Nova Junta de Freguesia de Portimão tem poço da época romana

As obras da futura sede da Junta de Freguesia de Portimão, na antiga Casa da Nossa Senhora da Conceição, deixaram a descoberto um poço de época romana, o que atesta que esta ocupação não se limita apenas à zona ribeirinha da cidade.

Já antes, tinha sido descoberto, perto do Rio Arade, um complexo fabril de preparados piscícolas dessa época, não havendo expetativa que, mais para o interior do núcleo da cidade, pudessem vir a ser encontrados mais vestígios.

Esta não foi, contudo, a única descoberta. Sob aquele imóvel, que em tempos recentes foi também um posto dos CTT, encontrou-se ainda uma habitação que data dos séculos XVI /XVII.

As informações recolhidas durante as escavações arqueológicas levam, assim, a que o projeto inicial seja alterado para integrar este espólio. A intenção é tornar o «quintal numa mais-valia para o centro da cidade, e polo de atração de pessoas», explica ao «barlavento» Álvaro Bila, presidente da Junta de Freguesia de Portimão. As alterações serão apresentadas ainda este ano e a empreitada de construção da nova sede deve ser iniciada em 2018.

Desta forma, os vestígios arqueológicos encontrados vão ficar à vista da população, até porque para o autarca «é importante conhecermos a nossa história», por isso, «tapá-la ou danificá-la de vez», está fora de questão.

Aliás, o espaço do pátio interior poderá vir a receber «algumas atividades diferentes e tertúlias», disse ainda Álvaro Bila. A par das obras no exterior e no restante edificado, a Junta passará a ser um espaço interessante para residentes e turistas, paredes-meias com outros espaços de referência como a Igreja Matriz, a muralha da cidade (uma parte também ficará a descoberto nas obras que estão quase a ser finalizadas pela Academia de Música de Lagos num imóvel na mesma rua) e o Teatro Municipal de Portimão, segundo adianta o presidente da Junta de Freguesia.

O contributo da Câmara Municipal de Portimão prestado àquele órgão autárquico detentor do edifício foi essencial para a reviravolta no projeto. Isto é, por a empreitada estar situada numa zona de sensibilidade arqueológica, na área intramuros tardo-medieval de Vila Nova de Portimão, na envolvente do local do primeiro edifício da Misericórdia de Portimão, bem como próximo do adro da Igreja Matriz de Portimão, as obras previstas iriam ter impactos ao nível patrimonial.

Assim, a Junta de Freguesia pediu a colaboração dos técnicos do Sector de Património da Divisão de Museus, Património e Arquivo Histórico do Museu de Portimão, sob a tutela da Câmara Municipal local, na execução das medidas de minimização do impacte da obra sobre o património arqueológico e edificado.

As intervenções arqueológicas realizadas no passado «na envolvente da área do projeto levaram-nos a considerar a existência de um eventual desaterro da zona circundante da Igreja Matriz de Portimão, realizado num momento indeterminado entre os finais do século XIX e o século XX. Esta ação será presumivelmente responsável pelo facto de, nesta área, a rocha se encontrar praticamente à superfície, bem como de os parcos vestígios antrópicos detetados consistirem em estruturas negativas de época moderna/contemporânea», detalha ao «barlavento» Vera Teixeira de Freitas, arqueóloga no Museu de Portimão, responsável pelos trabalhos de escavação arqueológica realizados em duas fases, em 2015 e 2016.

No entanto, a Igreja Matriz, bem como alguns edifícios construídos nos inícios do século XX e situados na zona a sul desta implantam-se «a uma cota altimétrica bastante superior ao verificado na área alvo do eventual desaterro que já referi», afirma a responsável.

No caso do edifício da Casa da Nossa Senhora da Conceição, há uma diferença de cerca de dois a três metros entre o logradouro da habitação e a estrada. «Esta situação levava-nos a crer que, ao contrário das zonas alvo do desaterro, nestes locais poderiam ter sido preservados vestígios da ocupação da área em épocas recuadas», justifica. Sob a direção da arqueóloga, a escavação seria essencial para esclarecer a eventual existência de vestígios arqueológicos na zona do logradouro.

A primeira fase da escavação, em 2015, a intervenção foi realizada até ao substrato rochoso numa área de quatro por seis metros. Nesta altura, os resultados apontaram para a existência de uma casa de época moderna (século XVI-XVII), composta por três compartimentos. Não foram detetados vestígios de cronologias mais recuadas.

«Posteriormente, tendo em conta a necessidade de esclarecer alguns aspetos da realidade urbanística detetada, como a função da área localizada em frente à entrada da edificação identificada, optou-se por ampliar a área de escavação. Esta ampliação da escavação permitiu verificar que a área defronte do edifício de época moderna detetado na primeira campanha, não era ocupada um por arruamento público, mas pelo pátio dessa casa composto por uma zona de calçada», tendo ainda sido encontrado um outro compartimento do edifício, esclarece Vera Teixeira de Freitas.

«No entanto, a maior revelação que esta ampliação da área escavada nos trouxe foi a identificação de um poço de época romana, localizado parcialmente sob a casa de época moderna. Até ao momento, a ocupação romana na zona da cidade de Portimão encontrava-se circunscrita à zona ribeirinha», sendo que «na zona próxima da Igreja Matriz de Portimão não tinham sido identificados quaisquer vestígios de época romana», justifica ainda a responsável pela escavação ao «barlavento». Este achado altera o panorama de ocupação romana na área.

Voltando ao espólio relativo à época moderna, este reflete atividades do quotidiano, sendo composto, na maioria, por louça de cozinha e de serviço de mesa, restos de animais consumidos, bem como alguns metais. «Destaca-se a presença de um fragmento de jarra de grés produzida nas oficinas alemãs do vale do Rhin, principalmente na cidade de Colónia, bem como de duas moedas (patacão) cunhadas no reinado de D. João III e de D. Sebastião», enumera.

Já «o espólio de época romana recolhido no interior do poço era composto por cerâmica de construção (tegulae – telhas romanas) e fragmentos de cerâmica utilitária e também relativa ao serviço de mesa. A cronologia destes materiais abarca o século I d.C. até pelo menos ao século III d.C., sendo a sua proveniência bastante diversa, desde a península itálica, o norte de África até à zona da atual Andaluzia em Espanha», assegura.

Apesar da escavação estar concluída, a arqueóloga garantiu que está prevista a continuidade do acompanhamento da recuperação do edifício, com a presença de um profissional desta área no local, de modo a garantir o registo de quaisquer outros vestígios arqueológicos que possam surgir.

O que está ainda em cima da mesa é a possibilidade de uma seleção dos achados ficar exposto no edifício, para que o público os possa ver e saiba um pouco mais sobre estas descobertas, valorizando-as.

Artigo em colaboração com Alexandra Delgado

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