Novos latoeiros não querem deixar morrer o ofício no Algarve

Em Messines, um grupo de cinco formandos está a aprender a arte do latoeiro. O objetivo é reativar este ofício, numa perspetiva de continuidade, e com um design adaptado ao mundo de hoje.

Entre moldes e rabiscos, os velhos ponteiros para marcar a folha de flandres têm qualquer coisa de mágico, na sua simplicidade. «Está a ver como se faz uma peça dimensional? Num instante deixa de ser apenas uma folha de chapa plana e passa a ser uma figura geométrica. É a costura que dará essa possibilidade. A costura vai estar presente em todas as peças de latoaria. Se é difícil? É fazer, ir conhecendo a bigorna de latoeiro, todas as possibilidades e todas as funcionalidades que ali existem. Estes vincos aqui, por exemplo, têm o diâmetro dos arames que se embutiam nas peças, para reforço. Antigamente, apertava-se tudo à mão», descreve com entusiasmo Miguel Cabrita, um dos cinco aprendizes a latoeiros do século XXI, que desvenda os segredos da arte num espaço de trabalho cedido pela Junta de Freguesia de Messines.

As ferramentas, algumas também em extinção, têm uma história, deram vida a centenas de peças, na oficina do senhor Raúl, o último latoeiro da terra, falecido recentemente. A família doou o espólio à Câmara Municipal de Silves, mas antes de irem para o museu, continuam a sua ancestral função em novas mãos.

O projeto «A arte do latoeiro» surge «na sequência de termos percebido que esta atividade artesanal, que até há pouco tempo era representativa do Algarve, estava quase extinta na região. Percebemos também que este ofício tem um grande potencial, se introduzirmos a inovação através do design», explica Graça Palma, da equipa do projeto TASA (Técnicas Ancestrais Soluções Atuais), dinamizado pela empresa Proactivetur.

São apenas cinco formandos, um número «ideal para se fazer um trabalho efetivo de grande proximidade na transmissão de saberes entre mestre e aprendiz». A formação começou no final de março. No total serão 125 horas, incluindo uma componente de design de produto.

«Além de sensibilizar e dar algumas ferramentas de design aos formandos, vamos realizar protótipos de três novos itens que esperamos que venham a ter a possibilidade de produção» após o término da iniciativa.

«Esperamos que os ex-formandos possam já estar a dar resposta a algumas encomendas», embora com o apoio do mestre. Como a organização não encontrou nenhum latoeiro no ativo no Algarve, recorreu a um de Luzianes (Odemira).

António Mestre, de nome e de profissão, 66 anos, foi aprender o ofício aos 11 anos, mal saiu da escola primária. Só a tropa o afastou. Tem tido aprendizes e o filho sabe trabalhar a latoaria. «Aqui as pessoas têm de ir aprendendo com o tempo. Cortar a direito com uma tesoura toda a gente sabe fazer. Cortar redondo, outros feitios já não é tão fácil», embora reconheça mérito e dedicação no grupo que está a ensinar.

O mestre «gostava que a arte não se perdesse, como tantas outras que se perderam no país». «Uma das coisas mais difíceis é a solda a estanho (a solda branca), os ácidos. O zinco puro solda-se de uma forma, todos os ácidos têm o seu uso especifico». Sobre as peças? «Os candeeiros de petróleo têm muita mão de obra. Antigamente quando chegava a esta altura, começávamos a fazer ferradas para ordenhar ovelhas e não tínhamos mãos a medir. Hoje, lá aparece um biscate. Por exemplo, reparar um alambique. Sei fazer muita peça de cobre», diz.

De barba de filósofo, David Fernandes é designer. Inscreveu-se na formação «pelo gosto de uma arte antiga que está a desaparecer. Há hoje materiais muito mais fáceis de trabalhar, mas vejo que pode ser redesenhado para os usos do quotidiano. Acho que é possível a latoaria ser compatível com o mundo atual. É preciso talvez inventar, redescobrir o clássico e procurar misturas entre materiais, trabalhar com cor, tal como se fazia no passado. Coisas mais complicadas, com cortes na chapa, e recuperar a ligação com os líquidos, a água, o azeite, e a luz, numa perspetiva mais ambiental», elementos que sempre fizeram o casamento alquímico da latoaria.

 

«Penso que será possível dar movimento, vou trabalhando e inventando conceitos, ideias, algumas que talvez sejam impossíveis mas que fazem sentido na minha cabeça». Os jarros das enfusas, os regadores, os aljerozes, as banheiras. «O mais complicado é ganhar o jeito. Temos que bater, bater, bater. O mestre está sempre a dizer que a mão dele está ensinada. A nossa ainda não».

A vida mudou. Os objetos de lata perderam lugar no quotidiano moderno. «Mas não é isso que verificamos. Todos os dias temos encomendas de produtos que conciliam as artes tradicionais, os saberes, os recursos endógenos, os materiais. São objetos que mantêm um papel útil do consumidor atual e, de facto, já não está associado ao papel que teve na ruralidade da nossa região», acrescenta Graça Palma.

O objetivo desta iniciativa «é claramente reativar o ofício, para que esta tradição permaneça viva e em funcionamento», sublinha. Em parceria com a Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines e a Câmara Municipal de Silves, «estamos a criar um plano de incentivo, reunindo também outros parceiros a nível local, de forma a criar condições para que eles se instalem e tenham condições para trabalhar» neste concelho. «Estamos muito inclinados para que o espaço de oficina seja aqui. Depois, haverá vários caminhos possíveis. Vamos tentar que haja uma loja, ou vários espaços comerciais, que trabalhem numa lógica colaborativa, porque quase todos têm profissões e disponibilidades diferentes, onde possam estar a fazer meta», diz.

«Estamos a trabalhar num calendário de ações, para dar seguimento já a partir de julho, com a participação em feiras e eventos, além de dar resposta a encomendas».

João Carlos Rodrigues Correia, presidente da Junta de Freguesia de Messines, é o primeiro cliente. Em agosto, no âmbito da festa das tradições, é costume oferecer-se uma prenda aos participantes. «Encomendamos sempre uma peça aos artesãos locais, umas lembranças representativas da terra. Este ano, já que acolhemos este projeto e também em jeito de incentivo, já encomendei 35 enfusas. E eles já assumiram o compromisso».

Dicotomias norte/ sul nas tradições

«Na altura em que estes ofícios eram altamente produtivos, o acesso a matérias-primas e materiais, era mais facilitado. Hoje, no norte do país ainda há produção. Aqui no sul o que se verifica é que já quase não se encontra alguns dos materiais e equipamentos que são necessários», releva Graça Palma.

A folha de flandres, a chapa galvanizada, «ainda há em dois ou três fornecedores no Algarve. Mas uma coisa tão simples, como os rebites de ferro, tivemos bastante dificuldades em encontrar. Daí termos chegado à fala com um jovem latoeiro de Vila Real em Trás-os-Montes, Rui Santos, que nos facultou alguns materiais que não estávamos a encontrar no mercado».

Na sequência desse contacto, o latoeiro de 40 anos, «sendo ele um jovem que subsiste desta atividade, veio cá dar um workshop aos formandos», nos dias 4 e 5 de maio.

Na opinião de Graça Palma, que ao longo da sua vida profissional tem estado ligada a projetos de desenvolvimento no interior algarvio, numa próxima formação, «sem dúvida, será a cana nas suas várias utilizações, sobretudo nos entrelaçados que é urgentíssimo trabalhar. Os cesteiros com quem trabalhamos estão todos na zona de Odeleite e Alcoutim e têm uma idade muito avançada. Temos muita procura de cestaria em cana e não estamos a conseguir dar resposta», admite.

«Tentamos formar as parcerias necessárias com as instituições, no sentido de concretizarmos estas ações de transmissão de saberes, incorporando perspetivas de continuidade, através da integração em circuito comercial, em nichos de mercado que estão mais interessados na valorização das artes tradicionais», acrescenta.

A formação «A arte do latoeiro» foi possível graças a um apoio da EDP, no âmbito do projeto «tradições», e também ao apoio das autarquias envolvidas.

O projeto, além da formação, tem como ações o envolvimento da comunidade, através de workshops abertos à população e uma vertente de sensibilização das gerações mais jovens, através de visitas de estudo dos alunos das escolas de ensino básico, em contexto de oficina.

O workshop tem data provisória para 5 de julho, durante o Mercado Fora de Horas de Silves. Haverá também um documentário sobre esta arte tradicional, em fase de proposta.

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