No Algarve também se criam abelhas Buckfast por inseminação artificial

«A grande dádiva das abelhas não é o mel. É a polinização intensiva e seletiva. Sem elas, o mundo não seria o mesmo», diz José Vicente, um algarvio que viveu quatro décadas na Suécia, onde teve contacto com as abelhas Buckfast (Apis mellifera híbrida) e a mentalidade escandinava sobre a apicultura. Viajou para aquele país, com 26 anos de idade, na década de 1970, por conta da Lisnave. Na altura, partiram 30 operários. Nenhum regressou a Portugal. A namorada sueca de José Vicente tinha um primo apicultor que lhe deu trabalho.

Apaixonou-se pelas abelhas e nunca mais conseguiu viver longe delas. Hoje, 40 anos depois, é muito provável que seja um dos únicos, senão mesmo o único, criador de rainhas Buckfast em Portugal. Segundo conta ao «barlavento», «os apicultores suecos são pequenos produtores, apaixonados e amigos do ambiente». Um espírito ecológico que entranhou e que ainda mantém.

Grande defensor e protetor desta raça de abelhas, cria rainhas, em vez de produzir mel. Nos arredores de Burgau, concelho de Lagos, de onde é natural, este septuagenário dedica todo o tempo às abelhas, que não são agressivas, ao contrário das ibéricas, casta predominante no nosso país. E também são boas produtoras. Aliás, esta raça é um híbrido, fruto de uma seleção cuidada e dos cruzamentos que o frade anglo-alemão Adams (Karl Kehrle) realizou ao longo da sua vida, com grande predominância das mansas e produtivas abelhas italianas, aliadas às inglesas, francesas e turcas. A abadia de Buckfast, em Devon, no sul do Reino Unido, tornou-se o habitat desta tentativa bem conseguida de obter abelhas com boa produção de mel e pouco agressivas para o homem.

Na verdade, desde há alguns meses que o «barlavento» acompanha o trabalho de José Vicente. As suas abelhas demonstram ter as características descritas. É possível caminhar por entre as colmeias, sem necessidade de fato ou chapéu protetor. Observámos também a técnica delicada de retirar sémen aos zângãos, para inseminar de forma artificial as rainhas. José Vicente usa incubadoras, marca as abelhas-mestras com cores e números para lhes seguir o ciclo de vida. Substitui as rainhas velhas e fracas por outras mais pujantes, para manter o vigor dos apiários.

Acima de tudo, é um trabalho realizado com muito amor e dedicação, além de um conhecimento profundo, com registos detalhados de tudo o que faz, como se de cães de raça, ou de cavalos de corrida se tratassem. Um apiário tem entre 50 e 60 mil abelhas. Como estes insetos se matam a trabalhar, a sua longevidade dura cerca de dois meses, em março e abril, a apenas 20 dias, nos períodos de maior laboração, em julho e agosto.

Criação de rainhas em laboratório
Para manter a população, a rainha é obrigada a fazer uma postura diária de 2 a 3 mil ovos. Uma colmeia macheada ou zanganeira não possui rainha. As obreiras põem ovos, mas só nascem machos, os zângãos. «O macho não é pai, mas simplesmente um transportador do sémen. Quando fecunda, morre. A rainha é fecundada por um número de machos que podem ir aos 10 e armazena cerca de 10 milhões de espermatozóides numa bolsa chamada espermateca, os quais vão ser usados durante cerca de três anos, que é o tempo máximo do seu reinado. Os ovos passam por essa bolsa», explica. No entanto, «se quisermos obter um zângão, os ovos não passam pela bolsa, porque não são fecundados. Os ovos para obreiras ou rainhas são os mesmos, sendo as últimas o fruto de uma alimentação à base de geleia real».

«As células para a postura destinada a obter abelhas têm cinco a cinco milímetros e meio de lado. Para zângãos, têm oito a nove milímetros. Logo, se colocarmos quadros com uma elevada percentagem de células grandes, a produção de machos aumenta». Assim o faz José Vicente, quando necessita de sémen para inseminar novas rainhas. Depois, solta-os de dois em dois dias. Os que acasalam, morrem. Os outros regressam. Para a obtenção de rainhas, «são colocadas larvas de abelhas, às quais se junta um pouco de geleia real, em quadros com alvéolos especiais, as células reais ou realeiras. Os quadros são introduzidos numa colmeia, onde as abelhas tomam conta deles, durante cinco dias, tempo necessário para fechar a célula, ou opercolar.

Passado esse tempo, as pupas são retiradas e colocadas nas incubadoras, a 34,5º de temperatura e com cerca de 75 por cento de humidade, durante cerca de sete dias. Ao fim desse tempo, temos as novas rainhas, que podem ser fecundadas, ao fim de cinco dias», descreve. Depois, «é tempo para ir apanhar os zângãos, trazê-los para o laboratório e, ao microscópio, retirar-lhes o sémen, preparando as doses que, serão introduzidas nas novas rainhas, fecundando-as. Assim, há a certeza da pureza da raça, pois evita que a rainha venha a ser fecundada, em voo, por zângãos de outras raças, porque abundam as abelhas ibéricas (Apis mellifera Iberica) na zona». As abelhas são anestesiadas, antes de submetidas à fecundação.

A atividade de José Vicente é mais por amor do que por negócio. Contudo, cada vez há mais apicultores e candidatos à sua prática com interesse nesta raça de abelhas e em adquirir rainhas puras. Por vezes, levam-nas já com um pequeno enxame, porque não é tarefa fácil introduzir uma rainha nova numa colmeia. A introdução é feita numa pequena gaiola, cuja abertura é tapada com massa de açúcar.

«O período de adaptação à nova rainha ronda os cinco dias. Para libertá-la, as outras vão comendo lentamente o doce. Contudo, se o fizerem muito rapidamente, antes que a nova rainha tenha tempo de impor a sua presença, podem matá-la», esclareceu-nos este apicultor, que já transmitiu muitos dos seus conhecimentos através de vários workshops. Como curiosidade final, «no Norte da Europa, através de choques elétricos dentro da colmeia, as abelhas ficam irritadas e vão picar, através de uma rede, uma placa de vidro, na qual o veneno fica depositado. Depois de seco, é retirado com uma lâmina e vendido aos laboratórios farmacêuticos, para se fazer cortisona».

Categorias
Destaque


Relacionado com: