Monchique vive estado de calamidade

Vila ficou cercada pelas chamas por duas noites e as principais estradas foram cortadas por diversas vezes. Ao quinto dia de incêndio, combate ao fogo mobilizou 1500 operacionais, mais de 400 veículos e 17 meios aéreos. Ainda assim, tocou os concelhos de Portimão, Silves e Odemira. Números provisórios apontam para mais de 20 mil hectares ardidos.
Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique, desolado com tanta destruição.

«Neste momento, já não sei o que diga. A temperatura muda rapidamente. O vento ora está calmo, ora levanta-se de repente. É um trabalho inglório para os homens e mulheres que lutam contra as chamas. Estamos exaustos, mas confiantes que conseguiremos resolver esta situação e acima de tudo, olhar para o futuro com alguma aspiração de podermos dar a volta por cima. Talvez seja também uma oportunidade para corrigir muitas coisas que foram feitas no passado, e que, se não tivessem sido feitas, talvez não tivéssemos este cenário», disse aos jornalistas Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique, referindo-se às questões do ordenamento florestal, num comentário que resume os últimos cinco dias vividos naquele concelho.

À data do fecho desta edição, terça-feira, 7 de agosto, a Proteção Civil informou, no briefing diário matinal à comunicação social, que mais de 250 pessoas foram deslocadas durante a noite anterior, sublinhado a «elevada complexidade» das operações no terreno.

Vítor Vaz Pinto, na qualidade de comandante operacional distrital de Faro, atualizou a contagem de vítimas, sendo que desde o início do incêndio, na sexta-feira, 3 de agosto, já tinham sido assistidas 79 pessoas, sendo 29 feridos ligeiros, um com gravidade, neste caso, uma septuagenária evacuada de helicóptero para o Hospital de São José, em Lisboa. Na altura, as zonas de Casais e a envolvente da barragem de Odelouca eram apontadas como as mais críticas. Também Rincovo e Nave estiveram na mira das preocupações das autoridades. Ao início da tarde, com o vento a soprar de noroeste com alguma intensidade, as chamas acabaram por se alastrar aos concelhos vizinhos de Portimão e Silves.

Vila cercada pelas chamas à noite
«Se não o atalharem, o fogo vai mesmo parar à vila», anteviu o autarca Rui André, na noite de domingo para segunda-feira, previsão que acabou por se confirmar. «Infelizmente, já tenho alguma experiência e consigo antever os cenários. Agravado pela situação atmosférica, de calor e vento, não tínhamos outra hipótese. Apesar do trabalho incansável de todos os agentes de proteção civil, não foi possível fazer mais. Não se consegue utilizar, nem tirar mais partido dos meios porque o terreno não o permite. São zonas muito acentuadas, muito perigosas e não podemos pôr em risco a vida dos bombeiros e das pessoas. O resto, as habitações e as matas ficam para segundo plano e foi isso que aconteceu», lamentou. E apesar de uma melhoria temporária, o vento que se levantou durante a tarde de segunda-feira reacendeu vários focos, ficando de novo a vila cercada pelas chamas, mais uma noite.

Frentes de fogo ao redor de Monchique.

«Até agora, felizmente, não temos informação da perda de vidas humanas, mas é com algum receio que aguardamos as próximas horas. Sei que algumas pessoas ficaram em casa, recusaram-se a sair [durante as evacuações]», mencionou o autarca. Apesar do cansaço acumulado, percorreu as freguesias afetadas para verificar e confirmar o paradeiro dos mais isolados. Sem ter tido tempo para fazer as contas, Rui André disse ter «conhecimento de casas de primeira habitação perdidas e de um número considerável de apoios agrícolas» destruídos. Os prejuízos maiores são na mancha florestal do concelho. «O que se perdeu é bastante significativo. Nos primeiros dois dias, o fogo foi em zonas de eucaliptal. Daí para cá, ainda não se conseguiu fazer um levantamento exaustivo da área ardida. Há muito fumo e alguns sítios ainda estão a arder», explicou o autarca. As chamas chegaram ao concelho de Odemira, mas entretanto já foram extintas.

Na manhã de segunda-feira, o comando da Proteção de Civil pretendia lançar os meios aéreos estacionados no heliporto de Monchique. Mas tal não foi possível até às 14 horas, devido à cortina de fumo que envolvia a vila, bloqueando a visibilidade. Na altura, o flanco direito do fogo progredia na direção de Semedeiro, Caldas de Monchique, Pocilgais e Vale de Boi. E no flanco esquerdo, as chamas galgavam caminho para São Marcos da Serra. A cabeça do incêndio seguia ao encontro da barragem de Odelouca e da EN124, para Silves, onde acabou por chegar na terça-feira, dia 7. Aliás, o fogo obrigou à evacuação de pessoas, na zona de Falacho. Uma área próxima do Centro Cinegético da Câmara de Silves, em Zebro, Dobra, também foi afetado. Há ainda registo de cortes de luz temporários em Monchique e dificuldades nas telecomunicações.

Elemento do GIPS da GNR segundos antes de entrar num dos helicópteros para uma missão no terreno.

Portimão Arena é abrigo temporário
O Portimão Arena está a servir de porto de abrigo às pessoas que estão a ser evacuadas das suas habitações desde o dia 5 de agosto. Na noite de segunda para terça-feira, 7 de agosto, foram encaminhadas para aquele pavilhão cerca de 140 pessoas, das quais 30 crianças, oriundas das diversas localidades do concelho de Monchique que, em virtude do incêndio, foram obrigadas a abandonar as suas habitações ou hotéis e ali pernoitar. A alimentação está a ser assegurada pela hotelaria da região. A acomodação em camas e colchões conta, de igual forma, com o apoio das Câmara Municipais de Lagoa e Lagos. Isilda Gomes, presidente da Câmara Municipal de Portimão, e todo o executivo permanente, fizeram questão de, igual forma, passar a noite no Portimão Arena juntamente com técnicos da autarquia, da Segurança Social, da Administração Regional de Saúde e da Cruz Vermelha Portuguesa.

Limpezas, afinal serviram para quê?
A pergunta foi colocada pelos jornalistas ao secretário de Estado da Proteção Civil José Artur Neves, ao início da manhã de segunda-feira, 6 de agosto, durante o briefing diário. «Houve um grande esforço dos portugueses na limpeza, que era a absoluta prioridade, um pouco por todo o país. Sempre dissemos que, por ventura, não terá sido possível executar todo esse trabalho. Mas muita coisa foi feita ao longo destes meses. E esse trabalho estará, seguramente, a dar resultados». O governante salientou a iniciativa «Aldeia Segura, Pessoa Segura», que em «zonas muito difíceis, muito complexas, mesmo com a limpeza feita à volta das casas, protege as pessoas que lá possam estar. E não é obrigatório limpar a envolvente à beira das estradas em todos os locais», salientou.


O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, anunciou, terça-feira, 7 de agosto, que as operações de combate ao incêndio de Monchique passam a ser coordenadas pelo comandante nacional da Proteção Civil, José Duarte da Costa. Até à data, as operações foram coordenadas pelo comandante operacional distrital de Faro, Vítor Vaz Pinto, e pelo segundo comandante, Abel Gomes.

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