Mãe Soberana já tem proposta de identidade gráfica

Designer Andreia Pintassilgo vai apresentar ao público a nova imagem que tem estado a desenvolver para a padroeira de Loulé. O projeto pretende também valorizar o nicho do turismo religioso.
O trabalho da designer Andreia Pintassilgo está a ser acompanhado de perto pelo historiador João Romero Chagas Aleixo, especialista na Mãe Soberana.

Resumir numa proposta de design moderno, contemporâneo, uma manifestação religiosa antiga, ainda por cima com a força popular da Nossa Senhora da Piedade, não é um desafio fácil. Mas isso não assustou a designer Andreia Pintassilgo que escolheu tratar este tema no âmbito da sua tese de mestrado em Comunicação para o Turismo e Cultura, na Universidade do Algarve. E antes de defender o trabalho no meio académico, vai dá-lo a conhecer à comunidade, no Café Calcinha, em Loulé, na sexta-feira, dia 13, às 18 horas. A ideia é que a sua proposta possa ser «participado» e aberta a contributos e sugestões. Para já, levanta um pouco o véu ao «barlavento».

A candidatura, em 2015, da Mãe Soberana no inventário do Património Cultural Imaterial (PCI) de Portugal, «trouxe um novo olhar por parte da igreja, dos louletanos, da autarquia» e «acho que há interesse dos diferentes intervenientes» em valorizar esta manifestação «que diz muito daquilo que nós somos». Apesar de participar na festa desde criança, foi «difícil conseguir conceber um símbolo que represente a manifestação. Tem que ser uma imagem singela, leve, fresca, despretensiosa, sem grandes floreados, porque a Mãe Soberana é simples, é do povo e é para todos», considera.

«Fiz um estudo prévio dos vários elementos que a caracterizam. É sem dúvida, a imagem da mãe e do filho, que representam a ressurreição, a morte e a vida. Também as flores estão associadas à Mãe Soberana desde a sua essência, desde os cultos da natureza e da fertilidade, até pela época em que a festa se realiza, a primavera», explica.

Por outro lado, «os homens do andor são representantes da força do povo. São eles quem carrega a Mãe. São oito, número do infinito e da divindade. Tudo isto resulta numa estrela de 16 pontas», o grafismo principal, construído em 12 camadas sobrepostas.

«Refere-se também à estrela que está colocada no cimo do andor. Tem a ver com a simbologia de Deus que é representada pelo sol». Pintassilgo contou com a consultadoria litúrgica dos padres António e Aquino, de Loulé. Segundo a designer, a última tentativa de uniformizar uma linha gráfica foi em 2002, no âmbito da comemoração dos 450 anos de edificação da ermida de Nossa Senhora da Piedade.

Andreia Pintassilgo paginou o livro livro «Mãe Soberana. Estudos. Ensaios. Crónicas» (2016) de João Romero Chagas Aleixo.

Agora, quando estiver finalizado, «gostaria muito que o símbolo fosse adotado de modo a representar a Mãe Soberana, o Santuário e a possível aplicação em diversos materiais e suportes. É como uma bandeira. Não podemos pensar nisto como uma obra de autor, nem como o último grito das tendências do design, mas como uma identidade na qual as pessoas se revejam». A estrela, concebida de raiz em Loulé, será também uma forma de travar a «globalização» de peças massificadas. «Há quem queira levar uma recordação, levar a imagem consigo. Há quem a queira ter junto à mesa de cabeceira, na carteira, dependendo das crenças e da fé de cada um. Ainda não temos uma loja que dê resposta a esta procura», diz.

Neste sentido, Andreia Pintassilgo analisou três casos de estudo. Todos de culto mariano: Fátima, Semana Santa de Braga e Virgen del Rocío. «A Semana Santa tem um site muito completo, no qual nem falta informação sobre os percursos das procissões. O de Fátima faz o streaming de missas em direto, e é possível assistir à distância a toda a vida religiosa», exemplifica. «O que pretendo é sistematizar, organizar a informação sobre a Mãe Soberana que está muito dispersa nos arquivos, na igreja, no museu e colocá-la acessível a todos». Ou seja, o projeto da designer pisca o olho ao nicho do turismo religioso, que, na sua opinião, em Loulé, ainda está por explorar. «A Mãe Soberana pode ser vivida e pode ser um ponto de interesse durante todo o ano. Nas festividades, sem dúvida nota-se que existe turismo, e que tem havido um maior fluxo de visitantes nacionais e estrangeiros. Durante o ano não temos nenhuma fonte de recolha de dados, que nos dê indicadores. Como povo hospitaleiro que somos é necessário criar melhores condições para receber quem nos visita e se interessa por esta manifestação e por este culto», conclui.

«Mãe Soberana: A Força do Amor»: uma retrospetiva em três olhares

João Romero Chagas Aleixo, um dos principais especialistas na Festa da Mãe Soberana de Loulé, apresentou, a 25 de março, o livro de fotografia «Mãe Soberana: A Força do Amor», na qualidade de coordenador e coautor. É uma edição da Câmara Municipal de Loulé, que junta os olhares de Fernando Correia Mendes, um fotógrafo de Setúbal que acompanhou a festa entre finais dos anos 1980 e 90, e os mais recentes de Luís Henrique da Cruz e Vasco Célio. A obra tem origem no dossier de inscrição da Mãe Soberana no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (PCI).

«Uma das coisas que nos foi pedida, foi um conjunto de recomendações para a salvaguarda deste culto. Fizemos sete. Uma delas era a edição de um álbum fotográfico», explica o historiador ao «barlavento». «Aliás, uma vantagem do PCI foi o grande impulso que deu à edição» não apenas desta obra, mas também do livro «Mãe Soberana. Estudos. Ensaios. Crónicas» (2016) que compila «estudos e crónicas publicadas em jornais e revistas» que estavam dispersos.

Em termos de estrutura, Fernando Correia Mendes apresenta, sempre com imagens a preto e branco, analógicas, uma visão histórica e antológica, num olhar artístico, de observador. «Ficou muito material de fora e foi bastante difícil fazer a seleção», admite João Romero. Já as imagens de Luís Henrique da Cruz mostram a intensidade emocional de cada momento. Vasco Célio, cujo trabalho era desconhecido do coordenador, centrou a objetiva nos Homens do Andor, numa viagem entre os bastidores e o esforço da subida. Ambos os livros  estarão à venda no dia 15 de abril, em dois pontos: um junto à Cerca do Convento perto da Câmara Municipal de Loulé e outro junto ao Convento de Santo António.

«A pertença sentimental da Mãe Soberana é do povo»

Questionado sobre, afinal, o que é a Mãe Soberana, o investigador João Romero Chagas Aleixo não consegue resumir. «Costumo utilizar uma expressão do José da Silva Lima, professor da Católica, que serve para os outros cultos identitários. A Mãe Soberana é a autobiografia do povo. Eu acrescento, é a autobiografia do povo louletano. Este modelo de festa não foi criado nem pelos políticos, nem pelo clero. Como disse o poeta António Aleixo, numa poesia muito bonita de 1925: porque a alma desse povo/ vai dentro daquele andor». E cita ainda Lídia Jorge, para explicar o lado profano da festa, numa frase «Mãe Soberana, mesmo que não exista Deus, existes tu». Aqui em Loulé temos «um provérbio que diz: eu não sou católico, mas a Mãe Soberana é outra coisa. É um culto que tem uma grande componente profana», explica. «A igreja nunca foi defensora de um modelo de festa com extravasamento emocional. Nunca foi, gosta de procissões contidas. Esta é alegre. Pouco interferiu no modelo. Houve muito aproveitamento político em vários momentos, durante a monarquia constitucional entre os progressistas e os conservadores. E depois na Primeira República, houve confrontos e presos».
O Estado Novo também não interferiu, até porque «o número um da União Nacional no Algarve» era um «bairrista» de Loulé. «Estou convencido que a procissão até poderia ser mais sisuda do que é hoje. Mas o fervor da subida, sempre foi assim».

Mãe Soberana, uma história ainda por contar

O investigador João Romero Chagas Aleixo começou a recolher artigos de jornais na juventude. «Crónicas, reportagens especiais, poemas, nada de científico. Antes de ter a licenciatura em História, não me aventurava nos arquivos. Ia para as bibliotecas, à procura. Tenho compilados cerca de 2500 artigos de 90 publicações diferentes, entre as quais, o barlavento. O primeiro é de 1889, que é o primeiro número de O Algarvio, o primeiro jornal publicado no concelho de Loulé». Na sua tese de mestrado em História Contemporânea, realizada sob a orientação científica de Fernando Rosas, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com o título «O culto a Nossa Senhora da Piedade, Mãe Soberana dos Louletanos, em Loulé (1806-2013)» abordou um período extenso. Mas ainda há muito por contar. «Ficam 220 anos para trás. Antes do terramoto de 1755, tenho pouca coisa trabalhada. O culto surge em 1553, data da fundação da ermida. As fontes não são muitas, mas há o fundo da confraria que ainda não estudei».

Festas adiadas e excursões em comboio a vapor

«No final do século XIX, nas últimas três décadas, a festa teve de ser adiada em seis ocasiões porque os louletanos, população masculina, imigravam sazonalmente quer para a Andaluzia, Alentejo e Beiras para a apanha das colheitas». Por seis ocasiões, a festa foi adiada para o segundo semestre para não perder o brilho popular. Aconteceu em 1866, 1868 e 1871 (adiada para dezembro); 1875 (novembro); 1876 (agosto) e 1893 (setembro)», diz o investigador João Romero Chagas Aleixo. «Descobri também que já na década de 1890 vinham excursões organizadas de Castro Verde e de Almodôvar. Em 1914 havia bilhetes de comboio especiais, de ida e volta, a partir de todos os apeadeiros do Algarve, porque como sabemos o comboio chega a Faro em 1889, a Vila Real de Santo António em 1906, e a Lagos em 1922. Havia excursões organizadas a saírem das estações de Beja, como bilhetes especiais de ida-e-volta» para trazer os devotos ou fiéis.

Procissão e fogo de artifício

No domingo, 15 de abril, oito Homens do Andor transportam a imagem da Nossa Senhora da Piedade, de volta à sua ermida, naquela que é a festa grande da Mãe Soberana, considerada a principal manifestação religiosa a sul de Fátima. A festa começa com a homenagem do Clube Hípico de Loulé à Nossa Senhora da Piedade, no Largo de São Francisco, no sábado, dia 14, às 22h15. No domingo, pelas 10h00, após a celebração da Eucaristia na Igreja de São Francisco, a imagem sai em procissão para o Largo do Monumento Eng. Duarte Pacheco. É neste local que, às 12h00, haverá uma celebração mariana, enquanto, às 16h00, o Bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, preside à celebração Solene da Eucaristia. Segue-se o momento de consagração à Nossa Senhora e início da grande procissão, que percorrerá as principais ruas da cidade, acompanhada pela Banda Filarmónica Artistas de Minerva. Já no Largo de São Francisco, pelas 18h00, tem início o momento da subida para o Santuário. Às 23h30, haverá um fogo de artifício.

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