Mordomo «não é uma profissão que esteja para acabar» no hotelaria de luxo

João Seixas, 49 anos, começou a carreira em Londres em hotéis de protocolo. Optou por vir trabalhar para o Algarve, por considerar que a região já tem uma oferta de muito alto nível, onde pode exercer a sua profissão. É o mordomo incluído nas duas suites premium do Conrad Algarve.
João Seixas, mordomo do hotel Conrad Algarve no interior da suite presidencial. Quinta do Lago. Foto: Filipe Farinha/Stills.

barlavento: Não há formação formal de mordomo em Portugal, certo?
João Seixas:
Não. Aprende-se no hotel. Há alguns cursos de arranjos florais e esse tipo de coisas. Isto é uma profissão sobretudo quem quer evoluir e dar um passo mais acima na carreira. E não é uma profissão que esteja para acabar. Está para ficar e tem muita procura. Na verdade, acho que temos falta de mordomos no Algarve, pois há mais hotéis que querem disponibilizar este serviço aos hóspedes.

O que é o serviço de mordomo?
Um mordomo é alguém que trabalha muito próximo dos interesses do hóspede. Portanto, não é generalizado, não é estandardizado, mas personalizado. O serviço para cada um é diferente. Adapta-se. Quando o meu hóspede chega, ofereço-lhe uma dádiva que é tempo para estar com os seus, com a sua família. Vou tratar de todos os aspetos triviais da estadia. Por exemplo, as refeições, a preparação das mesas, a arrumação da roupa, toda a organização da suite. E depois, trato de toda a logística das férias, desde contratar iates a organizar excursões. Sou uma espécie de concierge pessoal, por assim dizer.

É um trabalho difícil?
Para lhe dizer a verdade, não considero. Toda a gente gosta de uma certa ordem e das coisas bem feitas à sua volta. Você, eu, todos nós gostamos. Pode haver pessoas que fazem um ou outro pedido que seja mais desafiante de alcançar.

Por exemplo?
Aconteceu-me um cliente querer um jato privado para o dia seguinte. Estávamos em trânsito, de Lisboa para o Algarve e a meio da viagem, a pessoa resolveu que queria ir de imediato para Paris. Portanto, tive de organizar isso com urgência. Quando cheguei ao hotel, já tinha pronto o portfolio dos aviões disponíveis.

O hotel é a sua ferramenta de trabalho?
Sim. Tenho o total apoio de todos, desde a diretora-geral aos restantes colegas. Sei quem é que faz o quê e utilizo todos os departamentos. Tenho uma autonomia total, uma vez que os meus hóspedes representam a fasquia mais alta que recebemos ao longo do ano. É fundamental cuidarmos muito bem deste segmento de mercado. Recebemos pessoas que têm gostos bastante requintados e temos de ter uma capacidade de resposta à altura. O meu hóspede não pergunta se pode. Ele pede. Pede porque pode. Não exige, mas pede. Então a nossa função é entregar, sempre com urgência. Senão, perdemos este mercado.

Há quanto tempo desempenha esta função?
Comecei a função de mordomo em 2004. Comecei a trabalhar em hotelaria em 1997 no grande The Dorchester Hotel, em Londres. Comecei no departamento de comidas e bebidas (food and beverage) no room service, já muito próximo dos hóspedes. Foi uma muito boa escola. Apercebi-me que tinha jeito. Tem que se ter perfil, saber reagir. Não nos deixarmos intimidar pelo hóspedes só porque têm muito dinheiro ou estatuto, ou porque são estrelas de cinema.

O senhor não se intimida?
Não. Não me posso dar a esse luxo, senão não consigo servir bem os meus hóspedes.

Qual é o segredo?
É fácil. Basta ter a perceção que as pessoas, no seu íntimo, somos todos parecidos. Temos necessidades. E eu estou ali para preencher isso. Não estou a pensar se é o Will Smith ou Jack Nicholson. É um hóspede que tem necessidades. No seu íntimo, os clientes são diferentes daquilo que mostram ser nos ecrãs, ou quando aparecem no social. Quando estão na intimidade, são pessoas normais. Gostam de tomar o seu capuccino em pijama e chinelos.

Isso não é muito invasivo?
Não, mas temos de ser discretos acima de tudo. Quando o hóspede chega pergunto-lhe se posso desfazer a mala. Aí tiramos logo as medidas à pessoa. Se disser que sim, significa que quando estiver a vestir-se posso ir até lá e ajudar a compor a gravata, que ele não se vai importar. Se disser que não, traça logo ali a fronteira. Explico que tenho acesso à suite e que venho diariamente mudar as flores e a fruta, por exemplo. Mas eu estou sempre à distância de um telefonema. Por um lado, é mais fácil trabalhar com quem já teve mordomo. Mas é muito mais gratificante trabalhar com quem nunca teve, pois podemos dar aquele fator «uau» e surpreender as pessoas.

Começou a profissão em 2004…
Sim, foi num pequeno hotel em Londres, o Baglioni. Na altura trabalhava no Lanesborough e fui convidado pelo diretor-geral para visitar esse hotel quando ainda estava em construção. Eu nem o conhecia, mas eles chegaram até mim, através do boca a boca, e convidaram-me. Conversámos, e no final o senhor John Frazer escreveu qualquer coisa num papel, dobrou-o e entregou-me. Eu abri e disse-lhe: aceito! Quando estávamos a ir embora é que lhe perguntei, o que é que eu iria fazer? Respondeu-me: você vai ser butler.

E quando chega ao Algarve?
Em 2009. Vim para cá sem trabalho, sequer. Tinha saudades de Portugal. O Algarve tem uma qualidade de vida excecional que eu estava a perder. Chega-se a uma determinada altura na vida, em que começamos a fazer um balanço entre muito bons ordenados, porque é mesmo assim, ou uma melhor qualidade de vida. Decidi que, se calhar, isso é mais importante que o dinheiro. Foi a melhor escolha que poderia ter feito.

Não está arrependido?
Não, não. Claro, sinto um pouco falta da cultura de uma cidade como Londres, dos teatros, das galerias de arte, dos concertos. Tudo isso fazia tudo parte da minha vida, era importante, portanto e foi um pouco difícil a adaptação. Claro, aqui temos outras coisas. O sol, os sabores, a familiaridade também.

João Seixas, mordomo do hotel Conrad Algarve no interior da suite presidencial. Quinta do Lago, Algarve. Foto: Filipe Farinha/Stills.

Fala diretamente com os hóspedes ou com os assessores?
Falo diretamente com os meus hóspedes, sim. Repare, um assessor quer satisfazer os pedidos do empregador, e então vai pedir-me tudo e mais alguma coisa. Mas não é isso que as pessoas querem. O meu cliente é muito específico e só pede realmente o que quer. Isto é mesmo assim. Por vezes, menos é mais.

Fazem-lhe pedidos extravagantes?
Bem, o que é extravagante para uns, para mim são coisas normais. Nenhum cliente me pede para ter uma pirâmide do Egito à frente do quarto, não é? Não me pedem coisas impossíveis. Imagine que tenho um cliente que quer comer cabrito de Manteigas, da Serra da Estrela. É uma coisa que não vem através dos nossos fornecedores normais. Temos de ir por um outro circuito, por outra via. Há quem peça pratos que estão fora das ementas. Às vezes é muito difícil para os chefs aceitar que os meus hóspedes só querem coisas simples. Por exemplo, um frango no churrasco. A tendência é os chefs quererem desossar e fazer algo extraordinário. Mas a pessoa só quer um frango assado. Sardinhas assadas com broa pode ser um pedido extravagante, porque estamos num segmento de luxo.

Quem lhe passou pelas mãos?
O The Dorchester é um hotel protocolar e muitos chefes de Estado de todo o mundo passam por lá. Para mim, um dos mais marcantes foi o Nelson Mandela.

Dada a sua experiência o que acha do Conrad Algarve?
Em Londres, as estadias dos hóspedes eram mais curtas de dois, três dias. Era uma realidade bastante diferente. Gosto muito do Conrad. É sem dúvida, um dos melhores sítios onde já trabalhei. Dá-me a hipótese de prestar aqui no Algarve um serviço de muito alto nível, a que estava habituado. Para mim seria difícil baixar os standards. Já fui assediado por outras unidades, com muito boas propostas. Mas consigo ver que aqui ainda há um desafio. O meu trabalho ainda não está concluído. Estou cá desde a abertura e ainda não me cansei.

Nota diferença na gestão?
Sim, claro. O antigo diretor apresentou o Conrad Algarve ao mundo. A Katherina é uma pessoa voltada para o serviço, para a atenção ao detalhe, para o hóspede e para a consolidação do hotel. Está a dar continuidade ao trabalho do antecessor. Está a fazer o fine tunning, para nos colocar no topo.

Imagine que eu sou seu hóspede…
O senhor chega e eu apresento-me. Serei o seu mordomo durante a sua estada. Se é a sua primeira vez no hotel, vou explicar-lhe um pouco sobre o resort, mostrar-lhe os vários sítios. Depois, vou apresentar-lhe a sua suite. Ofereço-me para organizar a mala, enquanto você toma champanhe no terraço. Se já esteve cá antes, entra direitinho pela garagem e eu estarei lá para o receber. Já terá a sua bebida preferida à espera. A partir daí, pergunto-lhe o que quer fazer durante a estadia. Às pessoas que vêm pela primeira vez ao Algarve, temos de lhes mostrar tudo o que há de bom. A Ria Formosa, por exemplo, é uma mais-valia incrível. Depois temos as grutas e costa magnífica. Regra geral, os hóspedes saem daqui muito, muito satisfeitos. O Algarve deixa-lhes uma marca através dos sabores, das paisagens, dos sítios que visitam, e sobretudo da interação com a comunidade. É muito, muito difícil não regressarem.

Tem clientes que repetem a estada e pedem para ficar consigo?
Sim, bastantes. Há alguns clientes que ficam aqui três, quatro semanas, mas que por razões de ocupação só podem ficar uma semana na suite com mordomo. Portanto, terão de ir para uma outra suite. Mas eu continuo a dar-lhes serviço. Dou uma continuidade.

Quantos hóspedes consegue ter a seu cargo?
Bem, como trabalho com o apoio de todo o hotel, consigo multiplicar-me em muitos (risos). E não é só isso. Já estou a trabalhar para os próximos meses, para clientes que hã-de vir, a marcar restaurantes, as viagens na Ria Formosa…

Os clientes são mais portugueses ou estrangeiros?
Aqui em Portugal não há muitos hotéis que dão serviço de mordomo. São mais estrangeiros e alguns portugueses que já tiveram contacto com este serviço lá fora.

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