«Loulé Sem Fronteiras» é projeto pioneiro em Portugal

O intuito é ajudar a acolher, integrar e fomentar iniciativas interculturais com os imigrantes oriundos de países exteriores à União Europeia. Projeto tem como área de atuação concelho de Loulé e recebeu um financiamento de 248,637.58 euros do Alto Comissariado para as Migrações e município louletano.

«Loulé Sem Fronteiras» é uma iniciativa que arrancou em setembro deste ano e que visa a inclusão, coesão e integração de emigrantes nacionais de países terceiros (NPT’s) e as suas famílias. Conta com a ajuda de cerca de 20 parceiros locais e é financiado pela União Europeia (75 por cento do Fundo Asilo, Migração e Integração) e pela Câmara Municipal de Loulé (25 por cento). Tem a duração de cerca de 3 anos e apenas um mês após o início do projeto na prática, 171 indivíduos já estão a ser acompanhados. Todos os serviços são gratuitos e mais do que providenciar informações práticas, o projeto pretende desenvolver inúmeras ações que fomentem a integração dos indivíduos com sucesso na comunidade local.

Os titulares dos agregados familiares, maioritariamente, têm idades entre os 25 e os 45 anos e são na sua esmagadora maioria nepaleses, brasileiros e africanos. «Todos têm o 12º ano e muitos possuem qualificações a nível do ensino superior». «São pessoas exemplares, educadas, que acatam muito bem as regras e respeitam a nossa cultura». Existem também muitos cidadãos oriundos da Tailândia, Índia, Nigéria, Venezuela, Colômbia, entre outros. Procuram empregos sobretudo na indústria hoteleira (limpezas) e restauração (cozinha), bem como construção civil.

O projeto é coordenado por uma equipa de quatro profissionais: Nelson Horta (educador social e coordenador do projeto), Karla Caiado (assistente social), Vasco Cary (Educador Social) e Lisete Brito (Psicóloga). Nelson Horta, 44 anos, há 8 que colabora com a Fundação António Aleixo. Explica ao «barlavento» que esta é a primeira candidatura da Fundação para ajudar emigrantes. O «Loulé Sem Fronteiras» surge de uma candidatura feita em parceria com a Fundação António Aleixo e o gabinete de ação social do município louletano», diz. Desta forma, os emigrantes poderão continuar a receber apoio, ainda mais especializado e coordenado.

Neste momento, 50 por cento dos emigrantes chegam sinalizados por parte de outras instituições, mas os outros 50 por cento procuram a Fundação por iniciativa própria. Regra geral, porque um outro emigrante recomendou os serviços e apoio da Fundação. Mas o mais importante, é realmente «não trabalhar os emigrantes de forma isolada. O nosso objetivo principal é a inclusão de emigrantes NPTs na comunidade portuguesa, pois assim estamos a prevenir situações de risco psicossocial. Queremos que se sintam integrados em todas as áreas de cidadania», explica Horta.

«Muitos chegam ao Algarve e conseguem encontrar trabalho mas em termos de legislação laboral, direito e deveres, postura e imagem profissionais estão desenquadrados pois estão habituados a uma realidade diferente. É um choque para eles. Muitas vezes desconhecem os seus direitos e/ou obrigações. Também nesse sentido iremos desenvolver sessões de direitos e deveres para desempregados, de imagem pessoal e profissional, vamos simular role-plays de entrevistas de emprego e treiná-los para que ganhem algum traquejo, e tenham a melhor postura e imagem», exemplifica.

«Também pretendemos desenvolver ações que convidem à partilha de todos, os nacionais e não nacionais, sobre a partilha de usos e costumes de diferentes povos. Não faria sentido desenvolvermos ações apenas para NPTs. Queremos envolver os portugueses e outros estrangeiros de união europeia. Temos tantos estrangeiros que adotam Portugal e o Algarve como a sua segunda casa!», reforça.

O projeto divide-se em dois eixos de intervenção fundamentais: o espaço «intervenção família integrada» que engloba atividades como o atendimento e acompanhamento social, apoio psicológico, espaço de partilha de saberes e aprendizagem, gestão doméstica e a aprendizagem da língua portuguesa; e o «diálogo intercultural» com educação parental, coaching, troca de saberes em áreas tao diferentes como gastronomia, canto ou vestuário, clubes de espetáculos e artes, tertúlias infantis com contadores de histórias, jogos de interculturalidades, atividades desportivas, o projeto «a minha rua» que irá gerar uma exposição fotográfica, entre outras iniciativas. O intuito é «facilitar a integração social, escolar e profissional tanto de crianças como dos seus pais, sensibilizando a comunidade local para a diversidade cultural e promovendo o diálogo e troca de conhecimentos e experiências».

As «Tertúlias infantis» serão das primeiras atividades a ter lugar, já no dia 30 de novembro, na escola da Abelheira. Direcionada para crianças do jardim-de-infância e primeiro ciclo, «teremos uma contadora de histórias que irá narrar um conto de natal de um país de NPT. Este será um espetáculo proporcionado para um universo de mais de 200 crianças para que todos possam conhecer um pouco mais sobre o Natal no país daqueles meninos estrangeiros que são os coleguinhas de turma».

«Temos por exemplo, um caso recente de uma família sul-africana com duas crianças que nos procurou. Os miúdos estavam isolados. Não tinham amigos e possuíam hábitos totalmente diferentes. No entanto, gostavam muito da componente desportiva e no seu país praticavam vários desportos. Após um simples contacto nosso, na semana seguinte, já estavam integrados no clube de rubgy de Loulé e consta que são excelentes jogadores. E estão super felizes e já têm alguns amigos. E bastou apenas um simples contacto!», refere.

Karla Caiado, Nelson Horta, Lisete Brito e Vasco Cary.

Nelson Horta recorda que «também os portugueses têm uma cultura de emigração muito elevada e muitos já passaram pelo mesmo. Não falar português, não saber onde é uma repartição de finanças é muito complicado. Quando não se tem estabilidade financeira, económica ou familiar, estas pessoas procuram recomeçar num outro país. Há que criar essa inclusão ao invés de ostracizar estas pessoas. Somos um povo que sabe receber e o nosso lema é de todos para todos com dignidade e igualdade de direitos».

Karla Caiado, a assistente social deste projeto, nasceu no Brasil, casou-se com um português e mesmo assim sentiu na pele os problemas de ser uma emigrante em Portugal. «Não havia um local com a informação centralizada. Mesmo no website do consulado, não havia muita informação então sentia-me desamparada e saltava de entidade para entidade. Faltava sempre alguma coisa». Depois de trabalhar numa casa abrigo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e no Centro Nacional de Apoio ao Emigrante (CNAIM) não pensou duas vezes em candidatar-se para colaborar no projeto «Loulé Sem Fronteiras». «Mais do que apenas informar quem chega ao nosso país, eu quero ajudá-los no terreno. Fazer verdadeiramente o trabalho social. Acompanhá-los e dar o apoio in loco», refere.

E avança que «não existem muitos projetos para imigrantes a nível nacional. Este é um projeto pioneiro em Portugal. E vai muito para além da informação! Temos uma oferta e campo de ação muito vasto que trabalha múltiplas questões de integração, valorização da própria partilha de conhecimentos. E acontece muitas vezes, dar o meu próprio exemplo. Sinto que posso ser uma inspiração também para quem nos procuram pois já estive na situação deles. Hoje dedico-me a ajudar quem chega a Portugal».

O atendimento aos emigrantes acontece duas vezes por semana em três locais distintos: em Quarteira (centro comunitário António Aleixo), Almancil (Loja do Munícipe) e Loulé (Av. José da Costa Mealha, n-º 14).

A Fundação António Aleixo

Em 25 de maio de 1995 foi constituída uma Fundação de direito privado tendo como patrono António Aleixo, com 44 fundadores. A Fundação tem por objecto contribuir para o desenvolvimento do Concelho de Loulé nos domínios social, cultural, educativo, artístico e científico. A Fundação prossegue várias respostas sociais, como o serviço de Apoio Domiciliário, Centro Comunitário, Espaço infantil em Loulé, Creche Meninos do Aleixo em Quarteira, Educação Pré escolar em Quarteira, apoio para Bolsas de Estudo, Loja Social, Cantina Social, Big Days (dinamização de festas de aniversário de crianças) e mais recentemente o projeto “Loulé sem fronteiras”. O orçamento para 2018 é de aproximadamente 1,7 milhões de euros, sendo o seu financiamento repartido em Instituto da Segurança Social (40%), Utentes – (37%), Câmara Municipal de Loulé (15%), Alto Comissariado para as Migrações (4%), IEFP (1%) e diversos (3%). A Fundaçao António Aleixo possui cerca de uma centena de trabalhadores, sendo 88 do quadro ou com contrato de trabalho e os restantes em regime de prestação de serviços e a tempo parcial.

Novos projetos para 2018

Durante o próximo ano o Centro Comunitário de Quarteira será ampliado através da construção duma sala destinada a formação, cujo projeto já foi aprovado pela Câmara Municipal de Loulé e terá um orçamento avaliado em 50 000,00 €. As áreas de formação serão em línguas e literaturas estrangeiras, comércio, serviço de apoio a crianças e jovens, trabalho social e orientação e hotelaria e restauração, para as quais a Fundação se encontra devidamente credenciada.

Categorias
Destaque


Relacionado com: