até ao final de outubro.
Paulo Neves, César Chantre e Manuel Brito.

Nasce da vontade de quatro parceiros. O principal é a Diocese do Algarve, que abre a antiga capela episcopal, no número 16 da antiga Rua do Aljube, atual Rua do Município, ao lado e em paralelo ao edifício da Câmara Municipal de Faro. Os outros são a Fundação Portuguesa das Comunicações, que cede, a título de empréstimo, uma parte do espólio expositivo, a editora algarvia «Sul, Sol e Sal» que assegura a dinamização do espaço com o Círculo Cultural Teixeira Gomes, entidade que tornou possível a concretização do Núcleo de Imprensa de Faro.

A ideia tinha sido avançada final de julho de 2017, durante o lançamento de uma reprodução fac-similada do Pentateuco imprenso em Faro em 1487, projeto que juntou pela primeira vez os quatro parceiros.
As obras de reabilitação do espaço, que começaram no início de agosto, não têm passado despercebidas aos muitos turistas que todos os dias sobem e descem aquela artéria. A capela, iluminada por três grandes janelas, guarda um painel de azulejos tricolores do século XVIII, com cerca de dois metros de altura e iguais aos que revestem as paredes das naves colaterais da Sé, ali próxima.

Rui Órfão, arquiteto da Fundação Portuguesa das Comunicações, descreveu ao «barlavento» a museologia que está a ser implementada. «Este era inicialmente um espaço sagrado, religioso que estava desocupado. A ideia é instalar aqui uma oficina de impressão do tempo de Gutenberg, dos séculos XV/XVI, onde a peça principal, que é o prelo, tivesse o protagonismo central, para recriar aqui esse ambiente», explicou. O prelo é uma réplica construída na Alemanha, a pedido da Fundação e apenas precisa de algumas «afinações» para funcionar tal como há 530 anos.

«Tentou-se aproveitar a luz natural, e ao mesmo tempo, ocultar o varandim em ferro para não se tornar um elemento tão intrusivo. Não faz parte da arquitetura original, é algo bastante dissonante e portanto, tentámos que ficasse o mais diluído possível. Ou seja, tentámos reformatar, o espaço unitário da capela».

Por outro lado, «como isto é um projeto que trata da evolução da transmissão do conhecimento desde os primórdios da escrita até à atualidade, há vários momentos. Um dedicado aos copistas, à fase pré-imprensa, que ficará por debaixo do coro da capela, e um principal com a zona de toda a maquinaria». Na vitrine «teremos uma cronologia, uma linha do tempo sobre a escrita», descreveu.

Além disso, há uma máquina do século XIX (1897), «que é o protótipo de um telégrafo tipográfico de sinal Morse, inventado por um monge grego chamado Damaskinos. Nunca esteve em funcionamento e possivelmente só existem dois em todo o mundo. Um está em Lisboa na nossa exposição permanente. O curioso é que utiliza o mesmo princípio do Gutenberg para transmitir mensagens à distância. Ou seja, usa caracteres móveis para escrever a mensagem que são transformados em sinal elétrico. Provavelmente vieram a propósito de um concurso para homologar um aparelho nos correios e telégrafos de Portugal. Este não venceu», a telegrafia exigia rapidez, mas era um método lento.

Segundo Rui Órfão, «aproveitando a efeméride da impressão do Pentateuco, penso que é bom criar aqui em Faro esta memória, que marca o início da modernidade», explicou, sendo que com a cedência deste espólio, a Fundação «cumpre a sua missão estatutária». Um dos espaços servirá como sala pedagógica multimédia, a pensar na visita das escolas da região.

Diálogo cultural

Ouvido pelo «barlavento», o cónego César Chantre, explicou a posição do bispado na criação do novo Núcleo de Imprensa de Faro. «Aquele edifício foi ocupado pelo regime republicano», em julho de 1913, e afetado aos serviços da Marinha, até ser devolvido em 1962. «É neste enquadramento que a antiga capela do Bispo é profanada e evolui para um ginásio, com tudo o que isso acarreta. O atual Bispo, D. Manuel Quintas, na sequência das preocupações dos anteriores bispos, sempre se preocupou com aquele espaço. Aguardámos com paciência uma boa oportunidade. Aconteceu agora. Tenho de sublinhar o trabalho de todas as instituições envolvidas, que foram de uma grande disponibilidade, e o trabalho de ponte que o Dr. Paulo Neves realizou para que a capela fosse, digamos, reavivada, como núcleo museológico».

Confrontado com o facto de ser a Igreja a ceder um local onde será evocada a impressão do Pentateuco numa oficina judaica, o cónego prefere valorizar a «união» e a valorização da «sagrada escritura». «Essa é uma pergunta inteligente porque pressupõe uma preocupação cultural. De facto, a nossa época, está a responder, a empurrar para uma certa unidade da espécie humana. O judaísmo é a origem do cristianismo. Todos os conflitos que existiram na História, entre as duas partes, não têm nada a ver com fé. Jesus Cristo não veio para dividir, mas para unir. As ambições humanas é que levam a dividir aquilo que deveria estar unido. Os judeus têm a sua riqueza cultural, mas sem esta, não seria possível o cristianismo ter a sua. Há, de facto, diversos caminhos para se chegar a Deus, ainda por cima acreditamos num único, no mesmo Deus. O Museu não deve expressar tendências, mas a evolução normal da cultura de um povo. É o que vai acontecer na capela do paço, sendo a igreja católica, um motivo de unidade de todos», considerou o cónego César Chantre.

«A Igreja é a expressão do povo. Independentemente da fé, a Europa é sociologicamente cristã. Isto nem sempre é respeitado por algumas correntes europeias, que neste momento têm alguma dificuldade em enfrentar outras correntes culturais, porque não dão valor à sua própria matriz», argumentou ainda. «Neste momento, essa discussão nem se levanta na defesa daquilo que nos é comum, a sagrada escritura. A bíblia é um livro fundamental para diversas correntes religiosas. Aliás, o fundamentalismo religioso tem a ver com ignorância cultural. Combatê-lo só tem um instrumento: educar e instruir. Todo o fundamentalismo seja político, desportivo, religioso é anti-humano», concluiu.

Edição especial para a inauguração

Para Manuel Brito, responsável da editora algarvia «Sul, Sol e Sal», «isto será a celebração do facto de o primeiro livro impresso em Portugal ter ocorrido em Faro. Nós não só reeditamos o Pentateuco, como quisemos também estar associados a este projeto, juntamente com o Círculo Cultural Teixeira Gomes, que também teve uma intervenção importante. E quando começámos a pensar nisto, tivemos a adesão entusiástica do Bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, e também da Fundação Portuguesa das Comunicações, que tem um espólio fantástico que nos disponibilizou para a criação do núcleo essencial», contou. Agora, «estamos a desenvolver outras matérias para quem visitar este núcleo possa ficar com uma ideia muito

precisa de como é que a escrita e a imprensa evoluíram ao longo da civilização humana». Ainda segundo Manuel Brito, a abertura do Núcleo de Imprensa de Faro, cumpre «o alargamento da missão da Sul, Sol e Sal em se afirmar como dinamizador cultural e editora regional de referência. Queremos estar presentes em tudo o que tem a ver com a cultura e o pensamento sobre o Algarve. Queremos ajudar a marcar os objetivos da região e este é um deles».

Para a inauguração, que deverá acontecer até ao final de outubro, «temos no prelo uma obra de referência, uma História das Artes Gráficas e da Imprensa em Portugal, um estudo em quatro volumes, da autoria do professor José Pacheco».

Esta não é uma é uma obra em exclusivo sobre os jornais como a dos professores Tengarrinha ou Vilhena Mesquita. Trata também dos impressores, dos gravadores, caricaturistas, tipógrafos, e do livro enquanto obra de arte. No total, serão 1500 páginas. «Apesar de o autor ser algarvio, é uma obra que saiu do nosso âmbito, porque se trata de uma história nacional. A sua publicação tornou-se fiável pelo facto de nos termos associado a este projeto». Além disso, um resumo da obra fará o percurso explicativo da exposição.

Autor algarvio devolve honra aos tipógrafos

Desde 1982 que o lacobrigense José Pacheco, investigador, designer e professor universitário em Portimão está a compilar os quatro volumes da História das Artes Gráficas e da Imprensa em Portugal, obra que será apresentada pela editora «Sul, Sol e Sal» na inauguração do Núcleo de Imprensa de Faro. Segundo o autor, um dos méritos deste trabalho é dar o devido protagonismo a uma classe hoje quase esquecida.

«Muitos dos grandes jornalistas que tivemos começaram por ser tipógrafos. Estas pessoas eram extraordinárias. É o caso de Eduardo Coelho, que vai para Lisboa na expetativa de escrever livros. Mas teve de ir para a tipografia para sobreviver. Mais tarde fez uma sociedade com o dono, Tomás Quintino Antunes e funda o Diário de Notícias, que ainda aí está hoje. Teófilo Braga começou cedo e quando foi estudar para Coimbra, ainda fazia uma horas na tipografia. Os tipógrafos estavam sempre a exigir um guia ortográfico, pois tinham grandes conflitos com os escritores públicos. Eça de Queiroz era a maior dor de cabeça, escrevia no português que ele entendia e não permitia aos tipógrafos corrigir palavras que não existiam na altura. Até o nosso Teixeira Gomes teve esse problema, tinha sempre algum desgosto quando recebia as provas. Antero de Quental andou a aprender e chegou a trabalhar em tipografias em França. Ele estava preocupado em perceber os problemas da classe operária. E só poderia saber ao lado deles».

José Pacheco, História das Artes Gráficas e da Imprensa em Portugal, um estudo em quatro volumes.

Por outro lado, a obra também conta a história das artes gráficas, como «a litografia e a fotografia aplicada. A fotografia começou por ser uma arte de impressão. Daí a existência de gravadores até ao início do século XX. Eram eles que faziam as reportagens, faziam uns desenhos, levavam para o atelier, se fosse muito urgente, dividiam a matriz e cada um fazia uma parte. Os grandes repórteres vinham das artes chamadas belas».

A obra, além do interesse académico, poderá interessar a um público mais vasto. «É profusamente ilustrada, dá vida às personagens da História, através da gravura dos jornais, das revistas, dos grafismos». A edição tem o apoio de João Simões da Gráfica Comercial de Loulé.

Ideias para dinamizar o espaço

Segundo José Pacheco, investigador, designer e professor universitário portimonense, que ficará também ligado ao novo Núcleo de Imprensa de Faro, ainda há trabalho que tem a ver com organização e dinâmica expositiva. Ideias, contudo, não faltam. «Este ano, a Imprensa Nacional de Lisboa faz 250 anos da sua fundação. É um exemplo de efeméride interessante para assinalar» no novo espaço.

A memória de grandes nomes também poderá inspirar exposições temporárias em formato físico ou digital, palestras e outros eventos. Por exemplo, a obra de Francisco Nogueira da Silva, que foi um gravador, desenhador e homem de dimensão cultural muito importante. Foi quem introduziu a caricatura na nossa imprensa. Ninguém escreve nada sobre ele». Na opinião de José Pacheco, o Núcleo «pode dar aso a que a cidade de Faro apareça com um ponto de interesse na história da imprensa, que é a primeira grande indústria, ainda antes da revolução industrial. Foi pioneira na sistematização de métodos, na distribuição de trabalhos e na estandardização de artefactos. Ou seja, todas as metodologias relacionadas com a produção em série começam com a produção de livros», considerou.

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