Lagoa quer ser capital dos vinhos do Algarve, mas CVA não aceita

Registo da marca pela Câmara Municipal de Lagoa não foi vista com bons olhos pela Comissão Vitivinícola do Algarve, que cancelou parcerias em vigor.

A Câmara Municipal entendeu registar a marca «Lagoa Capital dos Vinhos do Algarve», no final de 2016, mas a decisão não foi bem aceite pela Comissão Vitivinícola (CVA) que repudiou, na semana passada, a «utilização abusiva e unilateral» deste título. E chegou ao ponto de cancelar todas as parcerias que tinham sido estabelecidas com o executivo da autarquia lagoense.

Em causa, por um lado, está a expressão Vinhos do Algarve, que dá também mote a uma marca registada em 2010 pela CVA, presente na comunicação gráfica e identidade destes produtos regionais
algarvios.

Por outro lado, a nova capital dos vinhos do Algarve transmite uma «falsa imagem de domínio do concelho de Lagoa sobre a produção vínica da região do Algarve», argumenta a CVA em nota de imprensa.

A entidade que certifica os vinhos e representa os produtores não se revê no título adotado pelo município, sublinhando que não foi consultada durante o processo.
Contactada pelo «barlavento», a Câmara Municipal de Lagoa prefere não «alimentar polémicas», pois este trata-se de um simples «registo de uma marca e logótipo, naquela que é uma estratégia de marketing territorial».

Esta nova pretensão foi publicada no boletim de Propriedade Industrial no dia 20 de dezembro de 2016, com indicação de que iria decorrer um período de dois meses para quem se julgasse prejudicado submeter reclamações. A apresentação pública «foi realizada a 18 de fevereiro de 2017», justificou a Câmara Municipal, findo esse prazo.

Foi nesta altura, que a CVA tentou minimizar o mal-estar, segundo relata, tendo o seu Conselho Geral proposto que o título de Capital dos Vinhos fosse rotativo e atribuído a todos os concelhos com produção vínica, sendo que a estreia da iniciativa caberia a Lagoa, que receberia ainda a 10ª edição do Concurso de Vinhos. No entanto, a resposta de Lagoa «não satisfez as pretensões legítimas da CVA».

Francisco Martins, presidente da Câmara Municipal de Lagoa.

A entidade até enaltece o papel de Lagoa no reconhecimento deste produto, mas decidiu apresentar uma reclamação junto do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), para que o logótipo de Lagoa seja reprovado. Em paralelo, também ficou decidido cancelar todas as parcerias e eventos programados com o município de Lagoa.

Já a autarquia destacou que a CVA apenas contesta o uso da expressão Vinhos do Algarve, não o resto. «A Câmara Municipal tem consciência do trabalho que tem feito em prol dos vinhos de Lagoa e do Algarve, portanto está disponível para continuar a fazê-lo. O registo da marca surgiu apenas no âmbito da disponibilidade da Câmara de continuar a trabalhar», adiantou ainda a mesma fonte da autarquia. Agora, resta a ambas as entidades aguardar a resposta à reclamação feita ao INPI.

Hermínio Rebelo diz que atitude de Lagoa «não faz sentido»

O Escanção-Mor da Confraria dos Enófilos e Gastronomia do Algarve Hermínio Rebelo está contra a atitude da Câmara Municipal de Lagoa. «O Algarve tem quatro sub-regiões demarcadas. E eu pergunto: porque é que há de ser Lagoa a capital do vinho? Não faz minimamente qualquer sentido», opinou. Tavira, Lagos e Portimão não podem ficar de fora da equação, disse ao «barlavento». «Na minha perspetiva, o presidente da Câmara Municipal de Lagoa [Francisco Martins] está totalmente errado nesta decisão e a CVA tem toda a razão por não estar satisfeita», afirmou aquele que foi também «o primeiro chefe da câmara de provadores», que certificava os vinhos da região, na Comissão. Por esta ordem de ideias, «as pessoas, em particular as que não são da região, ficam convencidas que só em Lagoa é que existem vinhos», concluiu.

Algarve já escolheu os melhores vinhos em concurso

O X Concurso de Vinhos do Algarve 2017 realizou-se a 9 de abril, no Hotel PortoBay Falésia, em Albufeira, numa iniciativa da responsabilidade da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), em parceria com a Associação dos Escanções de Portugal (AEP).

Foram duas dezenas de inscritos que apresentaram os seus melhores vinhos brancos, rosados e tintos, com direito a Denominação de Origem Protegida Lagos, Lagoa, Portimão e Tavira e Indicação Geográfica Algarve. Os prémios serão entregues durante o Simpósio Vitivinícola do Algarve no dia 11 de maio.

O concurso chegou a estar agendado para Lagoa, mas a polémica entre a CVA e a Câmara Municipal local levou à passagem do evento para Albufeira.

Segundo Carlos Garcias, presidente da CVA, este é um concurso realizado pela primeira vez em 2006, numa parceria entre a então Comissão Vitivinícola Regional Algarvia e a Confraria dos Enófilos e Gastronómica do Algarve. No ano seguinte não se realizou por falta de estrutura da Comissão, sendo depois retomada em 2008, aproveitando a parceria existente com a FATACIL, organizada pela Direção Regional de Agricultura do Algarve (DRAPAlg) e Câmara Municipal de Lagoa.

«A partir de 2010, quando esta direção tomou posse entendeu que o concurso deveria ser entregue ao sector», recordou, até porque os concursos oficiais têm que ter como organizadora uma entidade ligada ao sector do vinho, onde não se incluem as autarquias.

«Era a DRAPAlg a responsável pelo concurso na altura. Em 2015, quando a CVA entrou, esta entendeu sair. A comissão organizava assim, em parceria a AEP, sendo a autarquia um patrocinador», referiu Carlos Garcias. O registo da marca como capital fez estalar o verniz, sendo que a CVA «entendeu que não devia dar proteção a este concelho», nesta situação de uso abusivo.

PS Lagoa está «abismado» com «ataque» do PSD

Luís Encarnação, presidente do Partido Socialista (PS) de Lagoa, mostra-se «abismado» com a posição que o Partido Social Democrata (PSD) do mesmo concelho tomou após ter conhecimento da posição da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA).

«Esperava que fosse solidário e defendesse Lagoa, não que viesse atacar colocando-se ao lado da CVA. Isto é que é verdadeiramente espantoso» e só «entendo isto como desespero político», argumentou Luís Encarnação.

Isto porque, esta semana, o PSD emitiu uma nota de imprensa, onde refere que «depois de um ano em que o executivo do PS na Câmara de Lagoa se vangloriou por ter alcançado o título Cidade Capital do Vinho para o concelho, depois de investir 400 mil euros diretos, não contabilizando despesas indiretas» estimadas em «200 mil euros, é no mínimo preocupante e de lamentar» esta situação.

Argumentam ainda que a autarquia com esta questão de registo da marca afirma «valores de arrogância e de prepotência», lamentando que «depois do empenho de tantos funcionários da autarquia», estes «vejam agora o seu trabalho desvalorizado» devido a quem tem «sérias dificuldades em ouvir e respeitar os parceiros».

Em resposta à oposição, Luís Encarnação referiu que a parceria cancelada pela CVA era a que diz respeito à décima edição do Concurso de Vinhos do Algarve. «É um evento criado em 2008, no tempo em que o PSD estava na Câmara Municipal. Devia saber que era uma parceria da autarquia com a DRAPAlg, no âmbito da FATACIL», destacou o socialista que, além de criticar o PSD de Lagoa, aproveita para colocar em causa a legitimidade da CVA de organizar este concurso em Albufeira, «à revelia da Câmara e da DRAPAlg».

O socialista rejeita as acusações de «prepotência e arrogância», pois a autarquia tornou-se parceira da CVA numa «perspetiva de partilha».

«O projeto Lagoa Cidade do Vinho 2016 foi sempre um projeto supra-municipal, de âmbito regional que envolveu todos os municípios do Algarve, os produtores, os hoteleiros e as principais entidades. Os funcionários da autarquia devem estar tão indignados como nós», até porque o «seu trabalho não foi desvalorizado, muito pelo contrário», resumiu o líder do PS local.
Luís Encarnação considerou que a autarquia tem feito um trabalho notável na promoção dos vinhos, porque estes fazem parte da história e identidade lagoenses.

Acredita que a autarquia tomará as «medidas que estão ao seu alcance para ser ressarcida de todos os eventuais danos que» a alteração do local do Concurso de Vinhos «possa ter criado».

Para o PSD de Lagoa, «os títulos conquistam-se pelo trabalho, história e reconhecimento de todos os intervenientes, não por imposição», criticando que este deveria ser o ano em que Lagoa devia receber o evento «Vinhos do Algarve, realizado desde 2008, somente interrompido abruptamente este ano». Deveria realizar-se na terra que ostentou o título «Cidade Capital do Vinho» em 2016.

Ainda com alguma ironia, e porque é uma «questão de títulos e de pormenores», Luís Encarnação refere que o evento chama-se Concurso de Vinhos do Algarve e Lagoa ostentou o título de Cidade do Vinho 2016. «O PSD devia de fazer melhor o seu trabalho», rematou, acrescentando que Lagoa terá toda a «legitimidade para continuar a organizar este concurso» com a DRAPalg.

Quinta dos Vales expande alojamento

O «Primeira Seleção Rosé 2016», um novo vinho de verão fresco e seco, conquistou os visitantes de mais um dia aberto da Quinta dos Vales, em Estômbar, concelho de Lagoa, no domingo, 2 de abril. Na ocasião, Karl Heinz Stock, fundador e diretor desta propriedade vitivinícola revelou que «estes eventos de são muito importantes, não apenas para nos estabelecermos como um dos principais produtores de vinho, mas também como um local que pode acolher qualquer tipo de evento privado». No próximo ano «iremos apresentar mais 15 pequenas e modernas unidades de alojamento tanto para arrendamento temporário como para quem procura férias de longa duração», a somar às casas de campo já disponíveis, segundo revelou o empresário alemão.

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