«Mar Adentro» é poema coletivo aos oceanos em Aljezur e Monchique

Alcatrazes em voo picado, marinheiros encantados por sereias, náufragos e tempestades na nova produção coletiva do projeto «Lavrar o Mar». Um teatro aquático criado por Madalena Victorino e Remi Gallet com a comunidade em Aljezur e Monchique.
Madelena Victorino e Remi Gallet dirigem a criação de «Mar Adentro» na Piscina Municipal de Aljezur.

Se em maio passado, «Rastilho» propôs um espetáculo musical que era também uma caminhada, com dança, música e teatro em plena natureza, na Bordeira, este ano, o «Lavrar o Mar» aposta num ambiente muito diferente: as piscinas municipais de Aljezur e Monchique.

Segundo a coreógrafa Madalena Victorino, «Mar Adentro» começará «com duas imagens opostas, mas que, ao mesmo tempo, também fazem parte de um mesmo ciclo. Os peixes noturnos nadam nas profundezas das águas, enquanto à superfície, as crianças brincam». Uma cena protagonizada por mães e filhos. De novo, e tal como «Rastilho», este é um espetáculo «puramente comunitário. É todo feito por pessoas daqui, umas mais ligadas à água do que outras», num total de cerca de 50 participantes em cena.

Às vezes, surgem divididas por género, homens e mulheres, «num desenho diversificado e rico que vamos construindo com diferentes formas de agrupar as pessoas», que mimicam animais marinhos. Os mais jovens atiram-se à água, numa cadência de salpicos, como «os alcatrazes que mergulham em busca de alimento». Outro grupo misto, de idades diferentes faz surgir os dedos à beirinha. «São os percebes que aparecem em pequenas pinhas na natureza. Há imagens por vezes muito subtis e outras mais fortes, como é o caso da tempestade, o afogamento e o voltar do náufrago à superfície, que é uma metáfora da própria vida», descreve Madalena Victorino. «Tudo isto forma um conjunto de situações aquáticas que podem não estar conectadas entre si num sentido óbvio, mas que no conjunto, todas elas criam um sentido poético, que nos leva a mergulhar em ideias, sensações, imagens e situações. Por vezes entramos numa zona mais ritualizada ou até espiritual», explica.

«Ninguém nada. Os estilos que conhecemos da natação, os bruços, mariposa, crawl, costas, aqui não existem. A forma como os corpos se sustentam na água são métodos inventados», e desenvolvidos ao longo dos ensaios.

Num palco convencional, os encenadores definem pontos de referência, as chamadas marcações, para posicionar no espaço e no tempo, todos os elementos que compõem um espetáculo, desde a iluminação de cena, os adereços e os atores. Neste cenário, tudo é mais complicado. Até para a experiente Madalena Victorino. «Sim. Aqui, de facto, a água dá-nos uma outra dimensão da escrita coreográfica. É difícil controlar os movimentos na água, quando queremos com eles dizer alguma coisa», diz.

O espetáculo será escuro, embora, «o desenho de luz vai ser muito importante, porque é o elemento que vai revelar, de uma forma muito clara e mágica – esperamos nós -, os corpos dentro e fora de água, como se a piscina fosse um teatro», compara.

A banda-sonora composta por Remi Gallet, músico francês radicado há 10 anos em Aljezur, também é fundamental para transportar o público «para uma outra dimensão». Um mundo onírico onde «os homens são apanhados por sereias e tornados objeto de brincadeira. E onde há salas aquáticas, sítios para dormir debaixo de água. O espaço deixa de ser a piscina municipal, e dá lugar ao imaginário dos oceanos do mundo». Gallet tem ainda ensaiado o Coro Internacional de Aljezur que dará voz ao «Mar Adentro». E não é só. «Temos dois ecrãs que nos dão um dimensão marítima mais intensa».

Diogo Vilhena, realizador do documentário «Mar de Sines», está a produzir os vídeos que fazem parte da criação. Mostrará «imagens dos oceanos e de piscinas várias que existem pelo mundo fora e que tentam, dentro do espaço da vila ou da cidade onde se inserem, criar a ilusão do mar. É para isso que servem», compara. Adereços ligados ao mar? «Só teremos cordas. Vamos ter o Nicolau Costa que é um mariscador, que tem sido um conselheiro, infiltrado no elenco». Já o público terá um lugar reservado nos bancos de piscina, mas ao mesmo tempo, será convidado a movimentar-se.

Antes de tudo começar, «teremos provas de várias águas. Os sítios onde as pessoas se preparam são os gabinetes de curiosidades. Vamos mostrar textos sobre os medos, a aventura, a relação mítica que temos com o elemento da natureza que nos dá a melhor sensação de liberdade, na qual o nosso corpo pesa menos e existimos de outro modo. Será muito estimulante», promete.

Por fim, Madalena Victorino espera despertar novos hábitos na comunidades. «A piscina passará a ser um lugar muito mais frequentado, isso também nos interessa. As pessoas vão perceber que têm ao dispor um equipamento fantástico as autarquias construiram, e que muitas não usufruem», conclui. «Mar Adentro» está agendado para dias 29, 30, 31 março e 1 abril, nas piscina de Aljezur e para dias 5, 6, 7 e 8 abril, piscina de Monchique. É para maiores de 12 anos e os bilhetes custam 12 euros.

Figurinos também dão cor e forma ao teatro aquático

Ana Baleia, a figurinista lisboeta que mora em São Luís, Odemira, é a primeira vez que faz figurinos para um espetáculo aquático e por isso acompanhou alguns dos ensaios. «É um desafio, claro que sim. Este é um ambiente muito particular e é importante ter uma noção da estética deste espaço. Em termos de figurinos, como se trata de piscinas públicas, obrigatoriamente teremos de usar fato de banho e toca, óculos, roupões, toalhas, a indumentária normal da natação. Claro, pensando um pouco em termos artísticos, vamos trabalhar as cores e as formas. Irá mudar conforme a parte do espetáculo. Vamos ter mães com filhos, seniores, um coro, e o elenco principal. Poderá mudar um pouco».

 

«A parte mais plástica gosto de ser eu a fazer. Se houver uma intervenção em série, vou precisar de ajuda». Fez um apontamento com a Madalena Victorino em Odemira. A segunda edição do projeto «Lavrar o Mar», conta com direção artística de Giacomo Scalisi e Madalena Victorino. Tem financiamento do programa «365 Algarve» e também da União Europeia, através do Cresc Algarve 2020, além dos municípios de Aljezur e Monchique.

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