«Medronho» volta a Monchique para mais uma rodada

Upgrade da versão apresentada em 2017 atrairá quem gosta de assistir a uma boa história em cenários improváveis.

Quem vive o processo de destila do medronho sabe que há sempre uma boa história a acompanhá-lo. E é de histórias que se alimenta o convívio entre as gentes da serra, de experiências, de partilha e também, claro, dos bons petiscos serranos. É isso que o projeto «Lavrar o Mar» trará de volta ao concelho de Monchique com duas sessões, que sofrem um upgrade criativo e que pretendem cativar tanto quem já viu o espetáculo em 2017, como quem não teve essa oportunidade.

São duas propostas, em dois fins de semana, uma com a clássica história de Romeu e Julieta, adaptada à realidade do medronho como protagonista e a Quinta da Lameira como pano de fundo («Tudo numa noite», 15 a 18 de março).

A outra, na ponta oposta do concelho, pretende relatar as vivências de três mulheres, em três destilarias de Marmelete, que vivem na serra («Serra» de 22 a 25 de março).

Ambas surgem sob o mote «Medronho: As Noites das Facas Longas», uma nova incursão ao mundo misterioso de um fruto alquímico, com poder para impulsionar o estreitamento de laços, a união entre pessoas e a valorização de um produto que continuar a dar ímpeto à economia local.

As palavras, essas, são escritas de novo por Afonso Cruz e Sandro William Junqueira. Haverá mais atores, mais atrizes e músicos a guiar os visitantes numa viagem pelas destilarias, pelos enredos e romances escondidos nos espaços, para encerrar a história e revelar a última gota do drama.

Ao «barlavento» quatro dos intervenientes, os escritores Afonso Cruz e Sandro William Junqueira e os atores Estêvão Antunes e Leonor Cabral, levantaram um pouco a ponta do véu e revelaram que, estão ansiosos por voltar a Monchique.

«Tudo Numa Noite» com nova personagem

Em «Tudo numa noite» haverá três personagens, duas que transitam do ano passado, Teodoro e Filomena, uma nova, Ezequiel, o irmão de Teodoro, que fecha a trilogia e desvenda o drama das duas famílias, distintas pela quantidade de terras das quais são proprietárias, e rivais por causa do medronho. São os Monteiro e os Capote. Giacomo Scalisi, diretor artístico e programador do «Lavrar o mar» desafiou Sandro William Junqueira, escritor que viveu muitos anos em Portimão, a dar vida a este novo episódio, até porque ambos já tinham colaborado noutros projetos anteriores.

«Aceitei e a partir daí começámos a trabalhar», explicou ao «barlavento». Na altura, o jovem escritor ainda não sabia o clássico de Shakespeare seria uma fonte de inspiração. Apesar deste concelho algarvio lhe ser familiar também não conhecia o processo de destila. Nem Sandro, nem os atores Estêvão Antunes e Leonor Cabral.

Apenas o escritor Afonso Cruz, autor dos textos de «Serra», poderia ter alguma noção, pois é produtor de cerveja artesanal. «Também destilo, portanto conheço mais ou menos os processos da fermentação. Ainda assim os processos que são aplicados no medronho foram novos para mim», afirmou. No medronho é diferente, quanto mais não seja porque o segredo não está só no destilar, mas em todo o convívio a que lhe está associado. «Há uma série de tradições, a própria geografia, a fauna e a flora do local. Tudo isso cria um ambiente diferente e inspirador», confidenciou Afonso Cruz ao «barlavento».

A preparação passou por participar, no ano passado, em destilas para conhecer todo o ritual que é necessário efetuar para que a aguardente de medronho seja verdadeiramente boa. Não é qualquer um que sabe fazê-lo. E como o convívio é tão importante, Giacomo Scalisi avançou que, este ano, haverá novidades. No final de cada apresentação os espetadores podem participar num baile à moda de Monchique, que contará com acordeonistas convidados.

Giacomo Scalisi.

Quanto às histórias, estas «são independentes. Surgiu-me a ideia de transportar a história [Romeu e Julieta] que, no fundo perpassa os tempos. Uma história de amor, ao mesmo tempo dramática e adaptada à realidade do medronho. Daí as duas famílias, o medronho diferente. E o que eu quis também desde o início foi, porque sabia que eram monólogos, que a personagem feminina falasse apenas dele e ele apenas dela. Era quase como se houvesse um diálogo, ainda que não estivessem no mesmo espaço físico», recordou. E funcionou, acredita o escritor, que teve oportunidade de assistir ao produto final numa das sessões. «Como escritor uma das coisas que mais gosto me dá é ver as palavras que escrevi, ditas por outra pessoa. Houve uma entrega absoluta» dos atores, confessou.

A trilogia estava pensada desde o início, mas em 2017 não foi possível utilizar as três histórias. Por isso, este ano surge Ezequiel, que permitirá colocar as três histórias no mesmo espaço e juntar as peças soltas.

Segundo Giacomo Scalisi, uma das mudanças, em «Tudo Numa Noite», será que em vez de distribuir os atores por três destilarias, a ação apenas se passará numa. Ou seja, a Lameira será o palco de toda a sessão, ainda que cada ator esteja num diferente espaço e o pública tenha que circular pela Quinta.

Um dos atores será Estêvão Antunes, que dará corpo a Teodoro, o Romeu monchiquense apaixonado por Filomena, cujo irmão é Ezequiel. O novo elemento será interpretado por Pedro Frias, ator também já reconhecido a nível do teatro. Segundo Giacomo Scalisi os ensaios têm corrido bem.

Teodoro ou, na verdade Estêvão Antunes, apercebeu-se que «algumas das destilarias perderam um pouco da identidade por causa da questão higiénica e do azulejo», mas ficou encantado com o que encontrou na Lameira, que preserva a «ancestralidade, com as paredes em pedra, aquela casa antiga e um bom medronho também».

Até o próprio ator está curioso por ver é que o público interpretar este novo upgrade na história. É que na verdade, «ninguém sabe se é ou não» uma história de amor. Tudo Numa Noite é inédito, pois, às vezes, no teatro temos diferentes pontos de vista, mas que até acontecem mais ou menos ao mesmo tempo. Aqui são três monólogos. Não há contracena destes três pontos de vista. São muito demarcados», justificou.

«Serra» e a força feminina

Afonso Cruz seguiu a linha dos dois textos apresentados em 2017 para o argumento deste ano. A novidade é que as três personagens serão femininas. Colocará ênfase, segundo contou ao «barlavento» ao que as mulheres sentem no campo. «Será uma perspetiva feminina sobre a vida na serra e a vida relacionada com o medronho. Já dá voz às mulheres que, muitas vezes, não participam na destila, mas que vivem também este processo. Quer dizer, com todos os problemas também associados, com vantagens, mas também com os problemas», desvendou. A ideia é mesmo contar a perspetiva feminina de um universo muito masculino, mas dos quais as mulheres são parte fundamental. «Acho que na serra as mulheres são fundamentais, são elas que mantêm tudo, a família, as tradições. Têm uma força imensa», descreveu Giacomo Scalisi.

Uma dessas mulheres será Leonor Cabral. No seu caso é uma reposição do ano passado, mas não se escusa a contar ao «barlavento» que «a experiência foi muito emotiva. Principalmente para quem não conhece a tradição do medronho e da destila e foi mesmo uma oportunidade para descobrir todo um ritual alquímico. É a forma como uma bebida alcoólica consegue carregar em si toda essa componente social e essa ligação afetiva. No fundo, no fundo, acho que o medronho é apenas um pretexto para as pessoas estarem juntas».

Uma tradição que junta famílias, não como as que dão nome ao «Tudo Numa Noite», em que as famílias vivem na discórdia, mas aquela que estreita laços, une gerações. «O que encontrei nas destilarias foi um encontro de gerações e percebi que as pessoas que são os especialistas na destila são os mais idosos. Há ali toda uma geração abaixo a frequentar, até as crianças, os netos desses produtores. Esse convívio, familiaridade e a partilha da comida, que também uma coisa impressionante nos dias de hoje» deixam marca, pois todos «abrem as portas da sua adega e de repente oferecerem o chouriço, o pão. É sem dúvida é algo muito precioso a preservar», recorda.

E é isso que «As Noites das Facas Longas» oferecem a quem assiste aos espetáculos, pois permite fazer «esta viagem, esta rota de degustação, ao mesmo tempo que veem as histórias encenadas por atores. Estes, no fundo, vão buscar os convívios destas noites à volta do fogo, do medronho, mais ou menos na penumbra com o cheirinho a lareira», descreveu.

A personagem que interpreta é uma mulher da serra, mas dos dias de hoje, que cresceu à volta destas «tradições, destas mudanças das estações, dos ciclos da natureza e que essa própria mutação da natureza, faz parte do seu ser, mas por alguma razão ela ficou dividida entre o partir e o ficar», conta Leonor Cabral.

Leonor Cabral na Quinta da Lameira.

O texto fala sobre as sensações, os cheiros, as texturas, fala sobre o verão, sobre os frutos abrir e incorpora muitas imagens da natureza a acontecer na serra. E e tudo à volta do medronho. «A certa altura, ela diz que o medronho nos agarra pelos calcanhares. Um paralelo com as coisas que nos agarram emocionalmente a certos sítios. Ou porque estamos agarrados ao nosso sítio de nascença, por motivos quase invisíveis. E este fruto envolve-nos de uma forma quase invisível, enfeitiça-nos assim um pouco», acredita a atriz.

Nos convívios também falou com outras mulheres, aquelas de carne e osso que vivem no alto da serra e que a ajudaram a tirar a personagem do papel. Ouviu histórias de vida, histórias do medronho e dos seus efeitos secundários e para Leonor Cabral foi um privilégio poder participar num ritual como este.

«Cresci nos Açores e conheço um pouco da vida destes sítios, que estão muito ligados à natureza e às matérias-primas. Mas lá nos Açores nunca tinha assistido a nenhuma destila, nem algo semelhante. Nunca tinha acontecido», admitiu. Por isso, Monchique foi mesmo uma descoberta.

Afonso Cruz, ao contrário de Sandro William Junqueira, não conseguiu assistir ao produto final em 2017, mas gostaria de se sentar este ano no lugar do espetador. «Queremos superar, fazer melhor, queremos sempre ter essa dor em escrever, que é uma coisa que, pelo menos no meu caso, me dá felicidade também. Não é uma coisa que eu evito, pelo contrário, é algo que me dá prazer», justificou.

O convívio com produtores, assistir às destilas e a oportunidade de conversar com as mulheres da serra ajudaram à inspiração aparecer. «Os próprios produtores de medronho são muito diferentes porque têm perspetivas diferentes, sabedorias, há uns mais letrados outros com um saber mais empírico. Mas é engraçado ver como essas coisas coexistem e dialogam», disse.

Bilhetes já estão à venda

Os bilhetes para as duas apresentações de «As Noites das Facas Longas» já podem ser adquiridos e custam dez euros, incluindo uma refeição ligeira com várias provas de medronho. As sessões de «Tudo numa Noite» terão lugar entre 15 e 18 de março, com início às 19h00. O ponto de encontro e partida será o Heliporto de Monchique, não sendo permitido que os interessados se desloquem até ao local do espetáculo em veículo próprio. Por esta razão, haverá um autocarro que transportará os portadores de bilhetes até à sessão. Aliás, a própria viagem neste veículo coletivo já por si faz parte da experiência de partilha entre participantes que o «Lavrar o Mar» tem vindo a impulsionar.

Já no caso de «Serra», em Marmelete, entre 22 e 25 de março, às 19h00, o ponto de encontro é a Casa do Medronho, nesta localidade. Para quem não tiver transporte de Monchique para esta zona, a organização disponibiliza autocarro a partir de Monchique, sendo o ponto de encontro o Heliporto. Esta solução é sujeita a inscrição prévia ([email protected] ou 913 943 034) até 18 de março. A partida será às 18h15. Ambos os espetáculos têm 3h30 de duração e são para maiores de 18 anos.

A segunda edição do projeto «Lavrar o Mar», conta com direção artística de Giacomo Scalisi e Madalena Victorino. Tem financiamento do programa «365 Algarve» e também da União Europeia, através do Cresc Algarve 2020, além dos municípios de Aljezur e Monchique.

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