Nova conduta subterrânea já abastece Zoomarine de água do mar

Depois de 25 anos a depender de camiões-cisterna, o parque temático conta agora com uma conduta subterrânea que abastece os tanques dos animais com água do mar.
Obras da Águas do Algarve na Lagoa dos Salgados, em novembro de 2013.

A par do que acontece na maioria dos parques temáticos deste género no mundo, também o Zoomarine é agora abastecido por uma ligação subterrânea direta, que faz a recolha e abastecimento de água salgada. A captação de água do mar é feita a várias dezenas de metros de profundidade na zona da Lagoa dos Salgados, em Pêra, concelho de Silves, e percorre cerca de quatro quilómetros, ao longo dos quais é transportada por uma tubagem de 16 centímetros de diâmetro, enterrada a três metros de profundidade, até chegar às instalações do parque temático algarvio.

«No passado recente, a cada dois meses recolhíamos água na Marina de Albufeira através de camiões-cisterna. Ou então tínhamos que recorrer à salga de água doce, para os golfinhos e as focas. Comprávamos várias toneladas de sal, misturávamos com água e abastecíamos os tanques. Mas agora é água natural, do meio-ambiente», explica Élio Vicente, biólogo marinho e coordenador das Relações Externas do Zoomarine. «A tubagem é muito mais eficiente do ponto de vista financeiro, a médio e longo prazo, pois a ideia é fazer a recolha de pequenas quantidades diárias, apenas o suficiente para as necessidades do nossos animais marinhos», evidencia.

O processo, embora demorado, foi relativamente simples. «A antiga ETAR de Albufeira situava-se dentro dos nossos terrenos, mas foi desativada há muitos anos. Entretanto, a Águas do Algarve criou uma nova, entre o Zoomarine e o mar. Há alguns anos, acordámos que aquando da criação de uma nova ETAR, por uma questão de comodidade, toda a faixa de servidão com as condutas iria passar diretamente pelos nossos terrenos. E estipulámos que, um dia quando fossemos buscar a água do mar, teríamos acesso à infraestrutura para evitar qualquer tipo de impacto ambiental. Fizemos um acordo com todos os proprietários dos terrenos e colocamos as nossas condutas ao lado das da Águas do Algarve. Ambas as intervenções foram feitas em simultâneo», revela.

A água do mar é então recolhida em uma das margens da Lagoa dos Salgados, cuja existência «é recente. Existe há cerca de 20 ou 30 anos e não é um habitat natural, é artificial. Entretanto, por causa das aves que lá nidificam, foram criadas condições especiais para que durante todo o ano a lagoa tenha água. Existe inclusive um dique para fazer o controlo porque a lagoa tem simultaneamente água doce, salgada e salobra. Há alturas em que é praticamente só água doce, como acontece no inverno quando chove, ou no pico no verão quando há mais pessoas na região e a ETAR faz mais descargas. Nos períodos intermédios de outono e primavera a salinidade é mais elevada. O dique faz a gestão, e em função disso, é possível manter sempre um nível de água constante na lagoa para as aves».

A água é retirada a baixa profundidade e depois filtrada de forma natural pelas areias, garantindo assim reduzidas probabilidades de contaminação. «Vivemos, felizmente, num sítio onde temos uma grande qualidade de água do mar. A que recolhemos já vem filtrada e tem uma química muito estável».

E o qual o uso? «Não fazemos a troca de águas. O que acontece é que quando um tanque perde água, porque evaporou, ou por outro motivo, repomos o nível. O que está previsto é tirarmos 35 metros cúbicos por hora, se necessitarmos, durante a noite», explica. A água é utilizada em «todos os tanques menos os peixes tropicais de aquário».

Agora, todo o processo é «muito mais prático», mas também «mais ético, ecológico e pedagógico», defende Élio Vicente. «Já não é necessário comprar sal e recolher água do mar em camiões. Agora que temos o acordo com todos os proprietários dos terrenos, usamos a faixa de servidão da Águas do Algarve, o investimento que tem uma amortização a muitos anos, faz todo o sentido», defende.

O processo foi negociado com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Regional do Algarve (CCDR), Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Direção Regional de Agricultura, Câmara Municipal de Silves, Câmara Municipal de Albufeira, Águas do Algarve, Policia Marítima, Departamento Marítimo do Algarve, entre outras entidades públicas.

Também a Universidade do Algarve esteve envolvida, uma vez que no âmbito do licenciamento, ficou acordado desenvolver em paralelo um trabalho com investigadores, de forma a partilhar dados científicos para se conhecer a estratificação das várias camadas e materiais que compõem o leito da Lagoa dos Salgados. Descobriu-se por exemplo, que «para apanhar água salgada como queríamos, teria que ser num sítio muito específico. Não é normal fazer prospeções a estas profundidades, nestas zonas, por isso aproveitámos para cruzar os dados científicos para que a Agência Portuguesa do Ambiente ficasse com os registos e informações sobre uma zona desconhecida, que nunca antes alguém tinha estudado».

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