«Não tentem achincalhar os bombeiros» diz Fernando Castelo

Durante o último incêndio em Monchique, deparámo-nos com a «lei da rolha», que muitos dizem imposta aos bombeiros pela Autoridade Nacional de Proteção Civil. Ouvimos queixas, muitas, mas em surdina, pois ninguém falava alto. E porquê? Porque os bombeiros voluntários, neste momento, de voluntários têm muito pouco. As suas corporações são compostas na maioria por profissionais assalariados, os quais não podem dar-se ao luxo de colocar em risco os seus postos de trabalho pelo simples facto de dizerem aquilo que pensam.

Até os quadros que se vangloriam de serem voluntários se esquecem de dizer que, em muitos casos, recebem os seus salários através de empregos em organizações convergentes, como os órgãos da dita Proteção Civil.
Dito isto, o «barlavento» procurou uma fonte com conhecimento de causa e sem medo de falar. Fernando Castelo, 56 anos, ex-comandante, formador, e diretor do departamento de psicologia da Fenix – Associação Portuguesa de Bombeiros e Agentes de Proteção Civil (ver caixa), traz os bombeiros no seu ADN familiar, pois o avô paterno era bombeiro.

Depois, o pai, que chegou a adjunto de Comando nos Voluntários de Portimão e morreu em serviço, num acidente rodoviário. Fernando Castelo vestiu a farda, pela primeira vez, aos 4 anos de idade, quando se tornou a mascote da corporação. Aos 16 anos, tornou-se bombeiro e subiu os degraus da hierarquia até ao posto de comandante. Também a sua filha foi bombeira voluntária.

Fernando Castelo foi um operacional nos grandes incêndios de 1998 e 2003 em Monchique. E seguiu este último de perto, embora sem participar.

«Naquele tempo, havia uma coisa fundamental: o orgulho de envergar a farda. Tínhamos menos meios, mas havia uma maior proximidade ao fogo, embora seguindo as regras de segurança. Havia uma vontade inabalável de acabar com o incêndio logo nas primeiras horas. As comunicações eram escassas. Apenas um telefone fixo no quartel e um rádio na única viatura de combate a incêndios. Usávamos um capacete pesado e roupa de cotim. Mais tarde, tivemos uma vestimenta melhor, oferecida pela tropa. Mas havia sempre uma voz de comando e de liderança no local. E esse facto era fundamental para o bom desempenho de todos».

Para este soldado da paz, a gestão do combate aos fogos, a muitos quilómetros de distância, tal como acontece hoje, não tem o efeito desejável nos que estão no terreno. Isto porque sempre foi apanágio dos voluntários terem perto de si quem lhes desse instruções, de forma direta e clara. «Dá força anímica ter alguém do comando junto a si, sentindo a sua ansiedade, e verificando qualquer mudança no comportamento do fogo, orientando-os, dando-lhes segurança», diz.

No formato atual de comando à distância, «as deficiências de comunicação acontecem, as ordens chegam tarde e, por vezes, não chegam, criando um vazio operacional».

No passado, o comandante da corporação local de bombeiros, homem experiente e com grande conhecimento do terreno e das condições e mudanças climatéricas locais, era quem chefiava as operações. E colocava um homem da sua confiança em cada equipa de bombeiros forasteiros sem conhecimento do terreno, para guiá-los com eficácia.

«Para mim, uma falha enorme na forma como se combateu este incêndio foi a ausência do comandante dos bombeiros de Monchique, um homem competente e conhecedor da sua serra», sublinha Fernando Castelo.

«A diferença está em que o comandante de operações que não é da zona, ao ser-lhe comunicado uma projeção no ponto X, terá de ir ver nos mapas onde fica e quais os acessos. O comandante dos bombeiros locais, imediatamente localiza na sua cabeça o local e o modo mais rápido e seguro de chegar até lá. E esse intervalo temporal pode ser fulcral, se o fogo se propagar com grande intensidade. Os meios aéreos largam água, mas são necessárias equipas no terreno a fazer o rescaldo bem feito e na hora, para evitar reacendimentos. Parece que só os elementos do Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro (GIPS) da GNR e as equipas do Corpo Especial de Bombeiros realizaram essas operações, embora houvesse imensos bombeiros disponíveis, parados à espera de ordens. Também não foram usadas como deveriam mais de 30 máquinas de rasto disponíveis, cujos operadores conhecem bem o terreno. Poderiam ter minorado muito a devastação, obstaculizando as mudanças de vento e as voltas que o fogo deu. Nos últimos dias do incêndio, após mudança de comando, essas máquinas trabalharam dia e noite. Porque é que não foram usadas mais cedo? Isso tem a ver com a gestão, a coordenação e com quem dá as ordens», acusa.

Para Fernando Castelo, é fundamental que seja o comandante dos bombeiros locais, conhecedor do terreno, a peça fundamental no tabuleiro de xadrez, com o apoio da restante estrutura, a decidir as prioridades. Mas a realidade não é assim e por isso este ex-comandante admite que não vê um futuro risonho para os bombeiros, porque «cada vez mais, o governo atribui uma força musculada aos elementos da GNR. Veja-se as viaturas de combate a incêndios que lhes foram atribuídas Mas é o Zé Bombeiro que continua a manter no teatro de operações a grande fatia de operacionais. Em Monchique, cerca de 95 por cento de bombeiros usavam fardas vermelhas e azuis, e não amarelas. Mas, com a força que o governo está a dar a estes grupos profissionais, os bombeiros dificilmente serão, no futuro, os elementos de primeira linha, sendo reduzidos ao papel de simples aguadeiros. Oxalá tal não aconteça, porque a história dos bombeiros voluntários em Portugal é grande e rica. É feita por gente que sempre abdicou da família e de tudo os lhe era mais querido para estar presente no primeiro momento das catástrofes. Os nossos bombeiros são, e sempre serão, a grande alma da proteção civil», conclui.

Desumanização evolui ao sabor da tecnologia

Já lá vão os tempos em que os quartéis dos soldados da paz eram as zonas de convívio da família dos membros das corporações e de toda a vizinhança. Poucos eram aqueles com posses para adquirir um televisor e, assim, iam ver as notícias e os programas favoritos à sala de convívio dos bombeiros. Cada vez que soava o alarme, eram as esposas, mães e filhas dos voluntários, em conjunto com as vizinhas, que preparavam o farnel para os operacionais, sem descanso nem gabarolices nas inexistentes redes sociais. Os bombeiros vinham comer ao quartel, por turnos, aproveitando para fazer a higiene e descansar. Hoje, são servidas refeições pré-confecionadas no teatro de operações. Esta prática acaba por provocar maior desgaste físico e psicológico, porque os bombeiros descansam em más condições, estendidos pelo chão, com um olho aberto e outro fechado, incapazes de se abstrair do flagelo ao seu redor, naqueles momentos tão humanos em que é preciso parar para ter, de novo, forças físicas e mentais.

A mais-valia da população

Segundo Fernando Castelo, 56 anos, ex-comandante, formador, e diretor do departamento de psicologia da Fenix – Associação Portuguesa de Bombeiros e Agentes de Proteção Civil, num passado recente, a população local constituía um precioso auxílio aos bombeiros. Alguns populares, conhecedores profundos do terreno, indicavam-lhes as melhores rotas de acesso aos pontos mais difíceis. Faziam trabalho de sapador, apagando pequenos fogos emergentes e ajudando no rescaldo. Hoje, as populações são evacuadas, por vezes, à força,  por agentes da autoridade que nem sabem bem onde estão e quais os perigos reais que enfrentam. Evacuações à bruta que não olham a quem tem dificuldade de locomoção e ignoram a voz daqueles que podem ser um precioso auxílio.

«Bombeiro não tem super poderes. É alguém que faz o bem com aquilo que tem»

A frase, que poderia ser um lema é da Fénix, Associação Nacional de Bombeiros e Agentes de Proteção Civil sem fins lucrativos, tem por objetivo reunir, congregar e apoiar atividades que envolvam os seus associados, promovendo a dignidade dos bombeiros e demais congéneres. Não é, nunca foi, nem tem intenção de ser uma associação representativa de classe. Pretende desenvolver atividades de estudo, análise, acompanhamento e avaliação de desempenho, culturais, de recreio, desporto, saúde, formação e solidariedade social.

Bombeiros estiveram 30 horas à espera de instruções

Fernando Castelo disse ao «barlavento» ter tido conhecimento de uma coluna de bombeiros da Amadora que chegou ao terreno e ficou 30 horas à espera de ordens para avançar. «Isto acaba por ser incómodo para quem vive os bombeiros, conhece os bombeiros e sabe que vieram com uma missão que tardam em cumprir, apenas por falta de diretrizes de quem comandava. Fez-se propaganda do elevado número de operacionais presentes, mas houve muitos em esperas demasiado prolongadas», acusa.

Todos iguais, todos diferentes

A grande diferença entre os bombeiros municipais e os assalariados das corporações de bombeiros voluntários é a seguinte: quando acabam o seu turno e continuam a combater o fogo, os primeiros recebem horas extraordinárias. Os segundos fazem-no em regime de voluntariado, sem remuneração.

Apagar fogos à americana

«Há uns anos, começou a falar-se em apagar fogos à americana», diz Fernando Castelo, ex-comandante, formador, e diretor do departamento de psicologia da Fenix – Associação Portuguesa de Bombeiros e Agentes de Proteção Civil. «É esperar por ele na estrada, para apagá-lo. Só que, quando não conseguimos pará-lo, passa para o outro lado e propaga-se. Se lhe juntarmos as altas temperaturas que tivemos e os ventos, acontecerá o que se viu em Monchique»…

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