Loulé revisita memórias da II Guerra Mundial

Mostra recupera livro de 1945 com o único relato impresso na primeira pessoa e em português de um sobrevivente de Buchenwald, que viveu 30 anos em Loulé.

A questão de fundo que deu o mote à exposição «Trabalhadores forçados portugueses e louletanos no III Reich» foi perceber «porque motivo houve tantos portugueses em campos de concentração nazis na Europa?». Para responder, juntou-se uma equipa liderada pelo historiador Fernando Rosas, coordenador do projeto, António Carvalho, investigador e diretor do Museu Nacional de Arqueologia, os investigadores Cláudia Ninhos e António Muñoz (Universidade Nova de Lisboa), Cristina Clímaco (Universidade Paris 8) e Ansgar Chaefer (Goethe-Institut).

A ideia surgiu a partir de visitas de campo que Fernando Rosas e António Carvalho fizeram a vários dos antigos presídios do regime nazi. Intrigados com a constante presença de nomes portugueses na lista de prisioneiros em Dachau, Auschwitz ou Buchenwald, questionaram-se sobre «como é que estes nossos compatriotas tiveram tal destino, sendo Portugal um país neutral?» durante o conflito.

A investigação mereceu o apoio da instituição alemã EVZ, que tem como missão indemnizar as vítimas do trabalho forçado na Alemanha fascista. Por seu turno, esta estrutura é financiada pelas empresas que beneficiaram desta mão de obra esclavagista durante o nazismo «e agora lavam a consciência», explicou Fernando Rosas.

«Tivemos de consultar vários arquivos na Alemanha, França e Portugal, durante cerca de três anos». Já existia uma exposição sobre este tema a percorrer vários locais da Europa, por isso, Rosas sugeriu juntar a essa exposição os resultados da pesquisa sobre os prisioneiros portugueses. «E agora, estamos a fazer aqui em Loulé o que fizemos antes com Portugal. Acrescentámos a parte louletana», explicou.

Depois de ter visto a exposição no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, o autarca Vítor Aleixo desafiou Fernando Rosas a prosseguir com a investigação debruçando-se sobre a realidade local louletana no sistema concentracionário nacional-socialista.

«Acabámos por descobrir mais de 10 louletanos. Porquê tantos? Combinámos trazer cá a exposição acrescentando-lhe uma secção para explicar e enquadrar» o que aconteceu a estes algarvios, descreveu.

A investigadora Cristina Clímaco deparou-se com muitas vidas «marcantes, como é o caso de José Agostinho das Neves, um percurso dramático de alguém que é internado no primeiro dia de guerra, até 30 de julho de 1944.

Dentro do número de louletanos que sofreram trabalhos forçados, há histórias e percursos que, para mim, ganharam uma dimensão muito emotiva. Deixamos de os ver como um documento e passam a ser quase como pessoas da família», revelou.

«O caso de José Evangelista é uma investigação que não poderia ter sido feita sem a colaboração dos familiares. Neste caso, tinha apenas um nome, uma morada em França dos anos 1930 e um campo concentração. Fiz uma pesquisa na Internet, encontrei um contacto e foi a filha do José Evangelista que me atendeu o telefone. Foi uma emoção para eles e para mim. Duas horas depois tinha fotografias dele… para perceberem como é importante a colaboração dos descendentes. Este envolvimento dos parentes é importante, pois demonstra um grande interesse e alegria em mostrar que há envolvimento da emigração portuguesa na defesa da democracia».

Vítor Aleixo considera que «compete às autarquias reabilitar, descobrir e cultivar a memória dos nossos antepassados, sobretudo quando esta se cruza com acontecimentos tão trágicos que não devem ser esquecidos» para que nunca mais se possam repetir. O objetivo da autarquia é agora trazer os alunos de todos os agrupamentos para conhecer e debater este capítulo tão negro da nossa História recente da Europa e da Humanidade. A exposição estará patente até 8 de dezembro.

Município recupera livro histórico

Um dos momentos altos da inauguração da mostra «Trabalhadores forçados portugueses e louletanos no III Reich», na sexta-feira, dia 8 de junho, na Casa Memória Eng.º Duarte Pacheco, em Loulé, foi anunciado pelo investigador António Carvalho. «Está aqui na sala connosco, Christine Henry, filha do autor do único livro publicado em 1945, onde o mesmo relata na primeira pessoa e em português, a vida e as experiências que teve em Buchenwald», um dos maiores campos de concentração, criado pelo regime de Adolf Hitler em 1937, nas imediações de Weimar, Alemanha.

Embora não tenha sido um campo de extermínio, os prisioneiros eram condenados a trabalhos forçados. Funcionou até ser libertado pelo exército norte-americano, em 11 de abril de 1945, tendo recebido mais de 250 mil detidos de 36 países. Estima-se que cerca de 56 mil prisioneiros foram assassinados de forma arbitrária pelos soldados da Schutzstaffel (SS) ou morreram vítimas de fome, frio ou doenças. Quando o campo foi libertado pelos aliados, havia apenas 21 mil prisioneiros.

Depois de ter passado por essa terrível experiência, o francês Emil Henry escolheu Loulé para viver os seus últimos 30 anos de vida. Hoje, em jeito de homenagem, o município irá republicar a sua obra pela editora «Tinta da China», e distribuí-la de forma gratuita.

O livro foi «escrito imediatamente a seguir ao momento que Emil é libertado. É uma obra que já não existe, mas que a Câmara irá reeditar enquanto serviço público, e como forma de honrar a memória daqueles que sofreram os horrores do nazimo na Europa. É uma forma de não deixar que a história seja apagada», explicou o autarca louletano Vítor Aleixo ao «barlavento».

Christine Henry, inaugurou no mesmo dia, a exposição «Birds» no Convento de Santo António. Através de instalações, fotografia e pintura, presta uma homenagem aos homens que durante a II Guerra Mundial tudo fizeram para sobreviver na condição de prisioneiros. A exposição pode ser visitada de terça a sexta-feira, das 10h00 às 18h00, e aos sábados, das 9h30 às 16h00.

Trabalho forçado movia a máquina de guerra nazi

«Esta exposição marca a participação e a presença de pessoas de Loulé que se viram apanhadas neste acontecimento trágico que foi a II Guerra Mundial com o regime Nacional-socialista na Alemanha», explicou Vítor Aleixo, presidente da Câmara Municipal de Loulé, durante a inauguração da mostra «Trabalhadores forçados portugueses e louletanos no III Reich», na sexta-feira, dia 8 de junho, na Casa Memória Eng.º Duarte Pacheco, em Loulé. Manuel Alexandre João, Casimiro Martins e José Evangelista são apenas três nomes de louletanos com algo em comum: todos emigraram em busca de melhores condições de vida e todos morreram em campos de concentração. Entre 1940 e 1945, os emigrantes louletanos confrontaram-se com as várias formas de trabalho forçados além-fronteiras. Além da deportação para o sistema concentracionário e a detenção nas prisões do III Reich, alguns foram obrigados a participar na guerra.

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