Nova marca de baterias artesanais nasce no Algarve

Demétrio Nunes, de Armação de Pêra, está a desenvolver dois produtos inovadores para percussionistas: baterias artesanais feitas à medida dos músicos e cera de abelha para «não deixar voar baquetas» durante ensaios e concertos.

Contam-se pelos dedos os fabricantes artesanais de baterias. São objetos grandes e de alguma complexidade na construção. Requerem grande cuidado para soar de forma certa, e além disso, o mercado comercial está inundado de produtos para todas as carteiras. Ainda assim, Demétrio Nunes, ou «Dimi», 39 anos, vai, a partir de 2018, profissionalizar-se e dedicar-se a tempo inteiro à construção destes instrumentos.

«Faço tudo à mão. É isso que torna o meu trabalho único», explica ao «barlavento». Regra geral, a maior parte das baterias que se vendem nas lojas de música são construídas em países como o Japão, China, Canadá e Estados Unidos da América. As de melhor qualidade são bastante dispendiosas e nem sempre satisfazem totalmente os músicos. Tanto assim é que «Dimi» está convicto que há espaço para uma oferta diferente, mais personalizada, tal como acontece, por exemplo, com os instrumentos de corda (quer elétricos, quer acústicos).

A música surgiu na sua vida ainda em tenra idade. Aos 16 anos, começou a tocar bateria, mais tarde fez parte de algumas bandas de garagem e até deu aulas a crianças. Decidiu, contudo, não seguir carreira profissional, por considerar que o mundo da música, por muito que seja aliciante, não proporciona a segurança e a estabilidade de um trabalho convencional. Além disso, a família também sempre foi uma prioridade.

Agora, sente que está na altura de rever as opções de vida. Formado em eletricidade, até aqui tem trabalhado na manutenção e reparação de aerogeradores eólicos, emprego que se prepara para deixar.

Há dias, «Dimi» lançou um produto «único no mundo», que vem a colmatar um problema antigo e comum, entre bateristas de vários estilos de música. Trata-se de uma cera antiderrapante para baquetas. «O maior problema de um baterista, seja amador ou dos melhores do mundo, é que as baquetas, ocasionalmente, escorregam-lhe das mãos! É algo que acontece a todos os que tocam e não há muitas soluções». O produto chama-se «Dimi Wax» e já está patenteado. «No mercado atualmente existem luvas para bateristas, mas têm a grande desvantagem de limitar a sensibilidade do músico. Também há fitas antiderrapantes, mas, durante um concerto ou um ensaio prolongado, tornam-se pesadas, desconfortáveis e têm um efeito de lixa que provoca atrito. Por fim, também há uma espécie de parafina, mas deixa as mãos muito pegajosas. Nada, nada disto me agradava», explica.

Quis arranjar uma alternativa diferente. «Um dia sonhei que conseguia produzir uma cera usando por base mel. Contactei o meu sogro que é apicultor e pus em marcha o meu plano», recorda.

Não foi fácil. Seguiu-se um ano de experiências até conseguir «retirar componentes e chegar à consistência e efeitos desejados». O resultado final é uma cera 100 por cento natural, eficaz e que permite um desempenho muito superior a tudo o que experimentou enquanto baterista.

«Não existe nada semelhante no mundo. Basta esfregar a cera na baqueta e já está! Consegue-se uma super aderência e as mãos até ficam macias e bem cheirosas», garante.

Uma embalagem custa cerca de 7,5 euros (preço de lançamento) sendo que a partir de janeiro terá um custo de 12 euros. O produto não tem data de validade e deverá durar alguns meses. Demétrio Nunes acha que será interessante quer para artistas a solo, quer para estúdios e escolas de música.

Tarolas e bombos à medida

Ainda sobre o projeto das baterias artesanais Demérito Nunes, já tem um nome para a marca: «Dimi Drums».

«Tudo começou porque eu não estava contente com a sonoridade da minha bateria. Comprar um conjunto de uma de marcas de topo, como a DW, TAMA ou Pearl, pode chegar aos 10 mil euros, e não estava disposto a gastar tanto. Pensei, porque não construir a minha própria?», conta. «Comecei a ver tutoriais e a tentar fabricar uma adequada e ajustada ao meu gosto».

Foi então que descobriu uma técnica de construção chamada stave que consiste em juntar ripas de madeira maciça, coladas ao alto, feitas com madeira takula proveniente da África Central. «É muito densa e por isso, perfeita para instrumentos musicais. Tem boa condução do som e tonalidade», explica.

«Cada vez que compro uma tábua, os meus fornecedores ficam aborrecidos porque lhes peço para desmanchar uma palete inteira. Invisto imenso tempo a bater cada uma das tábuas para encontrar a que tem a melhor sonoridade. Não é muito simpático… mas é o meu processo de seleção. Só paro quando encontro a melhor!», conta. Além deste método, também inventou as máquinas de desbaste, de forma a conseguir tirar o melhor partido possível dos materiais.

Fabricar uma tarola, por exemplo, o tambor mais importante da bateria, revela-se um minucioso artesanato que pode levar, em média, um mês a concluir e custar entre 800 a 900 euros.

Um set completo de bateria pode demorar cerca de seis meses a construir. É composto por um bombo, quatro timbalões e uma tarola e custa em média entre cinco e dez mil euros. O músico terá sempre a possibilidade de personalizar todas as opções: o tipo de madeira, as dimensões, as ferragem, os parafusos, tipos de peles, entre muitos outros pormenores. «Será tudo minuciosos, com grande atenção ao detalhe e ao pormenor.

Penso que isso que fará a diferença. Por exemplo, depois do casco estar feito, meço a frequência do som (em megahertz) que é então traduzida em nota musical e escrita na parte de dentro da estrutura, para que as peles possam ser afinadas no tom correspondente. São poucas as marcas que fazem isto. No final, o instrumento levará o meu logotipo, ao lado da assinatura do artista/cliente. Quase todos os grandes bateristas têm materiais de assinatura, criados especificamente para eles», compara.

Neste momento, Demétrio Nunes está a concluir uma tarola para um conhecido baterista português. Deverá ser apresentada ao público no início do próximo ano, no Algarve, assim como um set de demonstração. Em breve, será lançado um website, com loja online. «Dimi» quer ainda colaborar com as maiores produtoras musicais do país e conseguir representar Portugal na maior feira internacional de instrumentos de música do mundo, a «MUMM», nos Estados Unidos da América, onde estão presentes as maiores marcas e as últimas novidades no mundo da música, e onde os produtos são testados por «músicos de topo». Para já, todo o trabalho deste empreendedor pode ser acompanhado através da página de facebook.

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