Milhos aferventados em cinza são «Maravilha» de Monchique

Concurso é mais uma forma de valorizar a gastronomia local, onde os milhos se destacam por serem cozidos com recurso a uma técnica única. Autarca considera candidatura à lista representativa do património cultural e imaterial da humanidade

A mesa posta à antiga numa casa de família, o ambiente que remota ao passado e os saberes que passaram de geração em geração são destaques do filme promocional de Monchique pré-finalista às 7 Maravilhas da Gastronomia, apresentado à imprensa na quarta-feira, 4 de julho.

«Com dois minutos e meio, mandámos fazer este vídeo que vamos usar para promover a nossa candidatura» à empresa 1000olhos, de Aljezur, que captou imagens desde a produção à confeção dos alimentos, começou por explicar Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique.

Ainda não é certo se Monchique consegue os votos necessários para chegar à etapa seguinte, mas para já, aproveitou-se a oportunidade para valorizar os produtos regionais.
«Obviamente que gostávamos de ganhar, mas não é esse o enfoque principal. Queremos aproveitar mais uma oportunidade para valorizar a nossa gastronomia e estes pratos tradicionais, que apesar de terem muita ligação à serra e à nossa realidade local, são simples», afirmou Rui André.

Isto porque, o destaque serão mesmo os milhos aferventados, porque são cozidos com recurso a «uma técnica ancestral, com cinza. Queremos aproveitar esta ocasião para lançar uma candidatura em que se inscreva esta ação da cozedura na lista representativa do património cultural e imaterial da humanidade. É uma forma de valorizar e agradecer às gerações que foram passando a arte de fazer este milho e, por outro lado, potenciar a gastronomia local, para que nos restaurantes possa ser comercializado e vendido», divulgou o presidente da Câmara Municipal.

Para quem não sabe, os milhos vão a lume em água, sendo que após algum tempo de cozedura é misturada cinza, mais fina, para completar o processo. Depois são retirados, colocados numa rede, lavados e batidos, como se de roupa lavada à mão se tratasse, para que larguem a película (casca) que têm. Voltam à panela para completar a cozedura, sendo misturados mais tarde os restantes ingredientes, conforme a receita pretendida. O paladar é único.

Há até quem esteja a encarar a produção deste milho como uma oportunidade de investimento, pois segundo Rui André, a autarquia está a legalizar um empresário que «vai produzir milhos, com características especificas que permitam ser cozidos mais tarde. Ou seja, passam por um processo de desidratação primeiro». Aliás, os antigos chamavam milho branco à espécie usada nestas receitas.

Logo na chegada à casa senhorial, em pleno centro de Monchique, Rui André avisava que a vereadora Arminda Arez estava na cozinha a terminar a refeição, onde não faltaram os produtos tradicionais, aqueles que vão tentar passar à fase seguinte do concurso numa gala que está marcada para dia 22 de julho.

Os enchidos, os milhos aferventados, o javali, a chouriça foram apenas alguns dos ingredientes usados para aguçar os sentidos, numa refeição confecionada à moda antiga pela vereadora, para um grupo de jornalistas. É uma ementa composta por uma tiborna de chouriça, sopa de feijão, javali estufado com cogumelos silvestres da Serra de Monchique, e os milhos aferventados, rematada por um copo de aguardente de medronho.

A autarquia decidiu apresentar esta mesa sem estar associada a qualquer restaurante, para não dar «primazia a um ou outro, o que podia gerar problemas. Decidimos então que ela fosse a cozinheira e ,de alguma forma, fomos buscar a tradição da cozinheira, da dona de casa», argumentou Rui André.

A refeição foi servida na casa do empresário José Carlos Nunes, que foi reabilitada, sendo uma habitação típica daquela localidade. «Vivi aqui desde os 13 e há alguns anos resolvi não deixar isto cair. Estas casas eram grandes, mas na realidade não o eram, pois tinham muitas casinhas e acabava por ser tudo muito pequenino. Fiz uma redistribuição do espaço, usando também o material que tinha» depois de o reciclar para decoração. Isto porque, aquela casa foi uma mercearia nos tempos antigos, tendo o empresário resolvido conservar alguns dos móveis, como a bancada de atendimento. «Os armários, por exemplo, foram feitos a partir de umas caixas grandes, onde se colocava o milho ou o trigo e que, por sua vez, eram também o local onde eram guardadas as chouriças e morcelas. Cortei-as ao meio e fiz os armários», contou. Foi ainda à mesa que o empresário recordou algumas de outras tradições, em conversas entremeadas com assuntos mais atuais. Afinal de contas, como concluiu Rui André, partilhar uma refeição não se cinge a apenas comer, mas também ao ambiente em redor e é isso que valoriza também as gentes e a mesa de Monchique.

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