Moinho dos Ilhéus quer ser o melhor produtor de ostras do país

Unidade de produção no Livramento, entre Olhão e Tavira, ocupa uma propriedade de 26 hectares junto à Ria Formosa.

As ostras do Moinho dos Ilhéus, no Livramento, têm vindo a ganhar notoriedade nas cozinhas de muitos chefs da região. São produzidas numa propriedade de 26 hectares, geridas por Margarida Sena Simões, uma tradutora lisboeta especializada em medicina, que depois de vários anos a trabalhar para a indústria farmacêutica, é agora responsável pelo viveiro. Quando decidiu dedicar-se à produção, nem era grande apreciadora. Mas hoje quase que não passa um dia sem degustar uma ostra. «Têm sabor a mar, e são levemente adocicadas», garante.

O segredo é que nesta unidade, as ostras crescem com bastante espaço, disponibilidade de alimento, luz natural e sem recurso a qualquer maquinaria durante todo o processo. Os viveiros são formados por diversos canais, abastecidos por constantes renovações de água consoante a subida ou descida das marés. Durante a maré vazia, os canais ficam secos e a exposição ao sol é nociva para as bactérias Escherichia coli (E. coli).

«É um processo depurador natural. Isso faz com que as nossas ostras sejam únicas», explica. Aquela área da Ria é «classificada como zona de classe B. Mas com resultados analíticos de classe A, devido à grande qualidade das águas», explica. A cada 15 dias são colhidas amostras para análise em laboratório.

As ostras atingem o calibre ideal ao final de apenas um ano (enquanto que em França demoram três anos), e atingem facilmente um peso entre 60 a 100 gramas. No entanto, a maior que já produziram pesava 500 gramas.

A equipa chefiada por Margarida Sena Simões é pequena e familiar: os dois filhos, um biólogo e mais quatro colaboradores. O número suficiente para garantir cinco toneladas de ostras por mês, isto é, cerca de 60 toneladas anuais. «Poderíamos facilmente produzir 200 toneladas por ano, mas para já não é o objetivo. Preferimos produzir pouco e bom, até porque queremos afinar a nossa ostra».

Apenas parte da produção é exportada, sob origem portuguesa. Esta empresa familiar quer afirmar-se sobretudo no mercado interno. «Claro que seria muito mais fácil enviar tudo para França ou outro país europeu, mas quero que as minhas ostras sejam apreciadas no meu país, que tenham a minha marca e Portugal como origem demarcada», explica ao «barlavento».

Na região, as ostras do Moinho dos Ilhéus podem ser adquiridas nos supermercados Apolónia, diretamente no viveiro ou nos vários restaurantes que as utilizam nos seus menus. É o caso do Hotel Bela Vista em Portimão, do Vila Vita Parc, em Porches, e do restaurante Noélia e Jerónimo, em Cabanas de Tavira.

A grande novidade para 2018 são as visitas guiadas à propriedade, uma parceria com a empresa farense de experiências gastronómicas e culturais Eating Algarve Food Tours, com o custo de 55 euros por pessoa. A experiência inclui uma explicação sobre a história do local, os processos de produção nos viveiros e a degustação de ostras acompanhada por vinhos algarvios. Outro objetivo de Margarida Sena Simões é converter o histórico moinho de marés num centro interpretativo e de acolhimento de visitantes e clientes.

Uma quinta com história

A propriedade onde hoje são produzidas as ostras do Moinho dos Ilhéus foi adquirida pela família de Margarida Sena Simões em 1937. A «primeira turbina a entrar no país» ainda se encontra algures enterrada debaixo do moinho de água. Foi instalada pelo seu pai. Em tempos, o local também albergou uma salina tradicional e, mais tarde, uma produção salineira industrial.

Em 1985 a família celebrou um contrato com uma multinacional norueguesa de aquicultura à qual cedeu os direitos de exploração da propriedade durante um período de 25 anos. Nasceu então, nas águas da Ria Formosa, a maior piscicultura do país, que «chegou a ser a maior da Península Ibérica», hoje desativada e a aguardar que outro investidor queira rentabilizar os vários tanques disponíveis na infraestrutura. Durante duas décadas, serviram para reproduzir robalos e douradas em regime intensivo.

O sucesso, contudo, teve um fim amargo. A empresa norueguesa acumulou dívidas até falir. Depois, o local foi «pilhado» pelos credores, que destruíram uma boa parte das instalações para retirarem toda a maquinaria. Por inúmeras vezes, a família colocou a hipótese de vender a propriedade, mas a atual gestora sempre resistiu. Em 1996, decidiu mudar-se para o Algarve e retomar lentamente a recuperação do sítio do Moinho dos Ilhéus. Apesar da mudança tardia de carreira, a avaliar a atual produção de ostras, a decisão parece votada ao sucesso.

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