Mapa dos mares algarvios é projeto pioneiro no país

Pescadores, mestres e armadores algarvios uniram-se ao Centro de Ciências do Mar num projeto inédito em Portugal. Um mapa com as designações populares usadas pelos homens do mar em 500 pontos ao longo da costa

«Se as casas, áreas e aldeamentos têm nomes porque é que o mar, que é a vida de tanta gente, não há de ter nomes? E ruas?», questionou o mestre Júlio Alhinho, 58 anos, membro da comissão de validação do primeiro mapa da toponímia dos mares algarvios, apresentado ao público ao final da tarde de sexta-feira, 5 de agosto, na Sala de Seminários da Reitoria do Campus de Gambelas da Universidade do Algarve, em Faro.

Com uma carreira que soma 40 anos, Alhinho considerou «este trabalho muito importante até porque sempre achei que o mapa da costa portuguesa estava muito mal sinalizado. Desde que sou pescador só conheci um mapa, sem atualizações. Nunca vi nada deste género».

A iconografia do novo mapa evidencia o jargão dos pescadores e os nomes que gerações de homens do mar deram ao vários locais ao longo da costa algarvia, e também os termos com que se referem à paisagem marinha. Palavras como Rodãos (rocha isolada), Prezuras (áreas onde se prendem as redes), Cabeços (área elevada e saliente em zonas rochosas), Ramos (gorgónias e corais), são exemplos da gíria.

TOPONÍMIA-DOS-MARES-ALGARVIOS_Online

«Isto é mais do que um mapa. É uma mostra da cultura da comunidade piscatória algarvia. Queremos valorizar estas comunidades e os seus conhecimentos», explicou Jorge Gonçalves, investigador do Centro de Ciências do Mar (CCMAR), especialista nas áreas da pesca e conservação da biodiversidade marinha e coordenador do projeto.

Durante um ano, cinco biólogos marinhos em colaboração com centenas de pescadores dedicaram-se à construção e validação deste documento, que «está agora acessível a toda a comunidade».

A recolha de informação envolveu a realização de 207 inquéritos, durante dois meses, de Aljezur a Vila Real de Santo António. Foram percorridos 17 portos e recolhidos cerca de 7000 entradas de nomes que foram depois reduzidos a cerca de 500 designações, agora presentes no mapa. «Foi com a informação destes inquéritos e a validação da comissão composta por oito experientes mestres que conseguimos realizar este primeiro mapa», referiu Gonçalves.

«O mar tal como a terra tem nomes. Os pescadores dão-lhe vida. Aquele azul infinito que se perde de vista tem nomes dados enquanto referência pelos pescadores. E agora pertencem-nos a todos, mas não deixa de ser uma homenagem e testemunho da identidade e das tradições das comunidades piscatórias do Algarve».

Coroa da Azenha até à Pedra Palametas

Quem olhar o novo mapa ficará surpreendido pela imaginação e a criatividade com que os pescadores algarvios batizaram as várias zonas ao longo da costa algarvia – Mar da Avozinha, Talão da Couve, Pedra das 49, só para citar alguns exemplos.

«Não temos a certeza da origem nos nomes. Alguns podem ter a ver com o tipo de fundos, por exemplo, o Parte e Rasga, supomos que ali não se devem usar redes. Mas há outros como o Corredor da Makro, que era um marco de terra, um enfiamento para terem uma posição. Outros têm a ver com o objeto da pesca como o Mar dos Pargos, ou com os nomes dos pescadores ou dos pesqueiros que descobriram o sítio como Joaquim Tomas ou a Pedra do Gomes. Outros têm a ver com aquilo que os pescadores imaginavam que seria o fundo como o Mar dos Anzóis, entre muitos outros».

Agradecimento aos profissionais da pesca

Durante a apresentação, em Faro, os investigadores do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve fizeram questão de deixar um profundo agradecimento a todos os armadores, mestres e pescadores envolvidos no processo bem como à comissão envolvida na validação da toponímia, os «lobos do mar»: Casimiro António, Martins da Conceição, Délio Garrafa, Francisco José Afonso Graça, Hélder Correia, Júlio Alhinho e Joaquim Manuel Dias, Joaquim Manuel Ramos e Jorge Vieira.

Não ficou descartada a hipótese de vir a existir uma «segunda fase» ou «edição» deste mapa, uma vez que são esperados melhoramentos e novas contribuições após a sua divulgação. Para já, o documento está disponível em formato digital em na plataforma online do CCMAR.

Projeto inédito em Portugal

«Apesar de a ideia ser muito simples, não conheço nenhum projeto do género em Portugal ou no estrangeiro. Para mim este mapa é um marco e será muito útil», disse Jorge Gonçalves. O projeto «Pesca Mar» foi solicitado pela Barlapescas, a cooperativa dos armadores de pesca do Barlavento.

«Disseram-nos que precisavam de mapear os bancos de pesca do cerco, porque está a haver um processo de licenciamento de aquacultura nos limpos em mar aberto, isto é, nas areias onde têm os pesqueiros. Precisavam de ter mapas dos bancos de pesca, dos sítios onde pescam para servir de argumento a outras aquaculturas que venham por aí e fazerem valer a palavra do sector. E assim foi», explicou o coordenador do projeto.

O mapeamento resulta assim de um projeto de investigação do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve, designado por «PESCAMAP – Mapeamento dos bancos de pesca algarvios» (2014-2015), financiado pelo Programa Operacional Pesca (PROMAR) através dos grupos de ação costeira (GAC) do Barlavento e Sotavento algarvios.

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