Marinha e moradores dos Hangares reagem às preocupações da Almargem

Associação Almargem teme que a ilha da Culatra venha a ser, de novo, um «polígono de tiro» da Marinha e ameaça queixar-se à Comissão Europeia. Armada desdramatiza e esclarece «os equívocos suscitados» pelos ambientalistas.

Longe vai o verão de 1995, quando a Almargem impediu que a Marinha portuguesa procedesse a mais um exercício de inativação de engenhos explosivos no chamado «polígono de tiro» da ilha da Culatra. Na altura, «ficou aparentemente assegurado que nunca mais essa área seria utilizada para esse fim, na sequência do diálogo que, foi possível encetar com as autoridades marítimas», segundo informou a associação ambientalista, em nota de imprensa, enviada na semana passada (dia 6 de setembro).

Isto depois de na quarta-feira, 30 de agosto, o almirante António Silva Ribeiro, chefe do Estado-Maior da Armada, ter anunciado que a infraestrutura militar no núcleo dos Hangares será reativada, já a partir do próximo ano. A notícia caiu como uma bomba na sede da Almargem, em Loulé, que ameaça agora apresentar uma queixa formal à Comissão Europeia, se necessário, «para impedir mais este potencial atentado às áreas protegidas de âmbito nacional e europeu».

«Passados 22 anos, os rebentamentos e os exercícios militares estarão de regresso. Já não é, de modo algum, admissível, é que a ilha da Culatra, em pleno Parque Natural da Ria Formosa e Sítio Rede Natura 2000, passe novamente a ser alvo de exercícios militares com desembarque de fuzileiros em embarcações de alta velocidade, operações com fogo real e inativação de explosivos. A qualidade de vida dos cidadãos e a vocação da ilha da Culatra para as atividades piscatórias e para um ecoturismo sustentável, são absolutamente incompatíveis com estas ações», defende a Almargem, que entretanto «ficará à espera de uma posição mais clara por parte do governo, em particular do Ministério do Ambiente e do ICNF, sobre esta situação».

Contactado pelo «barlavento», o Capitão-tenente Pedro Coelho Dias, porta-voz da Marinha, desdramatiza as preocupações.

«Os compromissos assumidos desde há 22 anos mantêm-se inalterados e imaculados. A Marinha nunca teve previsto quaisquer tipo de operações de desembarques, de inativação de explosivos, rebentamentos, treinos de tiro, nem exercícios militares com uso de armas de fogo nesta área de servidão militar sita no núcleo dos Hangares da ilha da Culatra», esclareceu.

«A Marinha está empenhada em cuidar e manter limpa a área de um perímetro militar sob a sua responsabilidade que há longos anos não tem tido a atenção devida e mais permanente», sublinhou.

Assim, está prevista «a remoção e limpeza do velho casario existente, com a substituição por um de menor dimensão, em madeira, de forma a reduzir naquele local a mancha visual e a pegada ecológica atual. O abrigo terá instalado energias verdes (eólica e solar)».

Segundo Pedro Coelho Dias, «a Marinha nunca deixou de utilizar aquele espaço, no âmbito das missões de vigilância e patrulha da costa. Prova disso é a utilização frequente do cais militar pelas Lanchas de Fiscalização Rápidas. Esta recuperação servirá para melhorar a atual base de apoio logístico às Lanchas em missão na zona marítima do sul».

O porta-voz da Armada adianta ainda que a presença nos Hangares servirá para apoiar «outros departamentos do Estado com competências específicas em matéria de combate a ilícitos, ou seja, para a condução de operações de segurança marítima de combate ao narcotráfico realizadas no alto-mar, em que amiúde é solicitada à Marinha a disponibilização de capacidades, e meios marítimos de rápida mobilidade, para atuar a longas distâncias a partir da costa».

«Ainda no âmbito do treino, a área é propicia para servir de base de apoio para treinos de pequenas equipas de mergulho e para natação e treinos de equipas de fuzileiros especializadas, com embarcações furtivas, cuja forma de atuação prima pela discrição, e não para desembarques como é afirmado» pela Almargem. «Servirá também para projeção e apoio ao treino realizado no mar, na vertente sul da ilha da Culatra».

Por fim, Pedro Coelho Dias deixou a garantia que «a Marinha atua sempre tendo presente a defesa e a proteção dos cidadãos, e o respeito e preservação do ecossistema marinho é indissociável desta missão, em especial numa área tão sensível e importante como a Ria Formosa. Tudo será feito em escrupuloso respeito pelo ambiente e sem afetar o bem-estar das pessoas».

Moradores dos Hangares tranquilos

José Lezinho, presidente da Associação dos Moradores dos Hangares também respondeu às críticas da Almargem. Em nota enviada às redações, o dirigente esclarece que «a Marinha reuniu previamente com a associação a fim de dar a conhecer o plano de intervenção para reativar as instalações já existentes na Ilha da Culatra, núcleo dos Hangares. Os contactos realizados pautaram- se por um ambiente de cordialidade e de diálogo. Nos termos estabelecidos em protocolo, esta entidade disponibilizou agora um espaço que é seu – a ponte de atracagem – à população para que esta possa desembarcar em segurança. Era uma necessidade tão velha quanto o próprio núcleo, que foi agora atendida, razão pela qual saudamos a abertura da Marinha. Foram dadas garantias à associação que a sua presença terá em conta a normal convivência com a natureza, os moradores do núcleo e a sua segurança. É para nós um orgulho apoiar a atividade desta instituição».

José Lezinho com o Vice-Almirante Henrique Gouveia e Melo.

 

Um cais, duas visões

Ainda segundo o Capitão-tenente Pedro Coelho Dias, porta-voz da Armada, além da recuperação da base no núcleo dos Hangares, «a Marinha pretende requalificar o pontão, que é sua pertença, e permitir a instalação de um finger, lateral ao pontão com uma escada de acesso, em benefício e a pensar na população». Neste aspeto, a Almargem «compreende que a reabilitação do cais militar e a sua parcial utilização por embarcações civis, tenha caído bem junto da população dos Hangares, tendo em conta que desde há muitas décadas, e justamente por imposição da Marinha, as pessoas tinham de se deslocar a pé até aos cais do Farol ou da Culatra para embarcarem. Também se entende correto que a presença permanente de militares nesta zona possa ter uma influência positiva sobre a neutralização do tráfico de droga e outras atividades ilegais. Resta saber que influência esta nova situação terá na política de demolições atualmente em vigor por parte do governo».

Categorias
Destaque


Relacionado com: