LUZA vai dar uma nova luz ao inverno algarvio

Colocar o Algarve no mapa dos grandes festivais internacionais de iluminação artística, é o objetivo de um novo e ambicioso evento marcado para o final de novembro, em Loulé. Chama-se LUZA e é a grande novidade da segunda edição do programa de animação cultural «365 Algarve».
O escocês Beau McClellan,, radicado há 26 anos em Loulé, é hoje um dos artistas de design de iluminação mais consagrados do mundo.

Quem já visitou a mina de sal-gema de Loulé dirá, quase de certeza, que a experiência vale a pena. Agora, imagine o que poderá acontecer, se o coletivo alemão Whitevoid, especialista em criar instalações de luz dignas de ficção-científica, iluminar várias galerias subterrâneas? Esta é apenas uma das propostas da primeira edição do LUZA_Algarve International Festival of Light, a realizar no espaço urbano da cidade de Loulé.

A ideia pode parecer arrojada, mas faz sentido porque quem se propõe a realizar o evento, é o escocês Beau McClellan, um dos artistas de design de iluminação mais consagrados da atualidade.

«Vivo aqui há 26 anos. Tenho cá raízes, e sempre foi um sonho trazer para o Algarve, para Portugal, um evento cultural de alto nível. Quero começar com algo pequeno, mas de muito alta qualidade, com artistas internacionais e também portugueses. A primeira edição vai mostrar as várias possibilidades. O que é o light design? O que faz um light artist? Será uma pequena prova que vale a pena investir em algo diferente, até porque gostaria que tivesse continuidade anual», adianta ao «barlavento».

O projeto do LUZA surge em parceria entre a empresa ByBeau Studio, com sede em Loulé, e a produtora Eventors’Lab. A organização ambiciona que o novo festival se possa vir a juntar ao roteiro europeu dos festivais internacionais de iluminação artística, como o Fête des Lumières (em Lyon, França), o Glow (em Eindhoven, Holanda), o Luci d’artista (em Torino, Itália), por exemplo. Por isso, a data escolhida para a estreia, dias 24 a 26 de novembro, tiveram em atenção o calendário de outros eventos congéneres, de forma a não colidir com festivais já consagrados. O que há para ver?

Beau responde. No Convento de Santo António, «vou montar uma instalação minha, complexa, feita com bolas de vidro soprado, as Dimple (bochecha). É uma instalação imersiva, com 400 a 800 unidades. As pessoas entram no interior. Funciona com música, com sensores, e é uma coisa incrível, cada bola tem um som próprio, parece que tem vida».

Para quem não conhece, as bolas Dimple são a nova coqueluche no inventário da ByBeau. «Foram concebidas de raiz pela equipa e incorporam uma técnica artesanal com tecnologia de vanguarda, que dá nova vida à cor através do nosso sistema LED», explica.

As Dimple em Barcelona.

A instalação MeetDimple foi apresentada pela primeira vez na feira Light+Building 2016, em Frankfurt. A obra brincava com o conceito de senciência, só se revelando quando o espetador ficava quieto (por 45 segundos), e recebeu vários prémios. Foi também a inspiração para outra peça, construída com 1500 unidades Dimple, que fez parte do lançamento do desfile da coleção de 2017 da marca espanhola de vestidos de noiva, a Pronovias. Os Dimple são fabricados em Portugal, em Águeda, tendo sido apresentados pela primeira vez no ano passado.

Tochas, velas e oportunidade para novos talentos

Mas nem tudo será alta tecnologia. Um ponto alto do programa, será ao final da tarde de sábado, 25 de novembro, o Torch Light Parade, uma procissão de tochas e velas, desde o Santuário de Nossa Senhora da Piedade, até ao terreno da feira. Centenas de pessoas serão convidadas a transportar a luz, pelos percursos pedonais até ao final, onde as tochas serão depositadas e formarão uma imagem. Esta instalação será filmada em time lapse, sendo o desenho que formam apenas desvendado no final da intervenção. A produção aponta para um mínimo de 10 mil tochas, que serão adquiridas pelo público, atores vivos desta instalação. O dinheiro angariado será parcialmente entregue a uma instituição de Loulé.

«Para mim, a vela ainda continua a ser melhor fonte de luz do mundo. É romântica, as cores fazem a pele parecer mais bonita. Eu tenho uma relação muito forte com o fogo, pois tive uma empresa de ferro forjado. Será um desfile espetacular, no percurso da Mãe Soberana» diz Beau McClellan. Outro aspeto importante do evento é dar visibilidade ao talento português. «O problema em Portugal é que muitas vezes, os talentos nacionais são desconsiderados. Há uma tendência para se dar mais valor a quem vem de fora, talvez por se achar mais exótico, mesmo que estejam num nível inferior ao que temos no país. Eu quero mostrar que temos gente muito boa e sobretudo, quero dar uma oportunidade aos novos artistas, emergentes».

Como? O festival reserva uma parte à criatividade, o LUZA LAB, que desafia cinco jovens a desenvolverem projetos para várias artérias e pontos de interesse da cidade de Loulé. Cada um terá um orçamento que ronda os 1500 euros.

Por outro lado, na sexta-feira, dia 24 de novembro, o Cine-Teatro Louletano irá acolher uma conferência informal, sobre o tema «Working with Light». O objetivo é juntar à mesa arquitetos e uma toda uma série de interessados no tema da luz. Esta conferência será aberta ao público, sendo a língua oficial o inglês. «A luz é muito importante nas nossas vidas, no entanto, ainda não a sabemos utilizar.

Por exemplo, na maioria dos espaços públicos, a iluminação é muito má. Quero mostrar como qualquer ambiente pode melhorar, apenas com a luz, por exemplo, numa sala de espera de uma clínica. Existe uma disciplina chamada Chromotherapy que estuda como a temperatura da luz nos afeta», diz Beau.

Exemplo do trabalho da empresa portuguesa Grandpa’s Lab.

«Hoje em dia, os LED dão para fazer tudo. A evolução desta tecnologia foi uma coisa incrível. E hoje em dia, a cada duas semanas há novidades. No início, quando comecei a trabalhar, a primeira geração era tudo muito mau. As cores nunca eram as indicadas, eram muito frias, havia muitos problemas de controladores (drivers). Em termos de consumo, acho que nos próximos anos, toda a iluminação será LED».
Resta dizer que logo no dia 24 de novembro, será apresentada a Árvore de Natal de Loulé na Cerca do Convento do Espírito Santo, um projeto da  ByBeau e o único que ficará em funcionamento até dia 6 de janeiro, quando terminam as festividades de Natal.

Em relação ao programa, para já, estão confirmados os artistas Grandpa´s Lab (Portugal); WHITEvoid interactive art and design (Alemanha); Ledscontrol (Espanha) e Saco (Canadá).

Instalação pela alemã WHITEvoid interactive art and design.

Para o desenvolvimento do LUZA, além do apoio do programa 365 Algarve «e sem o qual, esta primeira edição não seria viável», a organização conta com a Câmara Municipal de Loulé (apoio financeiro, operacional e logístico); Eurologistix (apoio técnico e fornecimento de material audiovisual); Climar (apoio técnico e fornecimento de material para instalações); CUF (cedência das instalações da Mina de Sal-gema para instalação artística e apoio operacional nesse espaço) e do Conrad Algarve (Hotel oficial). Em breve estará disponível um website com a programação definitiva e informação detalhada.

Beau McClellan, um artista de nível internacional com sede em Loulé

Já fez um pouco de tudo: músico, escultor de ferro forjado, designer de iluminação, construtor de cenários, diretor criativo. «A minha vida sempre foi esquisita, mas sempre ligada às artes. Hoje uso toda essa experiência para materializar o que faço», diz o escocês fundador do atelier ByBeau. Um marco da sua carreira é o projeto «Reflective Flow», uma escultura interativa com 2300 cristais óticos e 82 mil luzes LED, no Qatar. O candelabro que percorre o edifício dos escritórios Al Hitmi, viria a tornar-se no maior do mundo, detentor de um recorde do Guinness. Seguiram-se trabalhos na Cidade Marítima do Dubai e no Hotel Trump, do atual presidente dos Estados Unidos da América. De repente «já não éramos uma empresa pequena e fixe, tínhamos escritórios de vendas no centro de Londres, um estúdio de pesquisa e desenvolvimento em Montreal, uma fábrica no sul da China e distribuição própria em Bruxelas. Era de loucos».

Em 2013, decidiu abrandar. Vendeu a Beau McClellan Design, e resolveu dedicar-se apenas à criação. Em janeiro de 2014, fundou a ByBeau Studio. «Fizemos um esforço consciente para ficarmos pequenos, mas ainda temos a flexibilidade e a capacidade de trabalhar em projetos de grande escala em todo o mundo», garante. A empresa louletana estabeleceu uma parceria com a Climar, que agora produz e distribui os seus produtos, e com quem já trabalhou para criar o Dimple. Desta união resultou também uma unidade de pesquisa e desenvolvimento no norte de Portugal, a HAB50, onde testam nova tecnologia e designs.

Atualmente, a ByBeau tem projetos a decorrer em em Lisboa, e em Londres, em parceria com a consultora Foundry. «Todos os projetos que tenho feito pelo mundo fora, são pensados aqui no Algarve, em Portugal, com a minha equipa, que é portuguesa. Eu sou apenas uma pequena parte», conclui. Beau manifesta-se satisfeito por não ter trocado Portugal por outro ponto da Europa. «Eu acho que quando a vida é mais difícil, é preciso inventar mais, é preciso puxarmos mais por nós e por aquilo que somos capazes de fazer. Se for tudo fácil, as ideias nunca vão ser arrojadas. Acho que um pouco de dificuldade faz-nos pôr as mãos na terra. Portugal deu-me oportunidade de chegar ao mais alto nível com a minha arte. Agora, quero fazer uma algo para as pessoas», diz.

União entre turismo e cultura «faz todo o sentido»

Embora nos últimos dois anos Beau McClellan tenha passado a maior parte do tempo a trabalhar em projetos de alto nível no estrangeiro, não deixa de ter uma opinião positiva sobre a iniciativa «365 Algarve». «Para mim, é fundamental fazer a ligação entre turismo e cultura. Faz muito sentido. Acho que não há muito futuro nos package holidays, tipo Albufeira. Isso ainda poderá trazer dinheiro à região, mas não atrai as pessoas que têm mesmo interesse na cultura. Acho muito importante atrairmos um turismo diferente», até porque «Portugal está muito na moda, lá fora».

Em termos de design, temos alguns dos melhores a nível mundial. Os vinhos estão cada vez melhores para exportação. Sabes, acima de tudo aquilo que sempre tivemos, o sol, as praias, a boa comida, acho que esta é uma boa altura para mostrarmos ao mundo tudo o que sabemos fazer. Chegar onde estamos hoje, sempre foi o meu sonho para Portugal. Sempre quis que subíssemos o standard em tudo, e isso está a acontecer agora. Portanto, é altura de mostrar que temos uma grande cultura aqui, e uma forte comunidade artística que se afirma a nível internacional», sublinha.

Calendário do LUZA e acessibilidades

De 24 a 26 de novembro, à exceção das instalações de interior, todas as restantes estarão em funcionamento desde o pôr-do-sol até às 24 horas. As instalações de interior estarão em funcionamento das 10 às 24 horas. O acesso será gratuito, exceto na mina de sal-gema, que estará sujeito a pré-marcação em slots de seis pessoas cada 10 minutos, com pagamento de um valor de entrada simbólico. Esta marcação e pagamento será efetuada online através de sistema de ticketing, evitando assim filas e problemas de sobrelotação. A ação com as tochas, estará sujeita à realização de um donativo para uma instituição de Loulé. Todo o percurso estará sinalizado, havendo zonas para parqueamento nos extremos do percurso pedonal.

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